Depois da 2ª Guerra Mundial, o imperialismo norte-americano derrubou o presidente Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954; invadiu a Baía dos Porcos em Cuba, em 1961; interveio na República Dominicana, em 1965; apoiou abertamente o golpe de estado fascista no Chile, em 1973 e suportou os “Contras” na Nicarágua, na década de 80; invadiu e ocupou Granada, em 1983; invadiu o Panamá em 1989 e derrubou o Presidente Noriega; entrou pelo Haiti dentro em 1991 e 2004; e entre outros golpes, sansões unilaterais e conflitos armados em que esteve envolvido só na América Latina (fora muitos outros envolvimentos no resto do mundo), já interferiu mais recentemente com chantagem económica aberta na reeleição do ultraliberal Milei na Argentina, ou na libertação de um narcotraficante, ex-Presidente das Honduras.
Os resultados de todas estas intervenções de natureza colonialista, ditatorial, imperialista e violadora da soberania dos países e povos atingidos, foram sendo, embora de forma cada vez menos veemente, justificados por uma hipotética defesa da liberdade, da democracia ou dos direitos humanos e, mais do que em benefício dos povos e países atingidos, progressivamente mais demonstrativos da predominância afinal dada, em tais intervenções, sobretudo aos interesses norte-americanos e à espoliação das riquezas dos outros.
Mas nem por isso, e pelas condenações cada vez mais profundas e massivas em todo o planeta, o comportamento dominador, espoliador, opressor e imperial dos EUA se refreou. Antes pelo contrário.
O domínio exclusivo e único, político, militar e económico em que assentou a intervenção norte-americana no mundo, desde o fim da URSS e do bloco socialista de Leste (simbolizado pela queda do Muro de Berlim), começou a entrar em declínio com a emergência cada vez mais evidente e concreta de novas potências e centros de poder e influência diversos, isto é, do multilateralismo mundial. O imperialismo norte-americano está hoje ferido e em declínio, torna-se por isso mais agressivo, mais perigoso e menos preocupado com as regras ou princípios básicos em vigor nas relações internacionais, transgredindo-as ou ignorando-as de forma prepotente, pelo direito que lhe dá, de acordo com uma só lei, a do mais forte, o poderio, a expansão e o potencial bélico e económico acumulado ao longo dos anos.
Por isso se atreveu, perdendo toda a vergonha, a bombardear um país soberano, a Venezuela, e sequestrar e raptar (não capturar, como pretendem os comentadores de serviço, pois isso obrigava a um mandado ou a uma fuga) o seu presidente e a esposa para serem julgados por si próprio, acusados de um conveniente pretexto de narcotráfico, mas sem qualquer pejo em declarar simultaneamente a vontade colonialista de se apossar do poder político daquele país e sacar dele “sem qualquer custo” (Trump dixit) as maiores reservas mundiais de petróleo que “por acaso” ele abriga…
Por isso se atreveu, logo no dia seguinte a esta escabrosa ação, a anunciar a curto prazo outras intervenções do mesmo tipo, na Colômbia, Cuba, México e, daqui a “vinte dias”, na Gronelândia.
Para vergonha dos portugueses, o seu governo e o seu ministro dos estrangeiros Rangel, mesmo num quadro que abre precedentes tão graves e perigosos a nível internacional, revelaram uma posição servil e ajoelhada para com este ato da administração norte-americana, recusando-se a condená-lo e afirmando mesmo que até teve “propósitos benignos”… Como é que bombardear outro país, sequestrar e raptar o seu Presidente e a sua mulher (quer se goste deles ou não) e apropriar-se dos seus recursos, pode ter “propósitos benignos?”
Assim colocada uma espada de Dâmocles sobre qualquer zona do planeta, em nome da segurança e dos interesses exclusivos dos EUA, significou, significa ou significará qualquer benefício para a humanidade e para o mundo?
Mário Abrantes