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Porque fogemos jovens?

O alerta chegou há cerca de um mês através do “Atlas da Emigração Portuguesa” e fez manchete no Expresso: Portugal tem a taxa de emigração mais alta da Europa e uma das maiores do mundo. 
De acordo com uma estimativa do Observatório da Emigração, 30% dos nascidos em Portugal com idades entre os 15 e os 39 anos deixaram o país e vivem actualmente no exterior. São mais de 850 mil!
Em que medida os Açores engrossaram esta vaga?
Ninguém sabe, mas não custa perceber que a nossa Região está a enfrentar uma estrondosa hemorragia demográfica, silenciosa, mas catastrófica, pelo menos há uma década.
Segundo os últimos Censos, a população residente da Região Autónoma dos Açores (236.413) desceu 4,2% na última década, a que corresponde uma diminuição absoluta de 10.359 indivíduos. 
É uma queda brutal!
Não é possível saber quantos jovens estarão entre este número demolidor, mas cada família açoriana que possui filhos jovens sabe que quando vão estudar “lá para fora”, raramente regressam. 
E o fenómeno agrava-se mesmo entre aqueles que, sem qualificações superiores, preferem aventurar-se à procura de outras oportunidades, do que ficar cá dentro e tornar-se um funcionário precário.
Isto não se passa apenas nas ilhas mais pequenas, com menos oportunidades de emprego.
Em termos absolutos, as ilhas que perderam mais população residente foram exactamente as maiores, como S. Miguel (com menos 4.568 residentes), seguida da ilha Terceira (com menos 3.203 residentes) e, em terceiro lugar, S. Jorge (com menos 798 indivíduos residentes), de acordo com os Censos.   
Muita gente certamente não saberá, mas com os Censos 2021, a população residente açoriana é a mais baixa em 100 anos, uma quebra só comparada aos grandes surtos da emigração açoriana do tempo dos nossos avós.
E não se julgue que esta perda tem a ver com o saldo natural (diferença entre nascimentos e óbitos), pois os próprios Censos ajudam a concluir que o decréscimo verificado na população residente, nesta última década, é maioritariamente explicado pelo saldo migratório negativo (aproximadamente 10.179), uma vez que o saldo natural (2011-2020) também é negativo, mas de apenas 180 indivíduos.
Os jovens entre os 20 e os 29 anos, nos Açores, andam à volta dos 28 mil, pelo que basta uma boa fatia daquela perda dos 10 mil, na última década, representar esta faixa etária, para percebermos o grave problema que estamos a enfrentar.
Uma região sem jovens não sobrevive, nem muito menos cria riqueza suficiente para se desenvolver.
Mas para tê-los, também é preciso retê-los.
O maior desígnio dos Açores deve ser o da educação e qualificação, mas depois é preciso ter o número de empregos adequados às suas qualificações para saber reter esses jovens, caso contrário acontece o que estamos a assistir, que é a fuga de gente maioritariamente qualificada para outras paragens.
O problema dos Açores passa (também) por aí, podendo mesmo residir nesta fuga de jovens, na última década, a explicação para a persistente estagnação nos indicadores da economia e do desenvolvimento.
A propósito da mesma preocupação, no plano nacional, a demógrafa Maria Filomena Mendes, ex-presidente da Associação Portuguesa de Demografia, explicava há poucos dias: “As crises económicas sucessivas goraram as expectativas dos jovens, que só no estrangeiro estão a encontrar projetos de futuro para as suas vidas. São gerações de jovens que não foram bem tratadas no país e tiveram de procurar os caminhos da emigração, tal como outras gerações antes deles fizeram. Infelizmente, não se tem dado a devida atenção a este problema, que mostra a incapacidade de Portugal em reter a população ou em conseguir atraí-la de volta”.
É esta, também, a explicação para a sangria populacional de que alertava, há poucos dias, o Dr. Mário Freitas, em artigo publicado no “Diário dos Açores”.
Os Açores vão ter um problema muito sério se não souber reter os seus jovens.
O que vamos vendo por aí, ao nível do debate público, é deveras confrangedor.
Este tema nem fez parte da campanha eleitoral, entretidos que estiveram sobre quem mais conseguiria prometer projectos megalómanos em cada ilha e até pontes no ilhéu das Cabras!
Quando o pó assentou, ou seja, depois das eleições, é que acordaram.
Não é por acaso que José Manuel Bolieiro dedicou o seu discurso da apresentação do programa do governo aos jovens.
Fez uma boa intervenção, apresentou algumas medidas destinadas à juventude, mas o bloqueio em que se encontra o seu governo faz-nos pensar que vamos levar muitos anos até os político desta região compreenderem que a aposta no futuro dos Açores está nos jovens.
Sem eles não vamos a lado nenhum.
Já repararam que este governo tomou posse há mais de vinte dias e ainda nem nomeou os Directores Regionais?
Anda entretido a nomear os seus chefes de gabinete e assessores, motoristas e secretárias, a receber em Santana cantorias, a lançar concursos de poesia e a escrever comunicados sobre a Hora do Planeta, e aquilo que interessa aos cidadãos e aos jovens, já faz parte da via sacra que foi a campanha eleitoral.
Os políticos não têm emenda. Cá e lá.
Depois ficam espantados com a ascensão do Chega.
Não percebem que são eles, pela sua negligência e inacção, que dão força à revolta das populações.
Um dia destes vão acordar com os populistas no poder.
E o mais provável é que os jovens sejam os decisores da batalha eleitoral, como já começaram a ser nas últimas eleições.
Pode ser perturbador, mas os jovens estão fartos de tanto desprezo dos políticos pelos seus problemas.
Não admira que estejam fora das agendas e digam que “o futuro é assustador” e que “a humanidade está condenada”, segundo o estudo ”Young People’s Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: a Global Phenomenon” (Vozes dos Jovens sobre a Ansiedade Climática, Traição Governamental e Lesões Morais: Um Fenómeno Global) https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3918955
É só um aviso.

Osvaldo Cabral
[email protected]

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