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Que 2024 seja um fósforo para nos aquecer o coração!

“Como [o fósforo] estalava enquanto ardia! Deu-lhe uma chama brilhante e acolhedora, como uma pequena vela, e ela segurou-a na mão. Era realmente uma luz milagrosa.”

Muitas histórias são imortais, pois trespassam os anos e os séculos com uma capacidade estonteante de descrição da realidade. São histórias que se mantém sempre atuais; outra razão para serem imortais. Muitas delas foram escritas por Hans Christian Andersen, o grande mestre das histórias infantis que continua a mudar o mundo de muitas crianças e de muitos adultos.
Da minha infância, há uma história que recordo com muita precisão: A menina dos fósforos, de Hans Christian Andersen. Tinha-o numa edição muita pequena, que cabia na palma da mão, e que de tão pequena que era já não sei onde está! No entanto, a história não cabe no nosso coração. É triste, reveladora de um mundo tão cruel como era o do século XIX e como ainda é o do século XXI, infelizmente!
A história decorre na última noite do ano, tal como o dia que hoje vivemos, e aquela menina tinha uma função quando saiu de casa, mal agasalhada, para o frio de um inverno rigoroso e enregelado. Ela só queria vender fósforos e levar algum dinheiro para casa; sem ele, não valia a pena regressar. Mas a sorte não estava do seu lado e rapidamente ela percebeu que aquele ia ser um dia duro, mais um.
Olhando para a menina da edição que agora tenho, da editora Alfarroba, com ilustrações de Polona Lovsin, vejo uma criança como qualquer outra: linda, pura, inocente, capaz de transformar o mundo se o pudesse. Vejo a minha filha, com quase seis anos, e dói-me só de pensar que ela poderia passar por algo semelhante. É que esta menina tem os pés mal calçados, com uns chinelos muitas vezes maiores que os seus pés, deixando-os, às tantas, descalços e colados ao chão gelado.
A menina procura um alento, não só vender os fósforos, e olha radiante para o mundo que acontece mesmo ao seu lado, de famílias a passear, com presentes debaixo do braço, e sorrisos no rosto. Como ela gostaria de sorrir, se não tivesse tanto frio!
Depois ela descobre o poder da luz dos fósforos. Afinal, ela ainda tem qualquer coisa: tem a luz e o calor que os fósforos, aninhados no seu avental velho, lhe podem transmitir. E acende um após o outro, encontrando de cada vez imagens lindas e calorosas de um prato com boa comida, de uma árvore de Natal iluminada e muito mais; realidades que se desvanecem sempre quando os fósforos se apagam. Sem luz, não há calor nem imaginação, há apenas o vazio e o frio que regressa para lhe lembrar da dura realidade da sua vida.
Por fim, a última luz, a mais bela, a mais importante: a da sua avó, que já era uma estrelinha no céu. E naquela noite difícil, a última do ano, propícia a reflexões e melancolias, aquela menina pede para partir no abraço da sua avó, o que acontece realmente.
No dia seguinte, o que todos veem é uma menina estendida no chão gelado, já sem sentir o gelo, e mostram uma pena enorme, porque, coitadinha, morreu de frio. Mas apenas naquele momento ela foi feliz, pois teve o que desejou e saiu do ano velho para o ano novo no maior calor humano que poderia imaginar. Partiu em busca de um mundo novo, onde não se sente frio, fome ou dor. Pelo menos foi nisso que ela acreditou e partiu feliz. Ousou sonhar, ousou pedir, e partiu feliz!
Hoje terminamos mais um ano, 2023! Um ano que se revelou difícil, desafiador e intenso em vários sentidos pelo mundo fora.
Escolhi esta história para fundamentar a minha última crónica do ano, porque é com exemplos destes que aprendemos a dar valor ao que temos; à família que nos apoia; ao teto que nos cobre, ao pão que nos espera na mesa; à roupa que nos agasalha; ao trabalho que nos permite pagar as nossas despesas; e à saúde que, dias mais e outros menos, nos acompanha todo o ano.
Que 2024 seja um ano de calor humano, de fósforos que se acendem para aquecer o nosso corpo e o nosso coração, mas principalmente a nossa imaginação e os nossos sonhos. Sejamos como a menina dos fósforos e saibamos ver e sentir o poder da luz nos nossos dias.

Boas entradas e feliz ano novo, com muitas leituras!

Patrícia Carreiro*

  • Diretora da Livraria Letras Lavadas
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