“Os Açores sempre foram uma tela colorida de flores e amor, outeiros reverdecidos, beijos e queijos; e foram sempre saudade, zurvadas abruptas, céus carregados de ventos amargos e a terra a detonar-se”. Que bela descrição das “remotas ilhas dos Açores, no fim do mundo português”. As palavras citadas foram retiradas do romance recentemente editado “Condenação”, do talentoso e consagrado escritor açoriano e português Pedro Almeida Maia. A primeira citação encontra-se na página 89 e a segunda na página 237.
Já várias pessoas apresentaram bem elaboradas recensões sobre essa obra literária. Trago aqui apenas um despretensioso testemunho de leitor que gostou muito de “Condenação”, que revela a vasta cultura do autor, que, de resto, fez aturadas pesquisas históricas para poder construir esse romance com base em factos históricos precisamente, a que juntou ficção com notável mestria, mostrando, ao mesmo tempo, o ambiente complexo da sociedade norte-americana dos anos 20 do século passado e o que era a difícil vivência neste arquipélago.
Nessa altura vigorava nos Estados Unidos da América (1920-1933) a chamada “lei seca”, que proibia a produção, comercialização e transporte de bebidas alcoólicas, mas que nunca deixaram de existir por produção ilegal e contrabando, o que resultou em crime organizado e muitas ações ilícitas. Como ainda hoje, a pena de morte existia em vários estados norte-americanos. Nos Açores a situação era muito penosa. O autor de “Condenação” sintetiza assim na página 172: “Pior do que uma pena de morte, era uma pena de vida”.
Com grande vivacidade narrativa, “Condenação” é muito mais do que “a história de um gangster açoriano na América”, que acabou condenado à pena de morte. Essa obra expõe e desenvolve elementos históricos, culturais, sociológicos, jurídicos, psicológicos, políticos e até económicos. Sei que o termo gangster já entrou em uso em Portugal, mas convém sempre referir o significado por uma questão de preciosismo: membro de uma organização criminosa, como um gangue ou máfia, que realiza actividades ilegais.
Na obra em análise eu diria que há tudo: sucessos e dramas, emoção e alegria, amor e contradição, reflexão e leveza, profundidade e humor, numa articulação muito bem conseguida. É uma obra marcada por muita humanidade, nos aspectos mais felizes e nos mais dramáticos. Não existem muitos livros assim. Chega-se ao fim da leitura e apetece voltar ao princípio. A seu tempo vou reler “Condenação”, para absorver mais e melhor tão intenso e tão valioso trabalho literário.
O escritor Pedro Almeida Maia, além de outras, tem uma qualidade fantástica e que eu quero deixar bem realçada: sabe o valor da palavra e das palavras. Demonstra um excelente domínio da Língua Portuguesa e transpôs para essa sua obra uma extraordinária riqueza de vocabulário. Aconselho todos a lerem “Condenação”, nomeadamente os mais jovens, para aprenderem a dominar de forma mais consistente o idioma pátrio e a adquirirem mais vocabulário.
“Condenação”, no fundo e de uma forma abrangente, é uma obra sobre a emigração açoriana, partindo de um caso histórico, que está documentado. O autor faz reflexões diversas sobre a emigração, para dizer, nomeadamente, que “os açorianos sentem saudade mesmo quando não lhes falta nada” (página 56), “o açoriano nunca abandona a ilha real: renuncia somente à ilha que pensa conhecer” (página 164) e “para muita gente, é preciso mais coragem para ficar na ilha do que para sair dela” (página 178). O autor também escreve na página 89: “Mas pior do que os tremores de terra são os tremores da alma. Como foram ensinados os ilhéus a resolver os assuntos do coração? Fugindo. Sair da ilha é partir-se”.
Depois de ter publicado as obras “A Força das Sentenças” e “A Escrava Açoriana”, além de outros trabalhos, Pedro Almeida Maia trouxe ao mercado livreiro e aos leitores “Condenação”, com 322 páginas e a chancela da editora Cultura. O já longo e valioso perfil profissional, académico e literário de Pedro Almeida Maia é conhecido e reconhecido. Ele é, para todos os efeitos, um distinto expoente da literatura açoriana, da literatura de significação açoriana ou da literatura portuguesa produzida nos Açores, segundo a perspectiva e o sentir de cada um. São conceitos que não se anulam entre si, porque a base é sempre a mesma, a nossa amada e rica Língua Portuguesa, que vem de séculos e que se projeta para um futuro de séculos. Pedro Almeida Maia vem dando importantes contributos para que assim seja. E está “condenado”, pois, a escrever mais e mais.
Deixo aqui uma ligeira nota de rodapé. Surge na página 77 de “Condenação” a expressão “ilha graciosense”, numa referência à ilha Graciosa. Com todo o respeito e toda a consideração por Pedro Almeida Maia, essa expressão não me soa bem. Tudo o que diga respeito à ilha Graciosa é graciosense, obviamente que sim, a começar pelos seus habitantes. A ilha em si mesma é apenas Graciosa, o adjetivo graciosense não se lhe aplica, em minha opinião. Eu, pelo menos, modesto trabalhador das palavras como jornalista durante muitos anos, não escreveria “ilha graciosense” ou, por analogia, nomeadamente, “ilha micaelense”, “ilha terceirense” ou “ilha corvina”. Mas isto é apenas um pequeno pormenor na extraordinária obra “Condenação”. De resto, posso até não ter razão ou a minha observação não fazer sentido. O que interessa, acima de tudo, é que “Condenação” deve fazer parte de todas as bibliotecas portuguesas, sejam públicas ou privadas.
Tomás Quental Mota Vieira