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Tradições quaresmais açorianas

Têm vindo a perder-se algumas das antigas tradições quaresmais na nossa cidade de Ponta Delgada. Refiro-me sobretudo às procissões de Passos e do Enterro, que saíam da Matriz e tinham grande esplendor. Já a dos Terceiros saía da Igreja de São José, logo no primeiro Domingo da Quaresma, e percorria boa parte da cidade com os seus andores com as imagens de roca dos Santos Terceiros, mas eu já não me lembro de os ver senão armados na Capela anexa à Igreja Paroquial, cujos retábulos, foi há pouco anunciado, estão a cair e portanto clamando por um urgente restauro. Julgo ter ido na última procissão realizada, ainda nos anos 50 do século passado, levando uma forca do único andor com a imagem do Senhor atado à coluna e tenho memória de termos passado a Rua dos Mercadores, mas não me lembro do restante giro.
Quanto à procissão dos Passos, era muito concorrida e tinha um percurso enorme. Nunca houve em Ponta Delgada, ao contrário de numerosos outros lugares na nossa Ilha de São Miguel e noutras dos Açores, capelas próprias de cada um dos Passos, abertas apenas nos dias da procissão. Assim acontece na Ribeira Grande, nos Fenais da Luz e em Angra do Heroísmo, que me lembre agora. Os Passos eram então adrede armados nas igrejas anexas a antigas casas religiosas ou em capelas de solares de famílias nobres.
Assim, o primeiro deles ficava na Ermida da Trindade, hoje deslocalizada para o topo da Lombinha dos Cães, na vizinhança do Jardim António Borges, mas então situada no termo do jardim do solar da família Caetano de Andrade, onde hoje fica um condomíno de luxo chamado Neo Palacete. O segundo era na Igreja da Esperança e as freiras traziam do convento uma imagem do Senhor dos Passos, com uma cruz pequena às costas. O terceiro ficava na capela do solar em parte hoje ocupado pelo Supermercado Manteiga. O quarto na Igreja do Colégio, onde também ficava armado o andor com a imagem lá existente num altar lateral com camarim. O quinto era em Santo André e o sexto em Santa Bárbara. O sétimo e último ficava na capela do solar da Família Canto, no qual já funcionaram os Serviços da Câmara Municipal, enquanto os Paços do Concelho esteve fechado e meio em ruínas e onde agora tem sede a Secção Regional do Tribunal de Contas. Digo isto de memória e sem os ter percorrido todos, de modo que talvez haja aqui alguma falha.
Quando o andor chegava a cada um dos Passos, um grupo de cantores entoava um motete apropriado, em latim, claro, que ainda estava longe o Concílio Vaticano II, que reformou profundamente a Liturgia da Igreja Católica e introduziu o uso das línguas vernáculas faladas em cada País. Os motetes evocavam o conteúdo do episódio em causa em cada um dos Passos, que são afinal os tradicionalmente referidos nas estações da Via Sacra, entre a terceira e a nona, ficando o episódio da condenação à morte reservado para o Sermão do Pretório, pregado no Sábado anterior à procissão e os contemplados nas estações finais para o Sermão do Calvário, ao recolher da procissão, e ainda o das Lágrimas, na noite da segunda-feira seguinte. Quanto à tomada da cruz aos ombros por Nosso Senhor também tinha motete próprio cantado quando a procissão saía da igreja da Matriz.
Já alguma vez me referi à Procissão do Enterro, que culminava as Endoenças celebradas na Matriz, tal como ainda hoje acontece, com cerimonial simplificado. Em São José, a procissão decorria do interior da igreja, logo após as cerimónias da Sexta-feira Santa, estando o templo com as janelas tapadas por panos negros, logo tudo no meio de total escuridão. O esquife era seguido pelo andor da Senhora da Soledade e cantavam-se os “Heu” e ainda “O vos omnes”, esta último por três vezes, enquanto uma das três Marias, embuçadas em mantos roxos, mostrava, empoleirada em cima de um banco, o véu da Verónica com a Santa Face.
Em contrapartida com o que tem vindo a desaparecer das antigas tradições quaresmais, introduzidas pelos Franciscanos, talvez desde os anos do povoamento das nossas ilhas, vão surgindo costumes novos, fruto do tempo em que agora vivemos. Deles se destacam as novas romarias de mulheres ou de grupos especiais, de escolas ou de outras instituições. Tal como os romeiros de tempos antigos e de ainda hoje, lá vão estes novos romeiros e romeiras de xaile pelas costas e terço nas mãos cantando ao longo do caminho a Avé Maria e as Salvas apropriadas à porta das igrejas onde param para invocar, perante o Santíssimo Sacramento, perdão para os pecados individuais e do mundo inteiro e a graça de Deus para a resolução dos inúmeros e angustiantes problemas que afligem a cada um e à Humanidade no seu todo, com destaque para o fim das guerras e a paz no Mundo.
Por outro lado, as tradições de cada uma das nossas ilhas vão sendo passadas para as outras, numa evidencia de unidade açoriana, que poucos talvez notem, mas tem afinal profundo sentido. Assim, as romarias de São Miguel começam a ser também praticadas um pouco por todo o Arquipélago, tal como se verifica que aparecem nas Comunidades Açorianas da América e do Canadá. Isso sem esquecer os ranchos inteiros que têm vindo de Toronto cumprir a sua romaria na ilha de origem. Cada uma dessas adaptações reveste peculiaridades, por exemplo na duração do percurso, que é apropriado ao tamanho da ilha em causa. Em alguns lugares da América, consta que as romarias se fazem na manhã de Sexta-feira Santa, correndo as igrejas desde tempos antigos frequentadas pela nossa gente emigrante.

João Bosco Mota Amaral*

*(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo
Ortográfico)

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