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Saúde (do) Pública(o) (34)

Make Europe Healthy Again?

“Já Portugal enfrenta uma curva ascendente de mortalidade por COVID-19, com mais de 100 óbitos
nas últimas semanas, e a duplicação mensal do número de casos. A falta de acesso fácil a tratamentos, e a
quase nula testagem, agravam o impacto, sobretudo nas populações vulneráveis. Esta tendência preocupante tem-se verificado ao longo de 2025, justificando apelos para maior vigilância epidemiológica.”

Os temas da semana: “Make America Healthy Again”, doenças dos trópicos na Europa e morte pela poluição

Da semana que passou destaco a continuação das controvérsias no sector público da Saúde, nos EUA. O CDC tem enfrentado turbulências sob a liderança do Secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que levaram à demissão de vários Directores, e à renúncia de altos quadros, devido aos conflitos decorrentes da política de vacinas. Foi nomeado um novo diretor interino, Jim O’Neill, sem formação médica, o que leva a críticas de potencial controlo político. Tem havido um foco intenso nas vacinas: Kennedy promoveu no passado a desconfiança no CDC e na FDA, alegando falta de transparência sobre as vacinas contra a COVID-19. No “Comité Consultivo sobre Práticas de Imunização” (ACIP) analisaram-se as recomendações para as vacinas contra a COVID, a hepatite B e a VASPR; eventuais mudanças podem aumentar o risco de surtos de doenças preveníveis, como o sarampo.
Noutra vertente, o CDC tem investigado surtos de Salmonella ligados a ovos e refeições entregues ao domicílio, e que atingiram 100 pessoas, em múltiplos Estados. Estes incidentes demonstram bem as vulnerabilidades na cadeia de abastecimento alimentar, e a necessidade de vigilância contínua.
Por outro lado, alguns relatórios mostram que 76% dos americanos têm pelo menos uma doença crónica, e que a mortalidade infantil aumentou pela primeira vez em 20 anos em 2024, o que levou Estados como o Mississippi a declarar Emergência de Saúde Pública.
Já a Iniciativa “Make America Healthy Again” (MAHA), que inclui políticas de apoio ao autismo, reformas no CDC e a obrigatoriedade de educação nutricional nas Faculdades de Medicina, representa uma mudança para a prevenção, focada na alimentação e numa tentativa de redução do uso de medicamentos, o que só pode merecer aplauso unânime.
Enquanto isto, na Europa, o “Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças” (ECDC) informou que este ano ocorreram surtos record do vírus do Nilo Ocidental (WNV) e de Chikungunya, um “novo normal” na Europa, devido às alterações climáticas e aos vectores (mosquitos). Já a “Associação Europeia de Saúde Pública” (EPHA) desafiou esta semana a União Europeia a avançar com o “Plano de Saúde Cardiovascular”, a fim de reduzir a principal causa de mortes no continente. Um estudo no Reino Unido sugere que milhões de britânicos enfrentam maior risco de insuficiência cardíaca devido ao ar poluído, o que tem implicações nas políticas ambientais, em toda a Europa. A EPHA, e outras organizações, defendem a eliminação gradual dos motores a combustão até 2035, uma vez que as emissões dos veículos são a principal fonte de poluição do ar, contribuindo assim para doenças respiratórias e cardiovasculares crónicas. Isto, associado ao envelhecimento populacional e às tensões nos sistemas de saúde, vem agravar cenários cada vez mais preocupantes. Como o facto da França estar a preparar os hospitais para tratar soldados feridos de guerra, como medida preventiva face às tensões geopolíticas.
Já Portugal enfrenta uma curva ascendente de mortalidade por COVID-19, com mais de 100 óbitos nas últimas semanas, e a duplicação mensal do número de casos. A falta de acesso fácil a tratamentos, e a quase nula testagem, agravam o impacto, sobretudo nas populações vulneráveis. Esta tendência preocupante tem-se verificado ao longo de 2025, justificando apelos para maior vigilância epidemiológica. Estivesse a comunidade atenta… 2025 não tem sido um ano “fácil”, com o nosso país a registar 50 dias de excesso de mortalidade, com mais de 1.300 óbitos acima do esperado, principalmente pessoas com 75 anos ou mais, associado à maior carga de doenças crónicas e à menor resiliência, ao stress ambiental e infeccioso.
Por sua vez, a “Confederação Empresarial de Portugal” defendeu a criação de uma política industrial para a saúde, a fim de reduzir custos e atrair investimentos. As exportações da fileira da saúde cresceram 85% no primeiro semestre de 2025, destacando o potencial de crescimento económico. O “Conselho Nacional de Saúde” está a preparar um relatório sobre um “rumo desejável para a saúde”, procurando o consenso quanto às transformações necessárias.
A terminar, destaco o lançamento da “Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico”, previsto para 10 de Setembro de 2025. Os cuidados diários com a saúde mental não devem ser descurados, especialmente agora, no regresso ao trabalho.

A homenagem da semana: Dr.ª Sania Nishtar

A Dr.ª Sania Nishtar, CEO da “Gavi, the Vaccine Alliance”, tem-se destacado pela sua liderança na promoção da equidade em saúde. Em Agosto expressou a sua gratidão e destacou os esforços da Gavi na agenda “Gavi Leap”, iniciativa que tem como objectivo preparar a organização para o período estratégico Gavi 6.0 (2026-2030), em resposta ao contexto global de saúde (marcado por restrições de recursos, desafios fiscais e uma maior ênfase na propriedade dos países), visando sustentar os avanços alcançados nos últimos 25 anos e contribuir para uma arquitectura global de saúde, mais eficiente e sustentável. No contexto da “Nona Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano” (TICAD9), foram anunciados vários compromissos, incluindo o contributo de 550 milhões de dólares do Japão, para 2026-2030. O trabalho da Dra. Sania Nishtar fortalece a vacinação em África, contribuindo para a redução das desigualdades e para os “Objectivos de Desenvolvimento Sustentável”, reforçando parcerias num momento crítico para a Saúde Pública.
Por cá, a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, tem mostrado empenho, na ténue reforma do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em Agosto defendeu a regulação do “trabalho à tarefa” no SNS, anunciando reuniões com a Ordem dos Médicos para estabelecer novas regras na contratação de profissionais tarefeiros, visando maior eficiência e qualidade nos serviços. Em várias intervenções públicas afirmou que o novo regime não fecha portas a médicos, demonstrando foco na melhoria do acesso e na recuperação da confiança no sistema público. As suas acções são um esforço para fortalecer o SNS, a braços com enormes desafios, como as listas de espera, contribuindo assim para que a Saúde se torne mais sustentável e acessível.

Mário Freitas*

  • Médico de Saúde Pública e de Medicina do Trabalho
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