Não sou contra, desde que fique entre quatro paredes: Parte 2
Para além das aprendizagens da formação frequentada sobre as questões LGBTQIA+ com o Dr. Helder Bértolo da Associação Opus Diversidades, foi possível, ainda, conversar com uma mulher trans que partilhou um pouco da sua história – Ângela Sampaio – numa entrevista repleta de testemunho vivo das minhas aprendizagens e que cito.
“Os momentos mais importantes da minha vida”
“O acordar da cirurgia, foi um dos momentos mais importantes da minha vida.
Quando fiz a alteração do nome, em Portugal. Vim a Portugal só fazer isso.
Outro momento, foi o assento de nascimento que foi ter à casa da minha mãe. Estava à espera que a minha mãe um dia destes me telefonasse, fez uma videochamada e, com o papel na mão, disse ‘Olá, estou a falar com a senhora dona…’ e disse o meu nome completo. Ela sabia o que se passava. Naquele preciso momento, eu desatei a chorar na rua, porque sabia que ela o tinha recebido em casa. Foi um momento muito importante.
Depois … o ser chamada pelo nome, com naturalidade, por parte das pessoas que me viram do outro lado. É um momento de conquista, de realização. Falava ontem com o meu namorado, e dizia-lhe que há pouco tempo, um primo meu tratou-me pelo meu nome morto… aquela coisa de não aceitarem a afirmação de género e de se oporem. Mas no geral, não senti dificuldade por parte das pessoas com o meu nome. Quem não aceitou, desapareceu do mapa, porque eu também não fiz questão de manter contacto.”
Sobre ser trans
“Eu era muito brincalhona, mas muito submissa. A afirmação de género fez-me mais confiante. Neste momento, estou muito mais atenta à doença mental e à linguagem das pessoas, tanto física, como verbal, porque estou constantemente a analisar as pessoas. Não me quero demorar onde não sou bem-vinda. E isso de alguma forma tem me trazido alguma leveza e coisas boas.”
“Na altura em que eu comecei a minha afirmação de género, que foi em 2016, não havia tanta informação. Nos dias de hoje, se as pessoas leem, se a procuram, isso são outros quinhentos. O que é importante as pessoas saberem que é a felicidade de cada um e nós não temos nada a ver com isso. A minha vida não interfere na sua e a sua não interfere na minha. Se eu corto o cabelo curto, ou tenho o cabelo grande, se eu tenho o peito grande, se eu tenho uma vagina, ou se tenho um pénis… Para que é que isso interessa? O estarmos bem, psicologicamente e fisicamente, e podermos ter uma vida cheia de coisas boas, isso é que é o mais importante.
Acho que chegámos a um ponto em que, por exemplo nas votações, politicamente falando, as pessoas deixaram de votar num bem comum, para votarem e para se vingarem de terceiros, para fazerem pirraça. ‘Se eu não estou bem, tu também não vais ficar bem.’ Acho que este pensamento é tão pequenino.”
“O que me deixa orgulho”
“Estar viva, ter resistido. Depois de tanta coisa feia ter acontecido na minha vida, assim como a muitas outras mulheres trans – os homens trans têm a vida um pouco mais facilitada do que nós – o ter conhecido pessoas que me conseguiram ajudar a procurar um caminho. Estou muito atenta ao que me rodeia e não perco o foco. É muito importante, para que a doença mental não me volte a pregar partidas. Com muita facilidade a doença mental nos apanha. Infelizmente, não há ninguém que nos queira bem na sociedade e isso custa bastante. Acabamos por nos sentir inúteis, feias, monstruosas para a sociedade. Estar viva é de facto uma das coisas mais importantes. Viva, e melhor da minha saúde mental.”
“Não nos escondam”
“Quando algo acontece contra pessoas trans, ou negras, ou mulheres CIS, as leis são muito leves. Já que as pessoas não são todas feitas de amor e viverem uma vida, como direi… de amor de uns para os outros… se é esta a linguagem que querem, que seja feita. Por exemplo, o racismo, supostamente, é crime, mas depois, metido com a liberdade de expressão, perde todo o valor. Isto é muito pouco. Já chega de nos matarem, de nos oprimirem, de nos chamarem publicamente de aberrações.”
Homens e Mulheres trans
“Socialmente, tudo o que é feminino é mau. ‘Corres como uma rapariga.’; ‘Agora estavas a chorar, parecias mesmo uma menina.’; ‘O lugar da mulher é – onde todos nós sabemos.’ A mulher não é importante na sociedade. O patriarcado está de tal forma enraizado que se nota até quando há a afirmação de género. Uma mulher que passa a ser homem, parece que subiu de nível. Então, se tem maior passibilidade (passar despercebido como pessoa CIS), são mais socialmente aceites. Os homens trans são mais aceites, por causa disso. Como diz a minha fofíssima Keyla Brasil, ‘Eu matei o homem que as pessoas viam.’ E isso traz muita revolta às pessoas. Ela atreveu-se a mudar, profundamente, algo que a fazia infeliz.
