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O milagre da multiplicação dos pães

Com maior ou menor força de razão, todos se acham no direito de usufruir do erário público, cuja fonte essencial de receita são os impostos.
Sobre isto, um episódio exemplar e altamente esclarecedor para muitos cidadãos decorreu no passado dia 30 de novembro, no debate televisivo (na SIC) entre os candidatos presidenciais António Filipe, um candidato que se apresenta pelas esquerdas, e João Cotrim, um candidato que se apresenta pelas direitas.
António Filipe, a certa altura insurgiu-se contra a história da “liberdade” na saúde (e depois também na educação) defendida por João Cotrim, pelo neoliberalismo e pelas direitas (não só pelo IL), a qual imaginava um sistema de saúde pública praticamente assegurado por privados, onde cada cidadão fazia como entendesse para tratar de si, estando à vontade para escolher a assistência sanitária onde e com quem muito bem decidisse cuidar-se, tudo garantido pelo Estado (o “Estado pagador” em lugar de prestador de serviços), ao mesmo tempo que defendia como regra e como princípio político básico a baixa dos impostos, em especial para os mais ricos. António Filipe deixou João Cotrim bem atrapalhado quando o acusou de, com esta teoria, ter o atrevimento de pretender ser capaz de realizar, como Jesus Cristo, o “milagre da multiplicação dos pães”…
As ideias do liberalismo, na economia, não são nenhuma novidade, são “bafientas até”, como lhes chamou António Filipe, pois já vêm do século XVI, e a sua sobrevivência, adicionada do prefixo “neo”, até aos dias de hoje, em nome da “liberdade” já criou ou apoiou muitas guerras, golpes de estado, fome, miséria e desigualdades sociais imensas e gritantes, por esse mundo fora, sempre sob o anacrónico epíteto ideológico de que é necessário haver ricos e grandes possidentes ou capitalistas, para deixar de haver pobres, miséria e fome. São conhecidos os resultados atuais: de um lado e sempre a crescer, 99% de gente que trabalha ou já trabalhou, bem como carenciados de toda a espécie, e do outro, 1% dos mais ricos e grandes acionistas que, insistentemente, cobiçam aumentar os seus lucros à custa de mais benefícios fiscais (menos impostos), de baixos salários e do aviltamento e exploração dos mais fracos.
Liberdade a sério é o Estado (nós todos), com a indispensável ajuda dos impostos e da justiça fiscal, procurar garantir a todos os cidadãos o acesso aos serviços públicos essenciais e de qualidade, e os privados procurarem, em especial, viver à custa dos clientes e dos utilizadores dos seus negócios, sem tentar apropriar-se dos fundos, serviços e setores económicos estratégicos do Estado, indispensáveis à promoção do desenvolvimento e da qualidade geral de vida dos cidadãos, e não apenas do crescimento económico.
Infelizmente, o poder dos grandes grupos económicos, com a inestimável ajuda dos meios de comunicação de massa e das redes sociais que controlam, tem-se vindo a instalar no poder político, pela direita e pela extrema-direita, estando hoje presente no diretório da UE, dos governos da República e do Governo Regional dos Açores, promovendo a injustiça social através dos seus “choques fiscais”, das suas revisões das leis do trabalho, das suas privatizações de empresas e serviços públicos essenciais, das suas quebras no investimento público ou das suas tentativas de assalto à Segurança Social, do subfinanciamento da Saúde, da Educação, da Cultura ou da Justiça Climática.
Como escreve a jornalista, Margarida Davim, na revista Visão, os neoliberais têm conseguido doutrinar muitos cidadãos, “na ideia que devem pagar por tudo aquilo que já pagam nos impostos” e que a culpa das atuais injustiças é da responsabilidade, não da ganância pelo lucro, mas do “…outro, aquele que não se esforça e “vive de subsídios”, mesmo que esse outro seja tão imaginário como essas fortunas de subsídios, ou que esse viver seja, afinal, tão miserável que não há como o invejar…”
Mário Abrantes

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