Já passaram quase três anos desde que o governo anunciou, com pompa e circunstância, a gratuitidade das creches. Uma medida que se aplaude, sem reservas. O problema é que, entretanto, as vagas não se multiplicaram por decreto — continuamos com creches sobrelotadas e listas de espera quilométricas. A solução agora encontrada? Empurrar crianças de dois anos, prestes a fazer três, diretamente para o pré-escolar.
Sim, leu bem: crianças condicionais (nascidas após 15 de setembro do ano civil), que apenas por opção dos pais deveriam entrar no mesmo ano escolar dos que nasceram em janeiro, estão a ser obrigadas a ir para a escola. No caso da transição da creche para o pré-escolar, podem ser crianças ainda de fralda, muitas vezes mal saídas da fase do biberão, ainda a necessitarem de dormir a sesta, e que de preferência, não façam chichi no tapete.
A ironia é que o pré-escolar nunca foi pensado para isso. As salas não estão preparadas para rotinas de muda de fraldas, para birras próprias de berçário ou para a logística que acompanha crianças tão pequenas. Mas o governo decidiu que, para resolver a falta de creches, nada como reinventar o pré-escolar como uma espécie de “creche 2.0”, sem perguntar a educadores, auxiliares ou pais se tal faria sentido.
Claro que o argumento oficial é bonito: “as crianças beneficiam de contacto precoce com educação pré-escolar”. Na prática, trata-se de libertar vagas — e de empurrar para a frente o problema estrutural da falta de investimento em novos equipamentos. Porque construir creches dá trabalho, custa dinheiro e não rende títulos imediatos nos jornais.
Entretanto, quem paga a fatura são as próprias crianças. Entram num espaço para o qual não têm maturidade psicológica, fisiológica ou social, com risco de comprometer o seu desenvolvimento natural. Mas isso é apenas um detalhe menor perante a estatística redonda da gratuitidade universal.
Não é culpa das crianças que o governo tenha lançado uma medida louvável sem preparar o terreno para a sua execução. O resultado é este: um remendo legislativo que trata os mais pequenos como peças móveis de um puzzle mal desenhado.
E depois admiram-se que os pais desconfiem, que os educadores se sintam sobrecarregados e que as próprias crianças fiquem para trás. Se queremos políticas educativas sérias, precisamos de mais do que números bonitos em comunicados de imprensa. Precisamos de investimento real, coerência e respeito pelo tempo de cada criança.
Porque convenhamos: o futuro não se constrói à pressa, nem à custa de crianças ainda de fralda.
Carlos Caetano Martins *
- Engenheiro Técnico Sénior
Dirigente da Iniciativa Liberal Açores