Para além disso, a testosterona é forte. As mulheres trans, quando começam o processo de hormonização, tomam estrogénio e bloqueador de testosterona. Os homens trans, não. Só tomam testosterona. Portanto, eles conseguem ter características masculinas com muito mais rapidez e muito mais acentuadas. Ao passo que a mulher trans não tem tanta passibilidade e isso traz aquela coisa das pessoas gozarem e acharem que uma mulher trans – que passa pela afirmação de género – tem de ser toda princesa, toda perfeita. Então vemos muitas mulheres trans a fazerem cirurgias ao rosto, ao corpo para poderem terem um trabalho, para serem amadas. A vida da mulher trans é muito mais difícil. É um homem que desce de categoria. Se tiverem voz grave, se tiverem características masculinas no rosto, dificilmente são aceites.
Há uns anos atrás, penso que em 2019 ou 20, a conversar com uma senhora de uma loja, eu dizia-lhe: ‘Eu não sou essa princesinha.’ Ao que ela me respondeu: ‘Mas vais ser, filha. Vais ser.’ E eu disse-lhe: ‘E quem é que lhe disse que eu quero ser uma princesinha?’ E ela ficou com um ar confuso a olhar para mim. ‘Se é para seres mulher, tens que ser perfeita.’, é uma ideia muito enraizada. Se é uma mulher trans e tem muitas características masculinas… a mulher CIS, ao seu lado, pode ter as mesmas características: a sobrancelha saída, a testa mais larga, os ombros mais largos, a voz mais grave, se for a mulher CIS, está tudo bem, ela nasceu mulher. A mulher trans já não pode ser assim. Isso, socialmente, traz doença mental, mortes – porque as pessoas não têm dinheiro para fazerem cirurgias – outras acabam por se prostituir, por causa disso, para poderem ganhar dinheiro e poderem pagar uma cirurgia. Há pessoas trans que nem trabalho a lavar escadas conseguem. Dizem ‘São todas umas prostitutas.’ É a sociedade que as empurra para lá. Como é que pagamos as nossas contas? A nossa renda, alimentação, medicamentos, etc? Se a mulher trans não tem uma boa base… ser bem amada de raiz, uma boa estrutura familiar, uma boa estrutura a nível de amizades, descamba tudo. Enquanto que um homem trans, ao fim de um ano de fazer hormonização, pode reiniciar a sua vida e não dizer nada a ninguém, porque ninguém vai notar.”
Visibilidade
“O facto de termos pessoas trans a atenderem em hospitais, a apresentarem telejornais, a serem nossos médicos de família, a representarem-nos como advogados, se nós conseguirmos normalizar o que é normal… vamos todos chegar a bom porto. É preciso as pessoas terem consciência de que ninguém é igual a ninguém. E voltamos à pergunta do início ‘E o que é que têm a ver com isso?’ Não somos todos a cópia uns dos outros. É importante sairmos à rua e podermos ver pessoas, claramente trans, sem mexerem nos seus corpos, e está tudo bem. É só uma característica delas, tal como nós as duas usamos óculos.”
A visibilidade está a chocar a sociedade, porque as pessoas trans, tal e qual como as pessoas racializadas, durante imenso tempo, esconderam-se e quiseram só sobreviver. Chegou um ponto em que as pessoas se fartaram, quiseram viver e ter os mesmos direitos, porque se eu voto e faço os meus descontos e se eu mantenho, com a minha mão de obra, o meu país de pé, eu tenho que ter leis que me protejam. As pessoas deixaram de estar em tremor absoluto e isto choca a sociedade, porque oprimiram e agora têm medo de serem oprimidos, mas não é isso que as pessoas querem.
Quantas pessoas negras apresentam o telejornal, quantas pessoas negras fazem publicidade (sem ser a servir o outro)? Se estamos neste ponto no que diz respeito à raça, muito mais atrasados estamos no que diz respeito às pessoas trans. Vão continuar pessoas a serem mortas, outras a suicidarem-se, mas havemos de lá chegar.”
Um pedido final
“Só para as pessoas não serem tontinhas. Somos todos feitos de carne e osso. Vamos todos para o mesmo lugar. É só tentar ser feliz, mais nada. Não é importante as curvas da mulher, não é importante se nasceu homem, não é importante se a mulher tem pénis ou uma vulva. Não é importante. Somos só pessoas a tentar ser felizes e se não conseguimos, procuramos ajuda. Há muito psicólogo a precisar de trabalhar.”
Sandra Furtado*
* Socióloga
Centro de Apoio à Mulher de Ponta Delgada
Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres 2025