Há quem ainda finja surpresa, mas a verdade é simples. Na Madeira, o Turismo é rei há décadas. Não é príncipe, não é herdeiro presuntivo, é rei absoluto, coroado, estabelecido e com trono firme. O sector não só alimenta a economia regional como a fez crescer, multiplicar e ganhar músculo. Resultado: uma economia pujante, níveis de consumo mais elevados e uma qualidade de vida que, goste-se ou não, não caiu do céu. Caiu dos aviões que lá aterram todos os dias.
Enquanto isso, nos Açores, fomos durante muitos anos rezando aos deuses da Agricultura. Leite, vacas, carne, mais vacas, pastagens e ainda mais vacas. Como se cada litro de leite fosse o novo petróleo e cada vaca viesse com um cheque europeu agarrado ao pescoço. Acreditámos, com fé quase religiosa, que era ali, e só ali, que estava a verdadeira riqueza. E, para não ferir sensibilidades, ainda hoje se tenta vender a ideia de que os Açores são “economicamente abrangentes”, com um leque produtivo vastíssimo e equilibrado. É bonito, poético até, mas é também uma meia-verdade, daquelas ditas para agradar a gregos, troianos e ao rebanho inteiro.
A Madeira, pelo contrário, percebeu cedo que o mundo funciona de outra forma. Percebeu que investir em acessibilidades, aeroportos, portos de cruzeiros, promoção internacional e produto turístico consistente não era um luxo, era uma estratégia de sobrevivência e progresso. Resultado: um destino consolidado, com turismo todo o ano, com mercados fixos, com chegadas constantes, com investimento privado contínuo e com um ciclo económico que alimenta o emprego, as empresas e as famílias.
Nos Açores, acordámos tarde. Muito tarde. Quando o avião já ia na descolagem, ainda estávamos no balcão a discutir se devíamos ou não ir buscar o cartão de embarque do Turismo. É a realidade. E quanto mais depressa a assumirmos, menos tempo perderemos.
Não se trata de abandonar a Agricultura, as Pescas ou os sectores tradicionais. Ninguém pede para fechar as vacas numa arrecadação. O que se pede é honestidade estratégica. Basta olhar para o planeta: quantos países e regiões vivem hoje com níveis significativos de bem-estar económico graças ao Turismo? Quantos transformaram completamente a sua base económica graças a uma aposta séria, consistente e assumida no sector? Os exemplos são inúmeros. Estão aí, à vista. Só não os vê quem não quer.
O Turismo será inevitavelmente a maior fonte de criação de riqueza nos Açores. Não é uma opinião, é uma tendência global aplicada a um território com potencial natural ímpar. A pergunta não é se isso vai acontecer. A pergunta é quando vamos ter coragem política para o dizer alto e bom som, sem rodeios, sem medo de ferir susceptibilidades corporativas e sem aquele reflexo de tentar equilibrar tudo para ninguém ficar triste.
Porque, vamos ser francos, se durante anos se apontaram todas as setas do investimento ao leite, à carne e aos sectores tradicionais, acreditando piamente que ali estava o desenvolvimento, e os resultados não foram os que se anunciavam, então está na hora de reorientar a bússola. De frente. Sem hesitações.
O futuro da economia açoriana não vai ser escrito por discursos vagos sobre “multissetorialidade”. Vai ser escrito por decisões de investimento, planeamento sério e visão clara sobre aquilo que realmente cria riqueza. E, se não fizermos isso rapidamente, vamos continuar a perder terreno para os nossos concorrentes diretos.
Portanto, menos romantismo e mais realismo. Menos medo de dizer a verdade e mais vontade de a assumir. Porque, no fim do dia, o que importa é só uma coisa: aumentar a riqueza dos Açores. E fingir que o mundo é diferente do que realmente é nunca fez ninguém ficar mais rico.
Carlos Pinheiro