“A empatia na América estremece sob o peso da indiferença. A retórica e a governação do Partido Republicano e da Casa Branca ajudaram a drenar a bondade e a compaixão da corrente vital do país, deixando o pulso moral fraco e irregular.”
Houve um tempo em que a palavra bondade cintilava no léxico americano como uma pequena bandeira de luz — uma virtude sem vergonha de ser terna, um hábito entranhado na medula da vida quotidiana. Abrir uma porta, partilhar uma refeição, chorar a dor de outro — eram esses os ligamentos invisíveis que mantinham a República humana. Hoje, essa luz vacila. Tornámo-nos uma nação que preza a velocidade mais do que a graça, a afirmação mais do que o cuidado, o lucro mais do que a decência. Neste império de ruído, a empatia silenciou-se — não extinta, mas exilada, reduzida ao murmúrio privado dos sonhadores e dos poetas.
A empatia na América estremece sob o peso da indiferença. A retórica e a governação do Partido Republicano e da Casa Branca ajudaram a drenar a bondade e a compaixão da corrente vital do país, deixando o pulso moral fraco e irregular. Estas palavras outrora luminosas — bondade, compaixão — parecem agora quase proibidas, exiladas da gramática política e apagadas da imaginação cívica. No mercado febril de ambições e slogans, a ternura tornou-se uma linguagem obsoleta, falada apenas pelos ingénuos que ainda acreditam que a verdadeira grandeza de uma nação começa não na força, mas na delicadeza do seu coração.
A erosão da empatia não começou de repente. Chegou como um crepúsculo lento, suave no início e, depois, sufocante. Começou na palavra — na corrosão do tom, na normalização pública do escárnio, na forma como a crueldade se tornou espetáculo e o desprezo uma insígnia de autenticidade. Quando o mais alto cargo da nação recompensa o insulto em vez da introspeção, o ar cultural rarefaz-se. Quando a liderança glorifica o castigo dos frágeis e exalta os impiedosos, a empatia converte-se em fraqueza. Nesta América, preocupar-se profundamente é arriscar o ridículo — ser apelidado de sensível, ingénuo ou desleal à sua tribo.
Essa mutação encontrou solo fértil num movimento político que, há muito, trocou a visão moral pelo entorpecente da mágoa. O Partido Republicano, outrora ancorado no dever cívico e num idealismo contido, transformou o ressentimento em identidade. A ideia do bem comum murchou, substituída pelo culto do eu. Os impostos são um roubo, os pobres são preguiçosos e os “outros” — imigrantes, refugiados, minorias — são retratados como intrusos. A empatia tornou-se antipatriótica, uma heresia moral contra o mito da força.
Da Casa Branca, a música da compaixão foi substituída pelo tambor da divisão. Cada política, cada proclamação, sussurra o mesmo refrão sombrio: sente menos, teme mais, não cuides de ninguém. O desmantelamento dos programas sociais, a demonização dos migrantes, o riso perante a dor humana — são os subprodutos de uma ética que confunde indiferença com disciplina. Esta é a austeridade emocional do nosso tempo, o triunfo silencioso da dureza sobre a humanidade.
Mas esta seca de empatia não permanece confinada aos corredores do poder. Escorre, como veneno lento, pelas salas de aula, pelos locais de trabalho, pelas mesas familiares. Molda os gestos mais pequenos — a impaciência no trânsito, a piada cruel nas redes, a recusa em ver além do próprio reflexo. Chegou às nossas comunidades, até àquelas cuja história deveria tê-las imunizado contra a insensibilidade.
Há pouco tempo, num evento na Califórnia — uma dessas noites perfumadas de memória, em que o murmúrio das conversas se mistura ao aroma da gastronomia — vivi um momento breve, mas revelador. Olhando para o prato abundante à minha frente, murmurei que a porção era extremamente generosa. Um jovem americano de ascendência açoriana, a iniciar a vida adulta, respondeu com uma risada cruel: “Então leva num saco e dá o resto aos teus amigos do SNAP — eles este mês não recebem nada.”
