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A minha visão das Florese do Corvo (2013) Parte 2 (I)

2.1. Cavaleiro de basalto

A respeito do artigo Quem construiu a estátua da ilha do Corvo? (Super n.º 128 de dezº 2008), convém ter em atenção o que se segue. O autor invoca uma série de testemunhas. De nenhuma delas há um testemunho direto, porque só se sabe o que disse Damião de Góis. O Dr. Gaspar Frutuoso, bem como Frei Diogo das Chagas e outros, limitou-se a copiar o que escreveu o cronista, que apenas deve ter ouvido a história, porque se percebe pelo relato que o próprio não chegou a ver os despojos do achado. O basalto é uma pedra muito difícil de esculpir. Seria quase impossível conseguir pormenores que fizessem o cavaleiro parecer-se a um magrebino. O que aliás contrasta com o que diz Frutuoso do que afirmavam os naturais das Flores e Corvo: que a estátua “estava carcomida, com as faces do rosto e outras partes do corpo sumidas e quase gastadas”.Quanto às letras gravadas na rocha, estariam em lugar tão inacessível que teria sido necessário descer por cordas quem lhes tirou o molde. Como teria sido então possível o trabalho de as esculpir? E por que razão, sendo este episódio do tempo de D. Manuel, o conta Damião de Góis na Crónica do Príncipe D. João? Aliás, o célebre humanista não era um historiador, mas um cronista. O seu pouco rigor chegou mesmo a causar-lhe complicações com a justiça real. Que dizer das moedas achadas nas ruínas de uma casa? Que, se existiram, foram para lá levadas depois do povoamento. Das inscrições numa gruta muito grande em S. Miguel, basta dizer que nunca se encontrou a gruta sequer. E, quanto aos carateres em pedra nas Quatro Ribeiras, quase todas as pessoas que os viram afirmam ser uma formação natural. Quem quer crer nos fenícios diz apenas que “talvez” … Quanto ao saber marítimo dos fenícios, não consta que tenham sido mais do que bons marinheiros de cabotagem. Os portugueses foram os primeiros a ser capazes de navegar sem terra à vista. Os próprios viquingues chegaram à Gronelândia fazendo escala nas ilhas Faroe e na Islândia, já então habitadas. E, da Islândia à Gronelândia (300 km), com boa visibilidade viaja-se sempre tendo a terra como referência: até meio caminho continua a ver-se a Islândia, daí para diante já se avista a Gronelândia. Daniel de Sá, Maia, S. Miguel, Açores.
Diria ainda o cético Daniel de Sá a este respeito (jornal Público 20 julho 2008):
“…há outra novidade nas livrarias, que versa sobre uma famosa estátua que teria sido encontrada na ilha do Corvo pelos primeiros povoadores. Prova irrefutável de que por ali andaram cartagineses muito antes de Cristo calcorrear a Galileia. Falou dela Damião de Góis, que a descreve em pormenor, mas não a viu. Como convém nestes casos, não ficou nem um pedacinho da escultura, que teria sido levada para a corte no tempo de D. Manuel. Nem qualquer marca na ilha. E também desapareceram as moedas cartaginesas encontradas lá nos finais do século XVIII. Desaparecimentos deste tipo dão sempre jeito para uma história revista e aumentada.”
Já o célebre historiador e estudioso de fenómenos esotéricos, Joaquim Fernandes (um brilhante aluno que foi meu antigo colega de liceu, Faculdade de Letras da Universidade do Porto,1) responderá assim a Daniel de Sá:
“…. Pretendera beliscar uma dupla credibilidade: a de Damião de Góis, que descreve com algum detalhe, o episódio da estátua equestre encontrada pelos portugueses na ilha do Corvo, e o historiador no papel de autor do romance O cavaleiro da Ilha do Corvo, que embora em tons de ficção, fá-lo com a segurança e credibilidade que lhe confere uma investigação documental de centenas de referências bibliográficas, de Aristóteles à pesquisa atual, disponível no final do citado livro. Desde o arquiteto Duarte d’Armas, que el-rei mandou ao Corvo fazer o desenho da estátua, aos pedreiros enviados ao ilhéu com a incumbência de trazerem o monólito para Lisboa, passando pelo donatário Pedro da Fonseca, que em 1529, se deslocou ao Corvo para recuperar uma legenda em carateres não-latinos descoberta no sopé onde antes existira a estátua do cavaleiro com “traços africanos”, seguindo a descrição de Góis. E o mapa dos irmãos Pizzigani, de 1367, que confirma a tradição árabe das estátuas marco no centro do Atlântico? Ou seja, o autor da Crónica do Príncipe D. João é digno de crédito para descrever a chegada do primeiro rinoceronte a Lisboa; mas já não serve quando relata a chegada ao Paço dos destroços do monumento, que a imperícia dos pedreiros provocara…. Quatro séculos passados persistem aqueles que minimizando a integridade de Damião de Góis, tentam fazer da História um livro fechado:”
