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O Governo do Continente

Os ministros do Ensino Superior nunca tiveram uma boa relação com os Açores.
Terem à sua guarda uma Universidade insular, lá longe do Terreiro do Paço, era e é uma maçada.
A bem dizer, nas últimas duas décadas, foi raro o ministro que teve alguma boa relação com a Região Autónoma, este fardo no meio do Atlântico, com uma população do tamanho de um bairro da Amadora, que passa a vida a chatear os senhores de Lisboa.
O pensamento político sobre as autonomias regionais que se foi formando, ao longo destes anos, na nova geração de políticos, da escola das jotinhas, que agora ocupam os lugares do poder no país, é de um sentimento centralista, egocêntrico, onde tudo o que se passa longe de Lisboa não tem relevância política.
A infeliz ministra do Ensino Superior do actual governo da República, Elvira Fortunato, protagonizou esta semana, em Ponta Delgada, um desses momentos enternecidos dos governantes lisboetas, quando parecem estar a fazer um enorme frete nas visitas relâmpago às ilhas, ainda por cima em fim de ciclo.
Discursando na cerimónia de aniversário da Universidade dos Açores, perante dezenas de alunos, professores e convidados, a ministra referiu-se, por mais de uma vez, ao “governo do continente”, coisa nunca ouvida no léxico ministerial, mas que reflecte (de forma ingénua?) a distinção que os governantes do continente fazem das regiões insulares, como se isto não fosse Portugal.
O “governo do continente” é uma boa forma de desresponsabilizar os governos centrais, porque se é do continente não tem que se meter nas trapalhadas das ilhas, como é o caso do ensino universitário, mesmo que a Constituição da República Portuguesa a isso obrigue.
No fundo, a ministra limitou-se a cumprir o protocolo do pensamento centralista, segundo o qual “se querem uma universidade, pois que a financiem”, porque um “governo do continente”, como o próprio se designa, não tem nada a ver com as ilhas.
O pensamento vai fazendo escola e não admira que, daqui a dias, nos propõem que financiemos a segurança militar e militarizada, que tratemos dos tribunais e que tenhamos consulados e embaixadas no estrangeiro.
Bem dizia alguém, em tempos idos, que o independentismo estava em Lisboa e não nas ilhas!
Para pagar as obrigações do Estado nas ilhas empurram-nos a factura, mas se for para gerirmos o nosso mar, nem que seja de modo partilhado, é coisa reservada apenas ao “governo do continente”!
O que resta desta história é que a ministra veio cumprir uma promessa de há três anos, do seu antecessor Manuel Heitor, que vem com atraso, sem juros e com a agravante de colmatar o problema financeiro da academia açoriana por agora, mas que se agravará no futuro, porque não há previsibilidade nestes contratos, nem tão pouco qualquer estratégia consistente sobre o financiamento das universidades, especialmente como a nossa, de cariz insular e geograficamente tripolar.
A ministra não quer saber disso, a julgar pelo discurso vazio, nem tão pouco o “governo do continente”.
O que só prova que uma boa cientista, como é Elvira Fortunato, não tem que ser, necessariamente, uma boa governante.
Outra coisa é o “governo do continente” no seu todo, liderado pelo pior primeiro-ministro de que há memória nas Autonomias Regionais, que tinha obrigação de olhar para os Açores e, particularmente, para a nossa universidade, com outra preocupação e mais assertividade.
Por agora termina um tormento.
A seguir a 10 de Março virá outro.

Osvaldo Cabral

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