Um. Alguma inteligência artificial, possivelmente comandada por inteligência natural, está a deixar‑nos intelectualmente mais pobres. A criação de imagens falsas, tecnicamente quase perfeitas, baralha-nos e instala a dúvida: “Será real?”. Isto é um problema. E o problema não somos nós.
A era da falsificação digital é um tempo de profunda responsabilidade. Quem produz imagens ou vídeos com recurso à IA deve assumir as potenciais consequências que daí podem advir.
Quando assisto a um vídeo do Bruttosuave, sei que a estética é cem por cento digital e que o tema, mesmo baseado numa realidade triste ou trágica, é um exagero dessa mesma realidade: as personagens distorcidas, factos amplificados, vozes e gestos criados artificialmente, entre tantas outras diferenças face ao real.
Estes são os novos tempos do Incrível, e muitas vezes pretende-se cultivar o medo, a confusão e o grotesco para vendê-los nas redes sociais.
Dois. A queda de Nicolás Maduro, ditador venezuelano, excita-nos a esperança num mundo melhor, mas — reverso da moeda — coloca esse mesmo mundo de pernas para o ar. Chamemos a estes tempos, como outros já o fizeram, a era do caos.
Mas é um caos que vem do passado. A eleição de Donald Trump terá acelerado o processo. As decisões políticas da Casa Branca – de Bush a Obama e a Biden -, a forma singular como são comunicadas e a maneira como mobilizam públicos, evidenciam uma combinação rara entre presença mediática intermitente e capacidade de transformar debates públicos em temas populares de grande visibilidade.
Essa dinâmica tem sido objeto de estudo em múltiplos contextos, da comunicação política à sociologia das massas, e verifica-se que determinados estilos de liderança moldam perceções e prioridades coletivas. A atuação de líderes com forte protagonismo mediático influencia a estabilidade política, a confiança nas instituições e a participação cívica.
Trump gera debates intensos sobre a governação mundial – verdade! Rasga com a realidade instalada e impõe a sua própria realidade -verdade! Mas venceu eleições livres. E isso temos de respeitar.
Luís Soares Almeida