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Como eu vi e gostei da ilhade São Jorge (2008-2016) Parte 9

É nas Velas, de frente para o imponente Pico, que a ilha se centra, mas os seus segredos e encantos estão por todo o lado. S. Jorge é um exemplo de que o Homem pode viver em conformidade com a Natureza, se cada um souber ocupar o espaço que lhe é designado. O verde e o azul predominam, as estradas orladas por hortênsias. Lá em cima, à noite, os cagarros mantêm animadas conversas e alguns parecem crianças a chorar. Demorei duas noites a descobrir o que era aquele som original. É indescritível, mas ao mesmo tempo belo e melancólico. Durante a noite apenas se viam as suas sombras acompanhadas daquele lânguido som, a pairar por sobre a piscina do hotel, contigua às arribas e ao mar.
A nota mais forte das primeiras impressões era o calor abrasador, o maior já sentido em mais de três anos no arquipélago, mas os termómetros não aparentavam mais do que os valores normais entre os 20 e os 27 °C. Essa sensação iria permanecer durante a noite em que o ar condicionado ficava ligado todos os dias da estadia. Interrogado um local no Topo este disse que de facto a ilha era mais quente que as outras, mas no inverno também era bem mais fria.
Uma ilha sofrida, mas bela, agreste, mas acolhedora pelas suas gentes simpáticas e despretensiosas. Igualmente mereceu especial atenção para observar e pensar um pouco o que terá sido o dia 1 de maio de 1808, um pequeno monumento à ocorrência, ilustrado com um poema de Urbano Bettencourt.
O narrador interrompe a sua ação para atender às necessidades dos limpadores da fossa que semestralmente aqui vêm a casa lembrar-me que este é um dos preços por viver afastado da civilização das ETAR…uma rotina ao módico preço de 40 euros por semestre efetuada pelo funcionário da Câmara durante as horas normais de expediente…sem direito a recibo. Depois queixam-se da economia paralela e da fuga ao fisco. Mas já poderemos dormir com menos cheiro nauseabundo esta noite e de manhã ao acordar para ir ao café já não terei as minhas papilas olfativas agredidas.
Passamos depois, outra vez, pelos moinhos de vento na extremidade noroeste da serra do Topo (as novas energias eólicas não irão longe só com meia dúzia de pás a esvoaçarem).
Continuamos sempre a ver o imponente Pico, presença amiga e intimidatória que nos persegue desde a chegada. Sempre atento a todos os movimentos, espreitando por entre as nuvens que o coroam, dando a conhecer mil e uma faces ao longo dos dias, numa visão majestática bem diferente da imponência que tem quando visto da Horta e quase nos afoga.
Aqui em São Jorge, o Pico estende-se de norte a sul mostrando os vários cumes e domos que o compõem, pejado de cones correspondentes a tantos outros vulcões que sulcam a ilha, sempre ao lado, lembrando-nos que a tragédia está ao virar da esquina quando de novo, começar a roncar das entranhas da terra e nos começar a vomitar o conteúdo do seu estômago de magma que nos acompanha desde a criação da vida.
Se, por acaso deixamos de ver o Pico, o que raramente acontece, podemos ter a sorte de olhar as restantes ilhas do grupo central, a pequena bossa de dromedário chamada Graciosa, e a ilha Terceira. Mas na maior parte dos locais da cordilheira central e da costa sul temos sempre o Pico e o Faial a acompanhar-nos.
Queríamos explorar o parque natural da Silveira, mas não havia tempo, pois muito faltava ver para o pouco tempo que tínhamos. No dia seguinte voltamos a passear, e descobrir a costa norte. Fomos pela Beira, Ribeira do Nabo, Santo Amaro. Aqui, descobrimos uma estrada com uma inclinação de mais de 15% em que se não vê o fim da estrada, mas apenas o mar.…Começamos a descer em segunda velocidade até nos depararmos com um entroncamento e a estrada principal, mas mesmo em frente, um pequeno portão de metal separava-nos duma encosta bem pronunciada a pique até ao mar… Espera-se que ninguém tenha falha de travões…Santo Amaro estava nos preparativos para uma corrida de touros (à corda) que iria ter lugar nesse fim de semana.
