O Climate Summit é o fórum de lideranças mundiais, conhecido como Cúpula do Clima, que antecede a realização da Conferência das Partes – COP e define os compromissos entre os países participantes. Na COP30, o encontro que trilhou a linha mestra que os grupos de trabalho deverão seguir durante a conferência, aconteceu nos dias 6 e 7 de novembro, em Belém. Mais de 143 chefes de Estado e autoridades estiveram reunidos para negociar os investimentos exigidos para a mitigação da crise climática. Nesta edição, as divergências e diferentes realidades foram deixadas de lado para abrir espaço a um mesmo consenso: há mais de 35 anos, quando foi publicado o primeiro relatório do Observatório Mundial do Clima, a humanidade está ciente de que o aquecimento seria devastador para o planeta. Não há mais tempo para dialogar, é preciso agir.
Pela primeira vez, uma Cúpula do Clima está a acontecer na maior bacia hidrográfica do planeta, que compõe o bioma maior diversidade da terra, onde residem milhares de povos da terra que conjugam sua vida com a preservação da floresta. Apesar da realização da COP30 em Belém não ter sido tão consensual, existe a visão de que a escolha tenha sido acertada, ao cogregar a participação da população, além de líderes mundiais. Afinal, tudo o que está sendo feito globalmente é para proteger “a casa” dessas pessoas.
Açores são aguardados
como exemplo de preservação
e conservação dos oceanos
Entre 11 e 18 de novembro, os Açores farão parte da COP30, protagonizando diversas atividades em palestras e mentorias na convenção e no grupo de trabalho dedicado aos oceanos. As presenças confirmadas em Belém incluem o Secretário Regional do Ambiente e da Ação Climática, Alonso Miguel, o CEO da Fundação Oceano Azul, Tiago Pitta e Cunha e o especialista em Ordenamento do Espaço Marítimo do Programa Blue Azores e da Fundação Oceano Azul, Adriano Quintela. O programa vem ganhando cada vez mais relevância, já que os oceanos são os maiores sequestradores de carbono da atmosfera e, portanto, os maiores reguladores do clima.
De acordo com as projeções, até
ao final do século, a temperatura
média da terra poderá subir
5 graus centígrados
Este é o pior dos cenários nas projeções científicas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas ainda reversível. No entanto, os primeiros 1,5 graus já foram atingidos em 2024. Ainda de acordo com o IPCC, para limitar os termómetros no parâmetro atual, seria necessária uma redução de emissões da ordem de 2% até 2030, e de57% até 2035, em comparação aos níveis de 2019.
Outro estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, entre 2030 e 2050, haverá 250 mil mortes adicionais anualmente por doenças relacionadas às questões do clima, como subnutrição, malária, diarreia e stress térmico por calor excessivo.
Fica claro que os países mais afetados serão os menos favorecidos, enquanto os países ricos seguem como sendo os mais poluidores. A exceção vem dos países em desenvolvimento do BRICS, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul. Quase metade das emissões globais de carbono vem desse grupo e os cinco países estão entre os 15 maiores emissores do mundo. A equação é simples: países de dimensões continentais, maior poluição, maior os estragos.
“Cada fração de grau centígrado [de aquecimento global] significa mais fome, deslocamento e perdas, especialmente para que são menos responsáveis pela crise climática.” António Guterres – Secretário Geral da ONU
A economia saudável depende
do clima saudável
Segundo os presidentes das COPs 29 e 30, Mukhtar Babayev e André Corrêa do Lago, até 2035, a necessidade de levantamento de investimentos para viabilizar a adaptação, a transição energética e a resiliência aos desafios da crise climática gira em torno de 1,3 trilhão de dólares. Até para a realização da Cúpula do Clima, a cifra aprovada parou antes da vírgula: somente 300 bilhões foram captados. Ambos acreditam que a meta é alcançável.
Parece muito, no entanto, considerando as outras tantas esferas, florestas, água, terra e ar, alimentos, transporte, turismo etc., se nenhuma providência coletiva for tomada, a redução dos ganhos mundiais poderá ser de 20% entre 2050 e2100.
Durante os discursos de abertura da Cúpula, a Enviada Especial para os Oceanos, Marinez Scherer, responsável pelo convite para participação dos Açores na COP30, deu uma ideia da dimensão do prejuízo da inação: “se os oceanos continuarem a ser acidificados, poluídos e aquecidos, os países perderão 0,25% de seu PIB em breve”.
“O objetivo é enfrentar as divergências para além dos muros da convenção. Aqui [no Climate Summit] serão ditas as palavras-bússola”, Presidente Luis Inácio Lula da Silva
É preciso dar atenção aos alertas da ciência. A intervenção do Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu que o caminho a ser seguido está traçado, mas avançar com o barco é responsabilidade de todos, resumindo assim o tom dos dois dias da Cúpula do Clima.
