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Eleições na Alegoriada Caverna

Já escolheu a sua sombra?
Os prisioneiros são os eleitores. Não vamos perder tempo com metáforas inocentes. Estão
sentados numa caverna antiga. Profunda. À sua frente uma parede que aprenderam a chamar mundo. Não chegaram ali por maldade. Talvez nem por ignorância. Chegaram por hábito. Ficaram por medo.
As correntes que os prendem nunca foram de ferro. São mais eficientes. Fabricadas de lealdade partidária, raiva acumulada e uns resquícios de cansaço. Não apertam. Não promovem dor. Limitam. O que é suficiente.
Atrás deles arde uma fogueira persistente. Não é um incêndio. É propositado. Alimentado pela imprensa, pelas redes sociais e pelos ciclos noticiosos. Uma luz constante, sempre acesa, sempre urgente. Nunca lhe falta combustível, mas precisa de matéria ininterrupta para arder todos os dias. Se não tiver, tem de ser inventada. A fogueira tem de arder!
Entre a fogueira e os eleitores passa uma procissão inacabável de objetos. Instrumentos.
Estratégias de campanha. Frases feitas. Indignações calculadas. Gestos simbólicos. Acusações falsificadas, guardadas para o momento cirúrgico, porque nada projeta uma sombra tão vívida como um alvo bem iluminado. Os objetos passam e a fogueira projeta-os. Na parede surgem sombras.
As sombras são os candidatos. Não os homens e mulheres reais, carregados de defeitos e virtudes. Hesitações. Interesses. Esses carregam os objetos. As sombras são apenas a silhueta mediática. Previsível. Recortada. Fabricada. Adulterada para esconder os defeitos maus e as virtudes feias.
Os eleitores discutem abertamente as sombras. Fervorosamente. Defendem-nas como se fossem extensões de si próprios. Após tanto tempo na caverna tornaram-se especialistas a reconhecê-las. Os seus contornos. Os seus movimentos. A próxima promessa. A próxima indignação.
Os homens e mulheres reais que carregam os objetos sabem disto. Estão do lado iluminado, o que os fez maquiavélicos. Sabe-se lá porquê. Movimentam-se com leveza projetando com distinção. O ângulo certo. O ritmo certo. Não precisam de ser verdadeiros. Precisam de ser visíveis. A verdade não faz sombra. E a coerência faz uma sombra feia. Irregular. É preciso ter um toque especial.
Assim a caverna anda. Estável. Particular. Agradável. A parede dá respostas rápidas. A fogueira não se apaga. As correntes nem se sentem. A democracia, entre aquelas estalactites, parece viva. Até que dois eleitores se levantam. Talvez por um desconforto antigo. Talvez por acaso. Escapam os dois ao mesmo tempo, numa coincidência do tempo. Um foge pela direita da caverna. O outro pela esquerda. Ambos sentem ao mesmo tempo o choque da luz solar. O corpo a resistir. A vontade de voltar ao interior que aprenderam a confiar. Mas seguiram.
Saíram por aberturas diferentes da caverna. O sol alto iluminava-os por igual, mas entrava de forma diferente na caverna. A luz nunca entra da mesma forma por lados opostos.
O da esquerda reparou primeiro nas estruturas, nas mãos que seguravam os objetos que projetavam a sombra. Reparou que eram manipuladas. Objetos pequenos que projetavam sombras enormes. Gestos lentos que se traduziam em projeções rápidas. Percebeu o mecanismo. A engenharia.
O da direita viu coisas diferentes. Quem escolhia o que passava. Quem ficava de fora. Viu conversas paralelas. Silêncios calculados. Viu quem alimentava a fogueira. O combustível que usava. Percebeu que não fazer sombra não significa inexistência. Viu a verdade pelo lado da omissão.
Não celebraram. Ambos conseguiam observar os outros eleitores sentados. Convencidos. As sombras a passar. Partilharam uma forte sensação de náusea. Sentiram-se traídos. Lembraram-se de como defenderam algumas sombras com fervor. Como discutiram contornos, pensando que eram substância.
Voltaram. Correram para o interior da caverna mal iluminada. Os olhos demoraram a readaptar-se à luz mutável. Tropeçaram na escuridão. Recuperaram-se.
Falaram os dois com convicção. Explicaram. A verdade não é o que se observava. Os candidatos não eram sombras projetadas, mas quem segurava os objetos. Contaram a sua versão do que visualizaram.
Os outros eleitores ouviram. Mas não escutaram.
Viraram-se contra eles rapidamente. Acusaram-nos de tentativa de manipulação. De trazerem confusão desnecessária. A parede sempre foi suficiente. “Sair da caverna faz mal à cabeça.” Sentaram-se novamente e aceitaram de novo as amarras.
Em pé faziam sombra.
Quem sai da caverna só ganha isolamento. O sistema defende-se por defeito, ninguém quer perder a projeção que escolheu. Perder a sombra é admitir que se esteve no escuro.
Caro leitor, se ainda está sentado, já escolheu a sua sombra.
Philip San-Bento Pontes

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