Cedo se acorda para vindimar, ainda o corpo pede a cama, mas a mente, já atenta, só pensa no trabalho, porque é o som do calhau que nos desperta. Milhares de pedras que se atingem e sobre si rolam, compondo uma orquestra sinistra, um som que não é da terra nem do mar, é do meio, da fajã, que nos chama em feitiço. Quando se acorda antes do mar na Rocha da Relva, parece que se rouba às ondas um momento de intimidade, um instante suspenso entre acontecimentos, difícil de explicar, mas fácil de sentir. Tenho a certeza de que algum dia, se me concentrar e retirar o som do calhau a rolar, ainda ouvirei um eco distante do meu avô:
“Oh Candeeiro, oh Boca Grande”, chama o avô aos dois netos mais velhos. Não é uma ordem, é um aviso porque a uva não espera, dizia ele, com um receio supersticioso de que a vinha, planta de humores, se zangue com a demora. Lá vão os netos em semi-bocejo e pés pesados, inspirados pela manhã inquieta, cada um com o seu balceiro, cada um de navalha e ala que se faz tarde. Começa a vindima…
Um rocheiro é arraçado de cabra-montês, percebe-se logo quem já correu num calhau, quem já trilhou entre vinhas enredadas com batatas, melancias e mais de tudo um pouco. A falta de espaço na fajã transforma cada metro quadrado num puzzle de mil peças, onde só a memória de avô conhece o desenho final, restando para os subalternos netos a tentativa fútil de navegação às cegas. A folha da vinha esconde os segredos da terra, e a uva, atrevida, já toca no chão. Os tios já sabem ler o mapa, mas preferem aproveitar o café com vista para os netos a vindimar. Já tiveram a sua dose em anos passados, e neste já fizeram tudo o resto, os rapazes que se terminem. No fim da apanha, lá descem para inspecionar, refilando por tradição, sobre os tantos cachos esquecidos nos recantos especiais das folhas que, por gozo, os esconderam. O avô consente, de sorriso no rosto. A avó, torce o nariz, juíza silenciosa que não vale a pena irritar… “Vamos almoçar!”, e é impressionante a obediência de uma família inteira. Já sentados, a beber um copo de água, observamos a destreza quase artística da anciã a apanhar os melhores cachos de uva para a sobremesa, sem os procurar, eles apresentam-se por respeito.
Já estão todos os balceiros cheios até à borda, conta certa. “Este ano foi bom” diz alguém todos os anos. Carrega-se a geringonça de madeira onde se machucam as uvas à mão, e chega a hora das netinhas novinhas, ou namoradas de netos leves, entrarem em ação. A estrutura não aguenta o peso do Boca Grande, muito menos do Candeeiro. Vai o primeiro balceiro de uva de cheiro, e lá vai uma priminha, descalça e de riso nervoso, esmagar à patada, para poupar as mãos dos tios e netos, que bem conhecem o fardo do ínicio penoso. O mosto já escorre, e é o cheiro que enche a alma de tradição. O ar da nossa rocha enche-se da história de uma família que se reúne para cumprir o castigo imposto por Baco, que, birrento, teima em ser pago todos os anos. Meu avô prova sempre o vinho doce nos instantes iniciais, basta um gole para a sentença: em ano bom, “Está doce”, em anos maus “Choveu muito, está aguado”. Por essa hora começam também as visitas, vizinhos rocheiros que perguntam sempre “Essa rocha têm dono?”, na esperança de que algo lhes acalme a sede. Na verdade, todos sabem que é só uma desculpa, porque nas fajãs as vindimas são uma competição, e cada copo partilhado é um relatório técnico mascarado de sede espontânea.
Cada balceiro atirado, é uma nova etapa, e as mãos, já tingidas de um roxo imperial, sofrem o castigo dos costumes. O movimento ritmado empurra as uvas para as relheiras onde se desfazem à força. No fim, restam os cachos, e quem os esfregou sai de cena para que o avô, com a perícia dos antigos, os abane com um gesto de caos controlado, arrancando-lhes a última esperança de vida. A vinha esquece os seus filhos. Entrega-os ao destino, que fermenta o líquido e encerra o ciclo.
Até à lavagem dos cestos, há vindima. O quanto esta frase popular pesou na minha adolescência, qual sentença inevitável. Sonhando com o mar da rocha a limpar-me pele, mas teimosamente restava sempre algo para lavar. As mãos, resignadas, nunca refilam, sempre conformadas às duas semanas tingidas, marcas de um ritual que a água não apaga, só o tempo. E o quanto eu não daria para que o tempo não apagasse a última vindima com os meus avós. Para que nunca terminasse o que lavar e, por capricho, a vindima não quisesse acabar.
Se eu pudesse sujar aqueles balceiros, vez após vez, só por mais um pouco com eles.
Philip Pontes