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A grande oportunidade para os Açores

A grande questão que se coloca por estes dias, no rescaldo das eleições, é se a coligação estará em condições políticas de governar com maioria simples e sem acordos com ninguém.
É uma possibilidade e um novo risco de Bolieiro, depois de ter arriscado com sucesso uma pré-coligação, mas não se livra de uma governação instável, frágil e de navegação à vista.
Há, no entanto, outro cenário, na sequência do que tenho vindo a propor e a defender, que seria o estabelecimento de um “compromisso de regime” entre os dois maiores partidos do arco da governação, que não tem nada a ver com uma aliança entre os dois, pois é saudável que ambos se constituem como alternativa.
Esta é uma grande oportunidade para se começar um novo ciclo de estabilidade nos Açores.
PS e PSD têm de colocar para trás as suas tensões, divergências conjunturais e traçar como prioridade um futuro estável e consistente para a nossa região.
A única forma dos dois maiores partidos não ficarem dependentes dos extremismos, à esquerda ou à direita, é entenderem-se num “compromisso de estabilidade” sempre que cada um vencer as eleições.
Veja-se isto: PS e PSD representam cerca de 80% dos votantes dos Açores, são quase 80 mil votos que formam o centro nuclear da nossa governação.
Já pensaram na força dos Açores, com um bloco desta natureza, quando tivermos que negociar com a República ou com a União Europeia, assuntos decisivos de ordem estratégica para o desenvolvimento da região, como Finanças, Educação, Saúde ou Coesão?
Estas são áreas que nos vão desafiar nos próximos tempos e precisamos de um entendimento coeso entre todos, para traçar linhas de longo prazo, em vez de estarmos focados apenas em ciclos eleitorais de curto prazo.
PS e PSD são cruciais nesta definição estratégica para um novo ciclo de desenvolvimento dos Açores.
Ignorar esta realidade, só porque ambos têm objectivos eleitorais ou programáticos diferentes (não tão diferentes), só prejudica a nossa região, os cidadãos e eles próprios.
Na verdade, a instabilidade política regional não é benéfica para ninguém, a não ser para os extremistas do caos. Ela é altamente prejudicial à vida de todos nós, cidadãos, e, em última instância, para os próprios dois partidos do arco da governação, porque serão penalizados se não se entenderem, capitalizando os partidos populistas.
Vasco Cordeiro (ou quem o venha a suceder depois das eleições nacionais) e José Manuel Bolieiro são políticos moderados e não se deixarão arrastar por extremismos ou paternalismos impostos por Lisboa.
Nem Luís Montenegro, nem Pedro Nuno Santos, se devem intrometer na estratégia de cada um dos seus partidos nos Açores, se é que ainda reclamam a autonomia de funcionamento que se deseja.
São realidades diferentes e atitudes políticas diferentes. Dizer que o PS não deve viabilizar um governo da coligação, só porque têm “programas diferentes”, não é argumento convincente, até porque o programa do PS é muito diferente do BE ou do PCP, e, no entanto, fizeram uma geringonça.
O radical Pedro Nuno Santos parece não ter aprendido a lição de domingo nos Açores, ao condicionar os socialistas locais, dizendo que o programa do novo governo deve ser chumbado.
Os eleitores castigaram, claramente, no domingo, PS e BE, os dois partidos que mais radicalizaram o seu voto contra o Plano e Orçamento e contra a governação da coligação.
Não perceber isso, é não perceber nada do que se passou nestes últimos três anos.
O líder nacional do PS também quer radicalizar o seu partido nos Açores, pensando, certamente, nos seus interesses a nível nacional, inclinados para uma nova geringonça à esquerda.
É bom que os socialistas açorianos sejam prudentes e recusem esta descarada ingerência, se é que não querem ficar 24 anos na oposição…
Os Açores vão enfrentar, nos próximos tempos, desafios difíceis.
Desperdiçar esta oportunidade de “entendimentos estratégicos”, criando instabilidade e luta partidária permanente, não é aconselhável a nenhuma força política nesta altura do campeonato.
Veja-se o que aconteceu nas eleições de domingo: os partidos penalizados foram exactamente aqueles que criaram instabilidade.
Depois desta lição, estará ainda alguma força política na disposição de causar mais instabilidade e obrigar-nos a novas eleições daqui a seis meses?

O pelotão dos eleitores adormecidos

As eleições de domingo revelaram um fenómeno interessante e novo nos actos eleitorais regionais.
Cerca de 11 mil eleitores resolveram juntar-se domingo aos 104 mil votantes das eleições de 2020, elevando para 115 mil o número de votantes, quase metade dos inscritos.
Bem se pode chamar um pelotão de eleitores que estava adormecido, que não se levantou do sofá em 2020 e, de repente, decidiu ir exercer o seu direito no passado domingo.
Quem são estes 11 mil eleitores? Como foram impelidos a sair, desta vez, para votar?
Só um aprofundado estudo junto desta legião poderá responder, mas uma coisa é certa: são eleitores, maioritariamente, do centro-direita, que salvaram a coligação e o Chega, dando-lhes uma boa fatia de votos, que lhes permitiu crescer significativamente.
Foram eles que tramaram o PS. Foi o pelotão de fuzilamento eleitoral dos socialistas.
De facto, se olharmos para o resultado destes três partidos vemos que cresceram, no seu conjunto… exactamente 11 mil eleitores!.
A coligação aumentou 5 mil votos, o Chega outros 5 mil e o PS apenas mil votos.
Numa análise primária poder-se-à concluir que aqueles 11 mil eleitores saíram à rua com um propósito: o de fazer crescer o bloco de direita.
Os da coligação serão, eventualmente, eleitores sociais-democratas que não se sentiram motivados, em 2020, para irem votar, julgando que o PS venceria novamente com maioria absoluta, como vinha sendo habitual. Desta vez sentiram-se impelidos pelo desempenho da coligação, alguns provavelmente com receio de nova vitória do PS (como previa a sondagem da Católica) e do fortalecimento do Chega, e toca a votar na coligação.
Os do Chega são os zangados com o que assistiram, nos últimos tempos, à política e aos políticos no nosso país. Protestam contra o sistema e os partidos tradicionais e vêm no Chega o abrigo certo para concentrar essa frustração que vai em largos sectores da população.
Os mil votos a mais no PS serão, eventualmente, aqueles que quiseram responder aos apelos de Vasco Cordeiro, quando na recta final da campanha lançou o alerta para um possível acordo da coligação para fazer entrar o Chega no governo.
É provável, também, que os votos perdidos do Bloco de Esquerda tenham-se movimentado para o PS, mas muitos deles terão ido parar à CDU, que quase recuperava o deputado perdido há oito anos, exactamente porque os seus eleitores fugiram, naquela altura, para o BE.
A legião dos 11 mil eleitores a mais este ano fez a diferença e permitiu esta outra ironia: o PS, que vinha perdendo votos desde 2016, numa queda abrupta (cerca de 12 mil votos), ainda assim ganhava eleições. Agora, que consegue estancar esta hemorragia e até subir mais mil votos, perde as eleições.
São as vicissitudes do nosso sistema eleitoral, de difícil previsibilidade, sobretudo devido ao círculo de compensação, que desvirtua qualquer previsão.
Daí as sondagens desencontradas.
É, também, a prova de que o voto vale muito e que a abstenção é um desperdício eleitoral.

Osvaldo Cabral
[email protected]

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