As palavras caíram como chuva fria. Recordo o silêncio que se seguiu — um riso breve, hesitante, que tentou disfarçar o desconforto. Não foi apenas um comentário infeliz; foi um sinal de quão fundo a empatia se degradou, mesmo entre aqueles cujos avós conheceram a fome, cujos antepassados atravessaram o oceano com nada além de fé e mãos calejadas. Como, em tão curto espaço de tempo, nos esquecemos da nossa própria história?
As comunidades açorianas na Califórnia, na Nova Inglaterra e em outras zonas dos Estados Unidos foram erguidas sobre a ética da compaixão —a convicção de que ninguém sobrevive sozinho. Os primeiros imigrantes partilharam o pão e o trabalho, construíram igrejas e festas, criaram sociedades para enterrar os mortos e educar os vivos. A sua empatia não era um adorno; era sobrevivência. Perder isso — ouvir um descendente dessa linhagem falar com desdém por quem precisa — é assistir a uma forma de amnésia cultural, a um esquecimento da geografia da alma.
Essa perda reflete a crise americana mais ampla. Quando uma nação ensina os jovens que a pobreza é falha moral, quando as redes sociais transformam o sofrimento em espetáculo, quando os líderes exaltam a crueldade como autenticidade, a imaginação moral desaba. A noção sagrada de que “pertencemos uns aos outros” — a pedra angular da democracia — desfaz-se, grão a grão.
A empatia não é uma política, embora as políticas revelem o seu pulso. É uma forma de ver — um ato moral de reconhecimento. Permite que um agricultor de Tulare compreenda o desespero de um professor despedido em Ohio; une o privilegiado ao precário, o seguro ao desprotegido. Sem ela, tornamo-nos um mercado de estranhos, cada um guardando o seu apetite e temendo a fome alheia.
E, ainda assim, acredito — talvez ingenuamente, talvez por fé — que a empatia pode renascer. Começa nos gestos mais pequenos: uma conversa que recusa o desprezo, uma escola que ensina imaginação e solidariedade com o mesmo rigor com que ensina matemática, um líder que reconhece que a compaixão é coragem. Cresce nas instituições que ainda honram a humanidade por detrás das estatísticas — nas professoras, nas enfermeiras, nos voluntários, nos poetas que recordam que o coração também tem memória.
Ser açorianoou americano, no nosso melhor, é lembrar que já fomos nós os necessitados — emigrantes, trabalhadores, sonhadores que chegaram com pouco mais do que esperança. Esquecer essa linhagem é traí-la. Recuperá-la é curar não apenas as nossas comunidades, mas também a própria nação.
A empatia não voltará por decreto; terá de ser expressa em gestos, reanimada na prática. Cada ato de cuidado é uma pequena rebelião contra o cinismo da época. O regresso da empatia talvez não ocupe manchetes, mas salvará vidas.
E assim termino como comecei — com a ideia de luz. A compaixão não é fraqueza; é a resistência silenciosa da civilização. Se a América quiser reencontrar a sua alma, terá de reaprender a escutar, a sentir, a estender a mão sem calcular o custo. A empatia não é luxo — é o último fogo sagrado que ainda arde.
E talvez, nessa luz, possamos redescobrir o que os nossos antepassados sabiam de cor: que uma nação não se mede pela riqueza ou pelas guerras, mas pelo calor com que acolhe o estranho. O açoriano no vale, o migrante na estrada, a criança que tem fome — todos são capítulos da mesma história inacabada. Reacender a empatia é continuar essa história, manter viva a chama — uma luz passada de ilha em continente, de geração em geração, lembrando-nos de que cuidar é permanecer humano, e permanecer humano é a forma mais alta de patriotismo.
Diniz Borges