Voltemos à ilha… A localidade de Toledo foi batizada por causa dos primeiros habitantes serem de Toledo (Espanha), mas nada tem que justifique tão nobre nome, a não ser a vista da Graciosa e Terceira a marcarem o seu horizonte marítimo.
Está numa área de Laurissilva, típica da Macaronésia, rodeado por três elevações, Pico Alto 766 m, de cinzas vulcânicas consolidadas e barro; a Nascente, o Pico do Loiçano com 411 m; e o Pico da Ponta Furada, a poente, com 622 m. Estas duas últimas elevações são geologicamente falando dois domos vulcânicos de média dimensão cujo surgimento é muito antigo.
O da Ponta Furada estende-se até ao mar e termina numa ponta rochosa de basalto maciço, e na extremidade existe um orifício gigantesco que a atravessa lateralmente e cuja explicação geológica é deveras difícil. Isto levou a que os habitantes dos Nortes (Norte Pequeno e Norte Grande), e de Toledo em particular criassem lendas numa tentativa de explicar o que humanamente é inexplicável.
Lendas transmitidas há séculos de boca em boca pelas populações. Conta a lenda, que há muitos, anos, quando Deus ainda andava pelo mundo viveu na ilha de São Jorge.
Um dia, São José, o menino Jesus e a Virgem Maria meteram-se num batel a remos e foram navegar junto às grandes falésias da costa norte, algumas com mais de 600 metros de altitude. Era um dia de sol e de mar manso e a viagem estava a correr bem. No entanto São José, prudente como era e conhecedor da costa norte, sabia que tinha muitas correntes e perigos escondidos e por isso procurava sempre estar o mais ao abrigo da terra que lhes era possível.
Depois de muitas horas a navegar São José estava cansado de remar e quando chegaram junto ao local denominado Ponta do Garajau se lhes deparou uma enorme formação de terra que entrava pelo mar dentro, descia desde as altas serras e mergulhava nas profundezas dos oceanos. São José com pressa de chegar à localidade do Toledo para descansar, não estava com predisposição para remar ao redor de tão grande formação. Ficou a pensar no que havia de fazer, no entanto, não pensou muito e confiando no poder Divino, conta a lenda, que levantou a mão, estendeu o dedo indicador e tocou no centro da grande formação geológica, que em vez de ser uma maciça rocha de basalto mais parecia de massa de pão de milho. Logo o centro rochoso cedeu e deu origem a um buraco de grandes dimensões e ao nível da água, por onde São José a sua Família passaram no barco a remos. São José diz a lenda, ficou muito feliz e tomou o rumo do Toledo, onde chegou antes do fim do dia. Era verão e a Sagrada Família gostou tanto da paisagem, do ar fresco da montanha, dos campos floridos com belos bardos de hortênsias que resolveu fixar a sua residência para sempre no Toledo.
Rapidamente a população se afeiçoou à Sagrada Família e construiu uma ermida para a sua residência, a Ermida de S. José do Toledo. Segundo a lenda, a altura do buraco feito por São José é igual à altura da torre da igreja. A pedra empurrada pelo dedo de São José para abrir caminho para a passagem encontra-se no mar a dezenas de metros do maciço rochoso que lhe deu origem, formando um pequeno ilhéu que emerge ligeiramente acima das águas. Assim nasceu a Ponta Furada, uma das mais estranhas e curiosas formações geológicas de S. Jorge, que aguarda, no seu leito de mar, quem sabe outro passeio de São José e da Sagrada Família.
