Caro leitor, uma coisa posso garantir-lhe: você nunca foi às compras com o meu filhote. Eu já fui. E o meu erro não foi ter ido, foi pensar que estava simplesmente a ir a um hipermercado, quando na verdade me lançava numa expedição num rio selvagem. O carrinho de compras o meu bote, e ao meu lado um tripulante de três anos com planos óbvios de motim.
As portas abriram-se. Logo à entrada as promoções assinaladas. Pela ocidental entrada, sem manha, nos lançamos por corredores nunca dantes navegados, com uma lista que dava para além de uma semana.
A brisa matinal do ar condicionado abençoava aquela entrada calma, onde as promoções de detergentes da loiça reluziam como a espuma de uma tempestade longínqua em águas mansas. O infante, transportado pelo seu fiel servente até ao bote metálico, fixava agora o horizonte fluorescente. Estava calmo, contemplativo. Mas por trás daquele olhar sereno trabalhavam as roldanas maquiavélicas de um motineiro. Avaliava as fraquezas do capitão, esperava o momento certo.
A viagem foi calma no primeiro troço. Os corredores tributários, visíveis e perpendiculares, albergavam champôs, detergentes e garrafas de bebida alinhadas como mercadorias de um porto bem governado. O motineiro não demonstrava interesse por tais tesouros. Até à seção da fruta, o rio manteve-se brando. O capitão guiava o bote com nervos contidos. O olhar saltitava entre a lista das coordenadas, o infante e as possíveis minas estrategicamente distribuídas pelos fantasmas do rio. Um dos objetivos da viagem era a aquisição de espécies frutícolas para abastecer a messe do porto. O infante revelou breve interesse nas bananas. Nada de alarmante, apenas um primeiro roçar da quilha. Ao fundo, à direita, já se distinguia o aroma da panificação. Essa bifurcação estava mentalmente assinalada como zona de alto risco. Ali o rio estreita, e donuts flutuam selvagens como boias abandonadas. A primeira conspiração do açúcar.
“Pai, quero um donut.” O capitão fingiu não ter ouvido. Ajustou o rumo e virou a embarcação para que apenas fosse visível a zona do bacalhau e congelados de marisco. O Infante ergueuse pela primeira vez no bote. O olhar fixo na massa açucarada agora distante. “Quero um donut!” repetiu, com um tom que evolui para decreto.
Entrávamos na fase de negociação, e o maior erro de um capitão inexperiente é negociar cedo demais. Não se negoceia com terroristas, avisam os filmes de Hollywood. O capitão respirou fundo. “Não podes comer donuts. Mas podes escolher uma coisa para levar. Uma só!”
Silêncio. O Infante ponderou. Resolveu esquecer o donut, não falou durante os minutos seguintes em contemplação profunda. Tinha agora o olhar perdido no horizonte daquele hipermercado, já não fixo na padaria, mas aberto. Demasiado aberto.
O acordo ficou selado sem assinatura, sobre o aroma frio do bacalhau salgado. Vitória tática, derrota estratégica – porque o infante não declarou qual seria a coisa.
O mapa da expedição apontava para uma recolha de pilhas. Este artigo banal, pequeno e inofensivo escondia, contudo, um grande problema: a sua localização. O capitão sabia que as pilhas habitavam junto ao mais traiçoeiro dos tributários daquele rio: o corredor dos brinquedos. O bote aproximou-se devagar, o ar mudou num instante. As cores vibravam como corais tropicais. Dinossauros, carros e luzes piscavam anunciando felicidade eterna. O infante ficou irrequieto. Primeiro uma perna fora do bote, depois o corpo inteiro.
“Fica sossegado.” Tarde demais. Manipulou o capitão com habilidade de um corsário vivido.
“Só quero ver pai.” O motineiro avançou corredor adentro. A cada passo, o perigo aumentava proporcionalmente com o preço exposto nas etiquetas. Dez euros, vintes, trintas. A carteira afundava-se na lama daquele canal. “Quero este!”
O pranto começou ainda antes da resposta. Uma birra preventiva. “Não pode ser esse. Outro.” Iniciou-se a negociação avançada, uma tentativa de conter o motim que ganhava inércia própria. Propostas surgiam deixando destroços à deriva no corredor, nenhuma aceite. Até que, com a escalada do motim, se chegou a um consenso frágil.
Os olhares curiosos dos nativos do hipermercado já não se escondiam. O capitão sentiu o peso da vergonha pública, esse imposto invisível que se paga com dignidade. Foi carregado o objeto escolhido. Menos volumoso do que o da proposta inicial, mas perigosamente próximo do valor total das compras previstas. O motim abrandou, e foi nesse silêncio que o capitão bateu em retirada, necessitando de assistência urgente. Mas o silêncio não era paz. Era um recarregar de energia.
Surgiu então o último troço do rio. A zona onde as águas abrandam: as caixas de pagamento. Filas estreitas como gargantas de um desfiladeiro. Chocolates estrategicamente colocados à altura de mãos de infantes. Cromos brilhantes e chupa-chupas berrantes. Armadilhas no caos colocadas por engenheiros de vendas sem escrúpulos.
“Quero um chocolate.” O capitão não queria acreditar. Tentou negociar sem sucesso, já tinha perdido a chefia do bote, aquela frase era uma declaração de independência. Pressionado cedeu e só voltou a si quando chegou ao parque de estacionamento. Em casa procedeu-se ao levantamento de existências. O saque foi depositado sobre a mesa, no manifesto final constava: bananas, pilhas, brinquedo, ovos, chocolate, Kinder surpresa, chupa chupa.