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Um povo revoltado

Será que os partidos perceberam a mensagem das eleições de domingo?
Nem lá, nem cá, os políticos dos maiores partidos não entenderam, ainda, que o povo está cansado e zangado com o sistema.
Não é à falta de chamadas de atenção, é mesmo negligência, incompetência e incapacidade que todos demonstram ao manterem tudo como está, confortáveis nos seus cargos, sem nunca ligar aos sinais da sociedade.
A mediocridade das lideranças partidárias, que já é bem visível por toda a Europa, também teve o seu expoente máximo nos resultados de domingo.
Cada voto no partido vencedor das eleições, no país e nos Açores, que foi o Chega, é um cartão bem vermelho ao sistema que se instalou em Portugal, com sinais de corrupção nos corredores do poder, ausência de representatividade popular, nenhuma relação com o país real, um sistema eleitoral caduco e podre, dirigentes partidários instalados, receio de reformas profundas e muita incompetência para implementar políticas públicas que melhorem a vida dos cidadãos.
Continuem assim e verão que, nas próximas eleições, provavelmente mais cedo do que imaginamos, a revolta popular vai cavalgar ainda mais a onda, deixando os políticos instalados e os partidos desligados da realidade a extinguirem-se paulatinamente.
O PCP já se foi, o CDS já tinha ido (agora reabilitado pelo PSD) e mais alguns outros vão a caminho do castigo por não perceberem que têm de mudar de políticas e de rostos.
É como um doente que recebe o diagnóstico de uma doença grave, mas vai à farmácia comprar uma caixa de aspirinas.
O Chega não é a doença, é o sintoma.
Tal como noutros países, é o sintoma de que os políticos tradicionais estão a olhar mais para os números e menos para as pessoas, dão mais atenção às tenebrosas agências de notificação, aos fundos abutres, todos para ficarem bem na fotografia junto dos colegas em Bruxelas, mas esquecem-se dos cidadãos.
Quem frequenta a rua, em vez dos gabinetes, ouve histórias todos os dias que mereciam subir aos parlamentos cinzentos de mofo.
Como, por exemplo, no dia antes das eleições, quatro pescadores que encontrei num conhecido restaurante da costa norte de S. Miguel, que me disseram que iam votar, pela primeira vez, no Chega, porque “estavam fartos de ouvir falar em milhões de ajuda europeia e não sentirem nada nas suas vidas”.
Ou aquela história contada pelo Armando Mendes, quando uma empregada de um conhecido supermercado de Angra, lhe disse, revoltada, que tinha votado no Chega porque a contratado por seis horas e quarenta minutos para não pagarem subsídio de refeição e ainda a obrigam a fazer horas que não pagam, “e ninguém quer saber!”.
Em todas as ilhas ouvimos histórias como estas, mas os políticos fingem que elas não existem.
Estas pessoas zangadas sabem que o Chega não lhes vai resolver a vida, mas encontram ali um escape de protesto que descarregam como vingança contra o sistema caduco que teima em não mudar.
Não são pessoas xenófobas e racistas, são cidadãos que já não aguentam ficar em casa, no mundo abstencionista, revoltadas consigo próprias com o que vão vendo e sentindo.
A maioria silenciosa que resolveu sair à rua no domingo, andava adormecida com a sua zanga, mas decidiu manifestá-la com estrondoso ruído nas urnas.
Por cada vez que os partidos forem atropelados, como agora aconteceu também nos Açores, os seus responsáveis vão dizer que vão fazer “uma reflexão”.
Mas, depois, já todos sabemos que tudo continuará na mesma, com os mesmos de sempre e com iguais vícios, sem mudarem nada.
Basta ver o que os partidos andaram a fazer, nestes últimos anos, no nosso parlamento, a arrastarem a chamada “reforma da Autonomia”, sem nunca perceberem os sinais da sociedade.
Não é por acaso que, há poucos dias, ficamos a saber, através de um estudo da Pordata, que mais de 60% dos cidadãos tendem a não confiar na Assembleia da República, um valor acima da média europeia, que é de 56%, e que 8 em cada 10 inquiridos em Portugal tendem a não confiar nos partidos políticos, em linha com a tendência em 19 dos 27 países da União Europeia (UE), em que mais de 70% das pessoas tendem a não confiar nos partidos políticos.
Os cidadãos sentem que não são ouvidos pelos políticos, não sendo por acaso que 73% dos cidadãos nacionais consideram que o sistema não permite, ou permite pouco, a influência das pessoas na política.
O sistema está feito para beneficiar apenas os partidos e quem faz as leis são eles próprios.
Vejam só esta incongruência: os deputados criaram uma lei de delimitação de mandatos para vários cargos políticos, como é o caso do Presidente do Governo Regional, ou dos autarcas, mas para os deputados não há limite, podem arrastar-se pelo parlamento até à reforma, porque é uma coutada de distribuição de benesses para a gente fiel dos partidos.
Ao romper com este sistema, estaremos a romper com muita gente confortavelmente instalada, muitos sem mérito que justifique o lugar, tudo à custa do contribuinte, que vai suportando, calado, a enorme carga de impostos.
Como é que os cidadãos não se hão-de revoltar?
Domingo foi apenas mais um sinal.
Tudo isto vai acabar mal, para a própria democracia, se os responsáveis políticos continuarem a olhar para o lado, fingindo que não é com eles.
Até ao dia em que serão, também, engolidos pelo próprio sistema que alimentam
São eles próprios que precisam de “linhas vermelhas”.
A revolta, pelos vistos, não vai ficar por aqui.
É só esperar pelo que vamos assistir, esta semana, com o debate do Programa do Governo dos Açores.

Osvaldo Cabral
[email protected]

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