O debate presidencial entre Catarina Martins e André Ventura conta-se em poucas palavras: sucessão de insultos, provocações e linguagem degradante, que levanta uma questão central sobre o estado da democracia portuguesa. Não foi um confronto de ideias, mas uma encenação de hostilidade e um exercício da argumentação irracional. Por mim, e se a Lei o permitisse, seriam expulsos da corrida a Belém.
Mas este tipo de confronto não é exclusivo de Portugal: em várias democracias contemporâneas, os debates políticos transformaram-se em arenas de combate verbal, em que o objetivo é a humilhação do adversário e a conquista de primeiras páginas.
Só que a democracia vive da pluralidade e do confronto de visões, da capacidade de escuta e de respeito mútuo. Quando os protagonistas políticos reduzem o espaço público a uma troca de vitupérios, o resultado é a erosão da confiança dos cidadãos nas instituições. E a consequência é dupla: por um lado, desencanto e abstenção; por outro, a ideia de que a política é apenas um jogo de poder sem substância, permitindo um discurso populista e redutor.
Apesar da democracia não se resumir a um debate televisivo, ela constrói-se diariamente, nas instituições, na transparência das decisões e na participação cívica. Os debates presidenciais têm a função pedagógica de serem momentos em que se espera elevação do discurso, clareza das propostas e capacidade de liderança.
O futuro da democracia depende da capacidade de os atores políticos compreenderem que o insulto não substitui o argumento e que a credibilidade não se conquista com gritos. A sociedade civil exige mais: debates que informem, jornalistas que moderem com rigor, e cidadãos que não se deixem seduzir por uma teatralidade Kabuki. A democracia que teremos será aquela que formos capazes de cultivar: se aceitarmos a degradação do debate como normal, colheremos cinismo e desconfiança; se exigirmos respeito e substância, poderemos ainda fortalecer o espaço público e devolver-lhe a dignidade que merece.
Luís Soares Almeida