Um consórcio liderado por investigadores dos Açores — João M. Pereira, Gui Menezes e Christopher K. Pham — em colaboração com Adam Porter e Ceri Lewis, publicou o primeiro estudo que mede, durante um ano, os fluxos de microplásticos que afundam num monte submarino do Atlântico Norte.
A equipa instalou uma armadilha de partículas no cume do Monte Submarino Condor, a sul do Faial, e concluiu que até 444 milhões de microplásticos podem atingir anualmente o platô do Condor, reforçando a necessidade de programas de monitorização de longo prazo para avaliar o papel do mar profundo como repositório desta poluição.
O trabalho, publicado na revista Microplastics and Nanoplastics (2025), quantifica, pela primeira vez, o padrão anual e sazonal de afundamento de microplásticos num ambiente de monte submarino — ecossistemas conhecidos por elevada biodiversidade e dinâmica hidrodinâmica complexa.
Entre 15 de Maio de 2022 e 10 de Maio de 2023, uma armadilha de sedimentos (McLane Parflux 78H-21) foi operada a 230 metros de profundidade no cume plano do Condor, a cerca de 17 quilómetros a sudoeste do Faial.
No total, foram identificados 32 microplásticos entre 80 e 2675 μm, equivalentes a um fluxo médio anual de 0,18 microplásticos por metro quadrado por dia2. Extrapolando esse fluxo médio para a área do cume do Condor (6,85 km2), os autores estimam um afluxo potencial de 1,22 milhões de microplásticos por dia, ou cerca de 444,5 milhões por ano. A equipa sublinha que esta extrapolação, baseada num número absoluto reduzido de partículas, “deve ser interpretada com cautela”, mas indica ordens de grandeza relevantes para a pressão crónica de poluição nos montes submarinos.
Em termos sazonais, não se detetaram diferenças estatisticamente significativas nas taxas de afundamento, embora se tenha observado um aumento na primavera.
Quanto à morfologia e composição, registaram-se proporções semelhantes de fibras e fragmentos, predominantemente com menos de 1 mm de comprimento. Os polímeros dominantes foram polietileno (PE) e polipropileno (PP) nos fragmentos, e celulose e PP nas fibras. As cores mais comuns foram branco e verde nos fragmentos, e verde e preto nas fibras.
A presença relativamente elevada de fibras de PP verdes pode reflectir contributos de linhas de pesca perdidas — abundantes no Condor — além de fontes de superfície, numa área influenciada pelo Giro do Atlântico Norte.
O Monte Submarino Condor, com 35 km de comprimento e zona de cume raso de 6,85 km2, é observatório científico sem pesca desde 2010 e alberga jardins de corais, esponjas e espécies comerciais demersais. A sua dinâmica que inclui redemoinhos semiestacionários, ressurgência e circulação descendente sobre o cume, pode favorecer retenção e deposição local de partículas. Essa singularidade ajuda a explicar diferenças face a estudos de alto-mar com armadilhas colocadas na coluna de água e evidencia a necessidade de medições específicas em montes submarinos.
Os autores defendem a consolidação de séries temporais e a harmonização de protocolos (malhas, critérios analíticos, reporte), idealmente acoplando armadilhas de sedimentos a instrumentação física e replicando dispositivos para melhor quantificar deposição de partículas.
Este estudo estabelece uma referência inédita para os fluxos de microplásticos num monte submarino do Atlântico Norte e aponta para cargas anuais potencialmente muito elevadas a atingir o cume do Condor.