Sei-o, por experiência própria, que sempre que se quer alterar o que ao longo dos séculos vem passando por História, um enorme coro se levanta a defender a versão e o status quo. Faz parte da mente humana recusar aceitar novos factos, provas ou teorias, que contradigam aquilo em que se acredita desde a idade de formação intelectual. O primeiro romance do investigador Joaquim Fernandes, “O cavaleiro da ilha do Corvo”, promete criar polémica, ao sugerir que os navegadores da Antiguidade terão conhecido os Açores muitos séculos antes de os portugueses ali terem chegado. (Jornal de Notícias 6/6/2008):
Na base da tese defendida no livro, alicerçada em anos a fio de investigações, encontra-se um dado para muitos desconhecido: quando os navegadores portugueses chegaram à ilha do Corvo, nos Açores, em meados do século XV, encontraram ali uma intrigante estátua de pedra, representando um cavaleiro com traços caraterísticos do norte de África. A existência do referido monumento até poderia ser uma simples lenda não fosse dar-se o caso de o relato da sua descoberta ter sido escrito pelo grande humanista português dos Descobrimentos Damião de Góis, cuja “obra e crédito são dificilmente questionáveis”, adianta Joaquim Fernandes. Obra de ficção que, segundo o autor, “não deixa de ser também um ensaio histórico”. “O cavaleiro da ilha do Corvo” levanta questões várias (“e se a tal lenda de um tal cavaleiro em pedra que aponta, do mais alto cume da ilha, em direção às Américas fosse apenas uma tentativa de insinuar a descoberta por outros povos do que Colombo definirá de Novo Mundo?”, questiona o autor) numa trama conspirativa destinada a relançar o debate em torno dos Descobrimentos.
“O livro defende, em suma, a plausibilidade da hipótese da navegação no Atlântico mil anos antes de os portugueses darem início à sua aventura marítima “, explica o especialista no estudo do imaginário português. O docente da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, tem outros projetos que aguardam publicação. O primeiro, intitulado “Poesia e o Céu”, é uma revisão da poesia portuguesa de todos os tempos, inspirada pelos astros. Igualmente ambicioso é o volume “O livro dos portugueses esquecidos”: em mais de meio milhar de páginas, Fernandes recorda a vida de 300 figuras nacionais dos séculos XVI a XIX que, devido a perseguições várias, se viram obrigadas a procurar refúgio noutros países, nos quais atingiram relevo em áreas tão distintas. Desde José Carlos de Almeida, o fundador da Sociedade Francesa de Física, ao Padre António de Andrade, o primeiro europeu a chegar ao Tibete, há biografias para todos os gostos. Do seu conjunto extrai-se a ideia de “um país que sempre conviveu mal com a diferença, exibindo sinais de uma intolerância, sobretudo política e religiosa, que se revelou catastrófica para o seu desenvolvimento, ao dispensar um número avultado de talentos”. A lista poderia ser ainda mais vasta se incluísse figuras como Damião de Góis ou Pedro Nunes, que abandonaram o país nas mesmas circunstâncias dos restantes biografados, mas o organizador da antologia entendeu privilegiar figuras que, apesar da sua valia, foram esquecidas com o decorrer dos anos. Para investigar esta autêntica ‘fuga de cérebros’, Joaquim Fernandes recorreu a enciclopédias e dicionários, mas também jornais e publicações científicas, surpreendendo-se com a quantidade de ‘estrangeirados’ que Portugal foi acumulando ao longo dos anos. “Boa parte dessa elite foi enriquecer sociedades como a alemã ou a holandesa”, lamenta o autor.
Quando os navegadores portugueses aportaram pela primeira vez à pequena ilha do Corvo, nos Açores, em meados do século XV, encontraram ali uma intrigante estátua de pedra, representando um cavaleiro com traços caraterísticos do norte de África. Este episódio, despercebido a gerações de portugueses, iludido pelos manuais escolares, constitui um ponto de partida fulcral para a grande interrogação: quem descobriu pela primeira vez os Açores? Sabendo-se das diferenças qualitativas, não só etimológicas, entre “descobrimento”, “descoberta” ou “avistamento”, importa conhecer as diferentes etapas que fizeram da gesta das Descobertas Marítimas do Renascimento mais uma consequência do que antecedência gerada no zero dos saberes e da ignorância total sobre rotas oceânicas e capacidades náuticas epocais. (in RTP Açores Comunidades de 13/6/2009)