Almoço com o TFFF sobre
a mesa: Portugal se adiantou
em 1 milhão de Euros
O Presidente Lula da Silva e um seleto grupo de empresários e chefes de Estado aproveitaram a agenda do almoço para apreciar a gastronomia local, mas o menu principal foi o lançamento e a convocação para investimentos no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). O fundo pretende angariar cerca de US$125 bilhões para a conservação das florestas. Trata-se de um instrumento financeiro inédito, administrado pelo Banco Mundial. Quando as reservas atingirem US$25 bilhões, passará a realizar a repartição de dividendos para os investidores públicos e privados. A expectativa é devolver 4 dólares ao ano, por cada hectare de mata nativa mantida de pé. Outras vantagens estão previstas para os que aportarem investimento. Segundo Lula da Silva, o lançamento do Fundo ocorre em meio a dois impasses. O primeiro está na desconexão entre salões diplomáticos e a poluição. O segundo, na falta de sintonia entre a geopolítica e a urgência climática. E completou: “rivalidades estratégicas e conflitos armados desviam atenção do aquecimento global.
Portugal foi o primeiro país, depois do Brasil, a anunciar ajuda monetária à causa. O Primeiro Ministro Luís Montenegro abriu as ofertas e parece que teve a sorte consigo. Outros investimentos consideráveis vieram de nações tradicionalmente investidoras nas causas do meio ambiente, como Noruega e França.
“É uma posição que, naturalmente se enquadra muito nos desafios que temos em Portugal, [para] podermos responder àqueles que são hoje talvez os maiores desafios: os efeitos dos incêndios florestais, das cheias”; Luis Montenegro – Primeiro-Ministro Português
Apesar, do TFFF ainda despertar alguma desconfiança em termos de governança, efetividade de métricas, transparência de gestão, desenvolvimento das economias locais e comunidades etc., o seu primeiro dia de captação foi considerado um sucesso. A Noruega anunciou disponibilizar 3 bilhões de dólares, seguida por Brasil e Indonésia com 1 bilhão e França com meio bilhão de dólares.
“Nós estamos saindo do dia, [com a sensação de que,] pela primeira vez, numa COP, um instrumento concreto de soluções de ambientais, saiu do papel. Um dia muito emocionante para todos. Nós vamos integralizar esses investimentos muito rapidamente”; Fernando Haddad. Ministro da Economia do Brasil
Na primeira ronda, o TFFF recebeu o endosso de 53 países. É natural que países como Congo e Suriname, que detêm parte de reservas de florestas estejam satisfeitos com andamento dos anúncios, mas são os apoios de países que não fazem parte desse grupo que chamam a atenção, como Armenia, Australia, Áustria, Bélgica, China, Emirado Arábes, Irlanda, Japão, Mónaco, Países Baixos, Reino Unido e União Europeia e ainda, de países menos desenvolvidos.
A Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também celebrou: “normalmente a gente pensa em recursos financeiros, mas na verdade, para cada recurso público, temos os recursos das florestas e dos povos originários. Estamos muito entusiasmados, o TFFF já começou muito bem, muito antes de ter sido lançado hoje”, citando os vencedores do Prémio Earthshot 2025, promovido pelo Príncipe William, considerado uma espécie de “Prémio Nobel do Meio Ambiente”, revelados na noite anterior à Cúpula do Clima, no Rio de Janeiro. Com seu carisma habitual, o herdeiro do trono da Inglaterra esteve em visitas pela cidade, evocou a ação mundial na Cúpula do Clima e foi ovacionado pela audiência do mundo todo.
Localmente, o Governador do Pará, Helder Barbalho, apostou com confiança que, em Belém, as grandes economias do mundo vão fazer valer o que foi acordado no Tratado de Paris.
Finalizando, o Presidente do Brasil foi buscar no conhecimento ancestral a inspiração da audiência. E declarou: “a injustiça climática é amiga da luta contra a fome, de um novo modelo de desenvolvimento, onde não há espaço para conceitos ultrapassados. Seremos inspirados pelos nossos indígenas e pelas nossas comunidades tradicionais.”
Isso porque, de entre os povos Yanomamis, existe a crença de que “cada ser humano deve sustentar o céu para que ele não caía sobre a terra”. Se o céu é o limite, ainda não sabemos. Que a COP30 consiga alcançar os objetivos ambiciosos de todos os envolvidos, deseja-se força e resiliência. Por isso estamos aqui.
Acompanhe a COP30 com Marisa Furtado, correspondente exclusiva do Diário dos Açores, no Brasil
Por: Marisa Furtado
Correspondente exclusiva
do Diário dos Açores, no Brasil
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Foto © Raimundo Pacco
