São quatro da manhã e estou sentado na mesa da cozinha a escrever uma crónica sobre acordar cedo e ser produtivo. O bairro dorme sossegado e deixa-me em tranquilidade ofensiva. A única coisa que existe é o som irregular das teclas do meu portátil e o zumbido distante do frigorífico.
Muitos escritores falam em conquistar a madrugada. Explicam que existe uma clareza mental no território silencioso do início dos dias. A mente desperta enquanto o mundo dorme.
Enquanto escrevo esta frase, algo suspira na cozinha que suspira em aborrecimento. Não me viro para a ver e, estranhamento, não me sinto assustado. Preocupado talvez, mas assustado não.
Bem continuemos. A produtividade das madrugadas…
“Não escrevas isso, banana.” Diz a presença ao meu ouvido.
Fico com os dedos suspensos sobre o teclado alguns segundos. Tento procurar algum reflexo do que está atrás de mim nas janelas da frente. Não vejo nada.
Escrevo esta frase: A produtividade das madrugadas acontece no laboratório intelectual da noite…
“Produtividade das madrugadas… que disparate. Apaga isso.”
Não gosto do tom da presença. Sinto um pequeno arrepio a percorrer-me a espinha. Não me agrada a ideia de discutir com algo que apareceu do nada na minha cozinha às quatro da manhã. Apago metade da frase. A presença parece aproximar-se um pouco.
“Isso. Apaga isso tudo. Já agora, apaga também “território silencioso do ínicio dos dias”. “Parece uma frase de influencer de Linkedin.”
Recuso-me a obedecer. Sinto uma mão tocar-me duas vezes no ombro. Continuo a não olhar para trás, tento forçar a visão periférica rodando os olhos para ambos os lados, procuro uma sombra no chão. Já não me consigo concentrar.
Volto ao teclado. Escrevo devagar, tentando ignorar a sensação de alguém demasiado perto de mim.
Talvez exista um território esotérico especial nas madrugadas. Um território reservado a quem ataca este território silencioso.
“Território esotérico. Aahah.” Diz-me a presença em gozo. “Que frase ridícula.”
Continuo a escrever: O silêncio organiza o pensamento, serve de fundo à criação.
“Não permite nada… Vai, mas é dormir.”
Não apago a frase para não dar razão à presença. Fico um minuto a olhar para o cursor a piscar. Pisca. Pisca. Pisca.
Sinto novamente um toque no ombro, agora com mais força, com impaciência. Não me viro, continuo a olhar para o portátil. A luz do ecrã parece mais intensa, o resto da cozinha parece ter escurecido. Procuro novamente algo nas sombras. Sinto um leve respirar atrás da orelha. Sacudo-o com um tique nervoso da cabeça. Faço pequenos movimentos rápidos, tentando recuperar a concentração. Continuo a escrever:
Talvez acordar cedo seja uma forma de ganhar tempo ao dia.
“Ganhar tempo?” Diz a presença agora a rir. “Não estás a ganhar tempo nenhum, olha para as tuas olheiras.”
Algumas pessoas encontram clareza no território do silêncio.
“Quantas vezes vais escrever território. Ahaha.”
Apago “território”. Escrevo outra frase. Continuo algum tempo sem ser interrompido. Começo a pensar em tomar o segundo café. Ainda sinto algo atrás de mim. A parede da frente parece mais próxima, o ruído do frigorífico volta mais metálico. Tenho de acabar a crónica.
Baixo a cabeça a caminho dos joelhos e viro-a para o lado, tentando encontrar a presença pelo espaço entre o braço e o sovaco. Nada… Endireito-me lentamente, respiro fundo algumas vezes. Volto ao teclado e escrevo:
Conquistar a madrugada permite observar os pensamentos sem interferência.
A mão pousa novamente no meu ombro. Desta vez não sai, permanece ali. Pesada, apertando lentamente. Escrevo outra linha:
A madrugada é o intervalo onde a mente reorganiza o caos dos dias.
“Que lixo de texto.”
Ignoro: O silêncio da noite amplia as ideias e a criação artística.
“Amplia lá nada.”
O cursor pisca. A mão não sai do meu ombro. Sinto agora o aperto bem firme. O meu coração migra para a garganta.
Talvez o silêncio da madrugada permita observar os pensamentos sem distrações.
“Sem distrações?”, rosna a presença. “E eu banana, o que sou?”
Ignoro novamente. O som seco das teclas começa a ecoar na cozinha como marteladas. Escrevo outra linha. A mão aperta mais. Continuo a escrever tentando afastar a presença, a cadeira range enquanto me mexo um pouco. Não há espaço, a parede atrás de mim parece estar agora nas minhas costas.
Talvez acordar cedo seja uma tentativa de expandir o tempo.
De repente sinto um toque seco no topo da cabeça. Deliberado, forte e curto. Como quem corrige um miúdo malcomportado.
“Que texto miserável. Nem para insónia serves.”
Escrevo agora com mais intensidade, tentado ignorar a presença por completo: É preciso rasgar a inércia do sono para ser mais produtivo.
A presença inclina-se sobre mim. Sinto o queixo encostado ao meu ombro, a mão ainda apertando firme. A minha atenção volta ao cursor novamente a piscar.
“Apaga essa porcaria toda.”
O azul-escuro da madrugada começa lentamente a vencer a noite. Já noto alguma luz a entrar pelas janelas da frente. A mão desaparece do meu ombro e já não sinto aquela presença. Olho para trás. Vejo a normalidade da minha cozinha, tudo no seu lugar, ninguém atrás de mim, o cursor ainda pisca.
Durante algum tempo permaneço imóvel, à espera de sentir novamente aquela mão, aquele respirar na orelha. O frigorífico continua a zumbir, lá fora começa o dia. Fecho o portátil.
Não consegui escrever sobre acordar cedo e ser produtivo. Resisti até ao amanhecer e o que restou foi isto.
Philip San-Bento Pontes