1Cofundador do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, (CTEC), da Universidade Fernando Pessoa, doutorou-se em História com uma tese sobre “O Imaginário Extraterrestre na Cultura Portuguesa – do fim da Modernidade até meados do século XIX”, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a primeira da sua temática numa Academia portuguesa e europeia e editada sob o título “Moradas Celestes” (ed. Âncora Editora, 2014). Desde 1997 que tem promovido a realização de vários congressos internacionais subordinados ao título genérico de “Fronteiras da Ciência”, na Universidade Fernando Pessoa. Colaborou na organização da conferência “Ciência e Consciência” integrada no programa do “Porto 2001, Capital Europeia da Cultura”.Em 2008 publicou o seu primeiro romance histórico, “O Cavaleiro da Ilha do Corvo”, a que se seguiram os ensaios “O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos”, “Mundos, Mitos e medos – O Céu na Poesia Portuguesa”. No mesmo ano, apresentou na RTP2 a série temática “Encontros Imediatos”, dedicada ao fenómeno OVNI em Portugal. Em 2010 escreveu em coautoria o guião do telefilme “A Noite do Fim do Mundo”, que retrata as reações em Portugal à aproximação do Cometa Halley, em 1910, integrado no ciclo dedicado ao Centenário da República Portuguesa programado pela RTP1. Para a RTP2, coordenou a série temática “Encontros Imediatos”, dedicada ao fenómeno OVNI em Portugal. Em 2014 publicou o seu segundo romance histórico “As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República” (ed. Gradiva). Publicou em 2015 a obra “História Prodigiosa de Portugal. Mitos & Maravilhas”, que prossegue a linha de investigação da obra “História Prodigiosa de Portugal. Mitos & Maravilhas” (Quidnovi, 2012). O seu mais recente título “Portugal Insólito” foi dado à estampa pela editora Manuscrito (2016). Foi autor do guião e da apresentação do documentário “As Faces de Fátima”, produzido para o Canal História em 2017 e, no Porto Canal, coordenou a série “Conversas do Centenário” dedicada aos eventos aparicionais de Fátima. Está biografado no “Dicionário das Personalidades Portuenses do século XX” (Porto Editora, 2001).

Continua

Chrys Chrystello*

*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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