Álamo Oliveira e o nome das árvores
Meu caro Álamo.
Decidi escrever-te porque te conheci; Porque ambos existimos nesta bolinha terrestre; Porque cumprimos missões militares em pé-de-guerra no mesmo território – Guiné; Porque tivemos vários encontros, em várias ocasiões e sítios diferentes e quase só falávamos de letras, livros, projetos literários e tantas outras peripécias grafémicas, trocadas em muitos intervalos de colóquios, alguns deles na tua genuína Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo, a nossa Terceira.
Algumas vezes te levei de Angra ao Raminho, a tua casa, a altas horas de madrugada, porque nessa altura não tínhamos muito tempo para dormir. Noutra ocasião visitei-te – não sem antes te chamar de São Miguel – para mais encontros e mais cavaqueira, sempre temperada com o teu especial humor perspicaz, límpido e mordaz.
Fazias perguntas com a avidez de quem quer respostas da fonte. Eu respondia através de toda a experiência de uma polivalência comunitária na Diáspora canadiana. Ouvias-me como a tantos outros, para melhor dissecares tudo nas pinturas literárias que afincadamente produzias, no teu esconderijo do Raminho, isolado qual monge conventual.
Decidi por estes dias abrir uma velha caixa de relíquias em papel, folhas escritas por muitos dos nossos amigos, alguns já fazendo parte do Cosmo e dei com um texto teu. Cinco folhas grossas, delicadamente rubricadas individualmente no canto superior direito e com a última meia página assinada e datada. Um relatório simples e conciso, com resultados de muitas conversas que tivemos e muitas verdades inconvenientes. Adorei reler e não resisto à tentação de o fazer em voz alta, para que ouças o que tu próprio pintaste, naquele outubro de 1986 – já lá vão quatro décadas, tantas como os livros que escreveste. Não te aborreças. Só vou ler pequenas passagens. Comecemos pelo título:
DA EMIGRAÇÃO – POESIA E POMBOS DE ROCHA.
Pousar os olhos como o frio de março pousa sobre a ilha: olhar a casa e sabê-la apodrecida. A solidão trepa até ao peito. A saudade faz parte do ritual deste bailho nosso – que são as partidas sem retorno. O mar da ilha é azul porque é um anjo…
…Disse Nemésio em “Décima de Genuína quando foi para a América”: Ó terra de Calefórnia, / Não nos leves tantas filhas! / Daqui a nada, só temos / Pombos de rocha nas Ilhas…”
Parte-se com pouco. Alguns partirão com… dívidas. Alguns hão-de comer o pão que o diabo amassou: outros terão o bafejo da sorte. Alguns hão-de fazer da sua vida diferente a sua forma de afirmação no mundo. Outros não chegarão a saber porque vivem. E todos hão-de ter do berço um imaginário diferenciado. Uns hão-de senti-lo apagar de forma indelével; outros nunca poderão cortar o cordão umbilical; raros esconderão as origens a favor da miscigenação total e do abastardamento social. E hão-de juntar-se ao menos uma vez por ano; esforçar-se por afirmação coletiva; dizer a si próprios que são gente e que a sua diferença pode ser um entrave mas também uma prorrogativa. São comunidades.”
O resto já sabes. E, já agora, lembras-te quando te perguntei quem te tinha dado o nome de árvores. Arregalas-te os olhos por detrás dos óculos e respondes-te: “Tem graça! Nunca ninguém me tinha feito essa pergunta!”
Álamo é o nome comum dado a várias árvores do gênero ‘Populus’, especialmente populares na Europa, Ásia e América do Norte. A palavra tem a seguinte origem etimológica: Do latim alĭmus, que significa “nutritivo”, relacionado com ‘alere’ (“alimentar, nutrir”). Do espanhol ‘álamo’, que já designava essas árvores. São conhecidas por crescerem rápido e terem folhas trêmulas ao vento, como o álamo-branco Populus alba e o álamo-negro ‘Populus nigra’. Como local histórico temos a ‘Missão de El Álamo’, localizada em Santo António, Texas. O nome “El Álamo” foi dado pelos colonizadores espanhóis, porque havia muitos álamos (árvores) perto da missão. Tornou-se famoso pela Batalha do Álamo em 1836, durante a Revolução do Texas contra o México.
A palavra Oliveira tem origem no latim olivarius, relativo à oliveira. A raiz está em oliva, que quer dizer azeitona, o fruto da oliveira.
É símbolo de paz, sabedoria e longevidade em várias culturas.
Se a vida média do álamo é entre 30 a 50 anos, já a oliveira pode ir aos 600 anos e algumas atingiram os 2000 anos.
Como vês, amigo Álamo Oliveira, tens muito tempo para me aturar…
José Soares