O domo do Pico do Loiçano fica junto a um dos acessos às fajãs do Toledo, nomeadamente à Fajã de Vasco Martins e à Fajã Rasa. Do cimo desta elevação além de se ter uma vista soberba sobre grande parte da costa norte, da ilha Graciosa e da ilha Terceira é ainda possível ver o casario do Toledo misturado por entre os campos verdes das pastagens e a montanha do Pico Alto que do cimo dos seus 766 m., olha serena para a vida que se desenrola cá em baixo. Do cimo do Pico Alto é possível observar não muito longe, as restantes ilhas do grupo central: Faial, Pico, Graciosa e Terceira.
Ao fim da tarde fomos encontrar-nos com a Ana G, ex-colega da minha mulher na Maia, que ficara colocada por três anos em São Jorge. Conhecemos o marido e o filhote de dois anos e a saga da chegada deles uma semana antes. Tinham escolhido uma casa com quinta e muito espaço agrícola em junho, deixaram os carros e as mobílias e ao chegarem definitivamente ao aeródromo, tinham o senhorio viúvo a dizer-lhes que tinha encontrado a mulher dos sonhos, e não poderia alugar a propriedade pois não iria regressar aos “States”, mas ia ficar ali.
Ficaram desesperados e aboletaram-se onde puderam durante uns dias até encontrarem nova casa na Queimada onde nos receberam para um lanche ajantarado de salpicão, alheiras e outros enchidos acabados de trazer de Bragança donde são naturais. Foi excelente comer aquelas delícias naquele ambiente paradisíaco sob a sombra protetora do Pico enquanto o sol se punha. Dormimos que nem sei lá o quê depois do delicioso jantar, simples, mas sentido e amigo, de pessoas que eu e o João (cansado de brincar com o petiz) tínhamos acabado de conhecer. Gostava de os ver outra vez, gente de bem, aquela que fomos encontrar acabada de chegar das berças maternas do autor. Ou mais uma história de como os professores são os únicos profissionais em Portugal que fazem como o caracol (casa às costas).
Porque não os médicos, enfermeiros e outros? Só professores? Faz lembrar a proposta da avaliação dos professores para outras profissões. Já que muitos jornalistas e comentadores defendem e compreendem o modelo proposto para a avaliação dos docentes, estranho que, por analogia, não o apliquem a outras profissões (médicos, enfermeiros, juízes, etc.). Se é suposto compreenderem o que está em causa e as virtualidades deste modelo, vamos imaginar a sua aplicação a uma outra profissão, os médicos.
A carreira seria dividida em duas: Médico titular (a que apenas um terço dos profissionais poderia aspirar) e Médico. A avaliação seria feita pelos pares e pelo diretor de serviços. Assim, o médico titular teria de assistir a três sessões de consultas, por ano, dos seus subordinados, verificar o diagnóstico, tratamento e prescrição de todos os pacientes observados. Avaliaria também um portefólio com o registo de todos os doentes a cargo do médico a avaliar, com todos os planos de ação, tratamentos e respetiva análise relativa aos pacientes.
O médico teria de estabelecer, anualmente os seus objetivos: doentes a tratar, a curar, etc. A morte de qualquer paciente, ainda que por razões alheias à ação médica, seria penalizadora para o clínico, bem como todos os casos de insucesso na cura, mesmo que grande parte dos doentes sofresse de doença incurável, ou terminal. Seriam avaliados da mesma forma todos os clínicos, quer a especialidade fosse oncologia, nefrologia ou cirurgia estética…Poder-se-ia estabelecer a analogia completa, mas penso que os nossos ‘especialistas’ na área da educação não terão dificuldade em levar o exercício até ao fim. A questão é saber se consideram aceitável o modelo? Caso a resposta seja afirmativa, porque não aplicar o mesmo, tão virtuoso, a todas as profissões? Será?! Já agora…Podiam começar pela Assembleia da República e pelos (des)governantes.

Chrys Chrystello*

*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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