[1] ‘’Isla
estrecha de paredes,
rotunda de horizontes.’’
Ricardo Hernández Bravo
Numa entrevista que deu a Clara Castilho, disse: ‘’eu nasci entre dois livros escritos pela minha Avó Cecília Meireles: Canção e Giroflé, Giroflá. Sou a primeira neta menina e correspondi a tudo o que me foi confiado’’.
Foi baptizada na mesma igreja e na mesma data que a Avó Cecilia, que em 7 de Novembro de 1957, completava 56 anos de idade, e o seu nome de Fernanda fora-lhe dado em homenagem ao Avô, o pintor Fernando Correia Dias, que se suicidara quando a Avó Cecília tinha apenas 11 anos.
Era carioca, designer, estilista e escritora, trazia nos seus genes os mesmos que a Avó possuíra e por herança lhe transmitira.
Toda a sua vida fora pautada pelas imagens que guardava da convivência com a Avó, ‘’de ficar na biblioteca dela com a máquina de escrever, carbono, tinteiros, livros e papéis azuis, rosa e amarelos e mata borrões cor de rosa’’.
Foi uma das ilustradoras do livro ‘’OU ISTO OU AQUILO’’, da Avó Cecília Meireles, e em 2018, tive o gosto de ter na contracapa do meu livro ‘’O Órfico Fio que a Mão Gera’’, um texto com a sua assinatura.
Tinha eu regressado da ilha da La Palma onde fora participar no EIPOEMA – VIII Encontro Internacional Poesia da Macaronésia, e ao chegar a casa, antes de desfazer a mala, recebi um telefonema de Margarida Oliveira, numa voz pesarosa me deu a notícia, e a pessoa era sobre a
Fernandinha Meireles Correia Dias, que tive o prazer de conhecer em Julho de 2000, quando veio em romagem de saudade à ilha de onde partira sua bisavó Jacinta Garcia Benevides, Mãe da Cecília Meireles. A tal bisavó que possuía a força vulcânica e uma vontade de ferro que não se deixava abater pelas más circunstâncias da vida, e que só e viúva, educou e orientou a filha Cecília Meireles, de quem os açorianos orgulhosamente honram o nome como uma das maiores poetas de ascendência açoriana e continental, já que seu pai era oriundo da cidade do Porto.
Fernandinha Correia Dias, pertencia àquela estirpe de mulheres que foram educadas para serem ‘’livres e independentes de pai, marido e família’’, como o afirmou na entrevista concedida a Glória Castilho.
Recordo o contacto com ela e que teve o condão de aproximar duas pessoas que mal se conheciam, e que de imediato foi criada uma forte empatia de parte a parte, tendo permanecido inalterável todo este tempo, e lá vão 25 anos, alicerçado por uma troca de E-mails e alguns telefonemas para encurtar a distância, minguando a saudade, e ter a voz para dar forma à ausência da presença física.
Era uma pessoa constante no nosso pensamento, só que, a realidade é mais crua, e ultimamente as notícias fora escassando… E quando de novo vieram, traziam alguma amargura…
Ao avançarmos na idade, à nossa volta, muitos dos nossos familiares, como amigos chegados vão desaparecendo da roda dos vivos, criando à nossa volta uma imensa solidão, deixando-nos mais sós.
Fernandinha Meireles Correia Dias tinha 69 anos de idade, e disse adeus aos dias, partindo num chuvoso dia do mês de Dezembro de 2025, no Porto, onde residia com uma das filhas.
Tinha mudado a sua residência do Brasil para Portugal, pois a ausência das filhas, uma no Porto e outra na Alemanha, criara-lhe um certo vazio, sentindo a sua vida muito solitária.
Tinha-me prometido e à Margarida Oliveira que viria de novo fazer-nos uma visita, pois guardava no seu coração e na sua memória todos os lugares e cheiros da ilha, essa ´´isla/esctrecha de paredes,/rotunda de horizontes, como tão bem diz o poeta espanhol Ricardo Henández Bravo.
Não foi possível, e para acrescentar mais um episódio à saga da família, assim como os bisavós emigraram, fez ela o retorno, emigrando por sua vez de Terras de Vera Cruz, para solo luso, e julgo que ao deixar as cinzas na terra donde não nascera, se o seu coração estiver a bater noutra galáxia, certamente estará guardada a imagem da ilha açoriana que também amava.
Victor de Lima Meireles
[1] Do livro de poesia LA PIEDRA HABITADA, do poeta espanhol Ricardo Hernández Bravo (1966), La Palma.