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Um Conflito de Visões– Esquerda vs. Direita

A política está na moda, e nos dias que correm há que escolher um lado. Todos devem fazer parte de um clube, e convém estar all-in em todos os aspetos para não sofrer represálias internas. Não há espaço para um bocado disto e uma nisca daquilo: ou se é todo de esquerda ou completamente de direita (esquerdalho ou faxo), porque, no fundo, ninguém é um bocadinho do Benfica e uma nesga do Porto. Estamos indo bem…
Mas esqueça isto por agora. Esta crónica, caro leitor, não pretende oferecer argumentos para decidir qual dos lados está menos errado ou mais certo. O meu verdadeiro interesse nesta matéria é outro e, para ser honesto, é antropológico. O que me intriga não é tanto o que as pessoas defendem, mas como chegam lá. Como é que duas pessoas igualmente inteligentes, cultas, sérias, instruídas e até apaixonadas pelo “bem comum” conseguem aterrar em conclusões tão diferentes, com convicções tão limpas, sobre política. Isto sim é interessante e, merece explicação.
A reação instintiva quando somos confrontados com uma opinião contrária normalmente leva nos sempre a recorrer às respostas do costume: Ignorância; Má-fé; Falta de Informação; Lavagem cerebral; “Não leu o livro certo.” Estas simplificações são reconfortantes e têm uma grande vantagem: não necessitam de ser aprofundadas nem desgastam a nossa curiosidade. Se o outro discorda de mim, só pode ser porque não percebeu, foi enganado ou, pior ainda, está moralmente comprometido. Porém, tudo começa a cair por terra, quando somos confrontados com opiniões opostas de pessoas próximas de nós. Tomemos os irmãos Portas: Miguel e Paulo – mesma mãe, mesmo pai, provavelmente leram os mesmos livros em criança e ouviram as mesmas histórias de embalar. Apesar de terem sido criados no mesmo seio, em termos de visão política bem podiam ter sido criados em planetas diferentes. Se aceitarmos que ambos são igualmente cultos e sinceros (e não creio que existam razões para assumir o contrário), então a explicação tem de ser aprofundada. A mãe não tem de deserdar nenhum deles, e não temos de assumir que um deles caiu na sua cabeça em pequeno. O que isto sugere é bem mais desconfortável: talvez pessoas muito semelhantes possam, a partir dos mesmos dados e experiência, construir uma visão completamente diferente do mundo. Quem consegue explicar tal fenómeno? Para mim, a resposta é Thomas Sowell.
No seu livro A Conflict of Visions, este meu herói pessoal, não escreve para confirmar crenças, escreve para as desmontar. Consegue pegar em séculos de pensamento e filosofia política e reduzir tudo a dois pressupostos fundamentais sobre a natureza humana, e ainda assim, conseguir ser mais elucidativo do que a totalidade dos comentadores políticos no seu melhor dia… notável na minha modéstia opinião. Sowell parte de uma ideia tão simples que chega a ser irritante: as grandes divergências políticas não nascem de políticas concretas, mas de pressupostos profundos acerca da natureza humana. Antes dos impostos, subsídios, ordenados mínimos ou fronteiras, já carregamos na nossa visão uma intuição prévia sobre o que as pessoas são e até onde podem ir. Esta intuição acerca da natureza humana inerente guia a nossa opinião agindo como um filtro por onde tudo passa.
São identificadas, então, duas visões opostas. À primeira Sowell chama de visão restrita, que parte do princípio de que a natureza humana é limitada, imperfeita e recorrente nos seus defeitos. O humano abusa, erra, procura vantagens próprias e repete estes padrões fielmente. Se tomarmos esta perspetiva, o papel das instituições não é tornar o homem virtuoso, mas conter os estragos inevitáveis da sua ação inevitável. Não existem soluções perfeitas, e resta procurar o mal menor, os compromissos possíveis, na esperança que a qualidade dos travões aplicados à sociedade impeça que as boas e más intenções acabem em desastres.
A segunda, a visão irrestrita, assume quase o oposto. Os problemas sociais não decorrem de falhas humanas por defeito, mas de sistemas mal desenhados, incentivos mal aplicados ou educação insuficiente. Se forem criadas as condições certas, através de políticas, reformas ou líderes elucidados, o comportamento humano pode melhorar até à utopia. O potencial do homem é infinito, e a tarefa da política é soltá-lo.
Vamos então por à prova a teoria num tema tão atual e conflituoso: a imigração. A partir da visão restrita a pergunta central não é se os imigrantes são bons ou maus, mas quais os limites reais das instituições, da coesão social e da capacidade de integração. Os sistemas “generosos” podem ser abusados e atingir o seu limite mesmo sem intenção maliciosa. Assim, a ênfase fica no controlo de fronteiras, regras e critérios exigentes de entrada e consequências a aplicar. Já a visão irrestrita olha para a imigração e vê o potencial humano desperdiçado e uma injustiça estrutural que deve ser corrigida. Quem intui nesta visão acredita que com políticas de acolhimento adequadas, educação e inclusão, a integração não só é possível, mas altamente desejável. Qualquer problema observado é uma falha do sistema, não da natureza humana. Uns veem riscos a serem contidos, outros oportunidades que não podem ser travadas. No fim, cada lado interpreta a prudência do outro como desumanidade, e a esperança do outro como ingenuidade. Até podem estar os dois errados, mas garantidamente que não estão os dois certos.

Philip San-Bento Pontes

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