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Saúde (do) Pública(o) (46) – A Gripe, um problema grave de Saúde Pública

“Portugal tem uma das mais altas relações entre mortalidade no Inverno e a temperatura do ar ambiente, realçando as vulnerabilidades climáticas no nosso país. As epidemias gripais têm contribuído para uma carga significativa, com impacto elevado nos idosos e nas pessoas com comorbilidades.”

O tema da semana: A Época Gripal de 2025-2026

A gripe sazonal é um desafio anual para os sistemas de Saúde Pública, de todo o mundo, e tem um significativo impacto na morbilidade (doença), mortalidade e na Economia. Portugal já iniciou a sua campanha de vacinação contra a gripe, alinhado com as recomendações internacionais para o hemisfério norte. Esta semana escrevo um pouco sobre este problema, que se repete anualmente.
No hemisfério sul, países como a Austrália e o Brasil servem de indicador para a actividade gripal subsequente no hemisfério norte. Durante o Inverno de 2025 a atividade gripal no hemisfério sul foi moderada a elevada, tendo tido início precoce, em Março, e um elevado pico de incidência em várias zonas. Na Austrália a época gripal foi descrita como severa, com taxas de incidência superiores às observadas em anos anteriores, incluindo casos graves em crianças. No Brasil e na Argentina a actividade foi estável. As estimativas de efectividade da vacina mostram uma redução de cerca de 50% nas consultas médicas associadas à gripe, sugerindo uma protecção moderada contra as estirpes circulantes. Estes dados demonstram a necessidade de vigilância contínua, uma vez que padrões semelhantes podem aparecer agora no hemisfério norte.
A vacina contra a gripe para a época 2025-2026 no hemisfério norte, incluindo Portugal, foi desenvolvida com base nas recomendações da “Organização Mundial da Saúde” (OMS), emitidas em Fevereiro de 2025. Estas recomendações pretendem adaptar a composição vacinal às estirpes virais predominantes observadas na vigilância global, incorporando dados do hemisfério sul. A vacina trivalente recomendada inclui, este ano, as seguintes componentes: um vírus do tipo A(H1N1)pdm09, um A(H3N2) e um B/Victoria. A União Europeia adoptou estas orientações em Abril de 2025, com uma actualização para as vacinas atenuadas vivas. Esta formulação serve para maximizar a protecção contra as mutações virais, baseada nas análises de estirpes circulantes no hemisfério sul. Em Portugal a vacinação administrada através do Serviço Nacional de Saúde prioriza os grupos de risco: os idosos, os doentes crónicos e os profissionais de saúde.
Ao longo dos últimos 30 anos a gripe tem contribuído significativamente para a morbilidade e mortalidade em Portugal. Vários estudos mostram que, por exemplo, entre 1990 e 1996 a actividade gripal foi moderada. As estimativas de mortalidade excessiva, associada às epidemias gripais, mostram cerca de 200 óbitos devido directamente à gripe, anualmente, mas mostram também um excesso de mortalidade por todas as causas, substancialmente superior. Por exemplo, a pneumonia da comunidade, ligada à gripe, representou 3,7% das hospitalizações totais em adultos e 7,0% nos maiores de 65 anos, entre 2000 e 2018. Portugal tem uma das mais altas relações entre mortalidade no Inverno e a temperatura do ar ambiente, realçando as vulnerabilidades climáticas no nosso país. As epidemias gripais têm contribuído para uma carga significativa, com impacto elevado nos idosos e nas pessoas com comorbilidades.
Por seu lado, elevadas taxas de cobertura vacinal contra a gripe geram benefícios substanciais, em termos económicos e sociais. Em Portugal, onde a cobertura vacinal atingiu 71% na última época, posicionando o país como o terceiro na União Europeia, a vacinação reduz hospitalizações e custos associados. Estudos europeus mostram que os programas de vacinação em massa, especialmente em idosos e crianças, são custo-efectivos, e evitam ausências laborais e perdas de produtividade. Por exemplo, a vacinação pode aliviar o fardo económico das epidemias sazonais, com poupanças em custos de saúde e sociais, incluindo redução nas ausências ao trabalho (estimadas em milhões de euros anuais), menor absentismo escolar e laboral, promovendo assim a estabilidade económica, e reduzindo desigualdades associadas. A meta europeia de 75% de cobertura pode aumentar estes ganhos, transformando a vacinação numa intervenção de alta prioridade para a Saúde Pública.
As previsões para a época gripal 2025-2026 na Europa indicam um potencial para uma temporada severa, influenciada pela actividade elevada no hemisfério sul. Espera-se que a actividade se inicie nesta altura, Novembro, e haverá um pico entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026, possivelmente agravado pelas mutações do vírus. Em Portugal as perspectivas estão em linha com o padrão europeu. Os Açores, pela sua posição insular, têm sempre variações locais, mas as previsões gerais apontam para uma incidência moderada a alta, sendo que a vacinação pode mitigar os impactos. Os maiores especialistas recomendam vigilância reforçada, dado o risco de uma das piores temporadas, numa década, e a pior no pós-Covid. A adesão às campanhas vacinais é crucial para minimizar o enorme fardo sobre os sistemas de saúde, já tão depauperados.

A homenagem da semana: aos que nunca desistem

Dos Estados Unidos destaco esta semana a Dra. Manisha Juthani, Comissária da Saúde Pública do Estado de Connecticut, e que merece homenagem pelo seu trabalho nos programas de vacinação anti-gripe. Ela tem liderado campanhas para fortalecer as estratégias de vacinação a nível estadual, delineando respostas de Saúde Pública, num ambiente em que há um forte cepticismo em relação às vacinas, e políticas nacionais incertas. A sua declaração recente sobre o primeiro óbito ligado à gripe na temporada 2025-2026, onde realçou a importância da vacinação antes das festas de fim de ano, para reduzir os riscos de doenças respiratórias graves, e a sua inclusão na lista “Power 25 HealthCare Leaders” de 2025, mostram bem o quanto ela se destaca pelos seus contributos neste campo.
Na Europa, Edoardo Colzani, Chefe da Secção de Vírus Respiratórios no Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), merece o reconhecimento público pelo seu papel também em programas de vacinação anti-gripe. Ele tem alertado para a tendência precoce de circulação do vírus e promovido acções urgentes para mitigar os impactos na saúde pública. No dia 20 de Novembro de 2025 recomendou a vacinação imediata dos grupos vulneráveis, devido ao aumento precoce dos casos de gripe na União Europeia, e destacou que “o tempo é essencial” para proteger as pessoas e evitar a sobrecarga nos sistemas de saúde.
A vacinação é uma medida eficaz contra as doenças graves, no Inverno. Siga os conselhos do seu médico assistente, e vacine-se pela sua Saúde, e pela Saúde dos que o rodeiam.

Mário Freitas*
* Médico de Saúde Pública e de Medicina do Trabalho

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