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Palácio Bettencourt: pedra sobre pedra

O que pensam os partidos de direita sobre cultura? A ignorância nesta matéria torna-se cada vez mais trágica, principalmente numa altura em que o país conta com os seus destinos entregues a quem parece não saber o que significa tal palavra.
Sem cultura, não há identidade. Sem identidade, não há pensamento livre. Sem pensamento livre, não há futuro. E é esse o caminho que a Aliança Democrática vai traçando, lá como cá. Bolieiro já nos explicou o que considera valer a cultura.
Depois das comédias passadas, é com o bailinho da verba em orçamento, mesmo tentando misturar tudo com a educação e o desporto, que qualquer olhar mais atento percebe que para a cultura não vai nada, nada, nada.
Hoje é sobre património cultural que me importa escrever. Em pleno coração do Património Mundial, no centro classificado de Angra do Heroísmo, em lote adjacente à Sé Catedral, na Rua da Rosa, localiza-se o Palácio Bettencourt, imóvel de interesse público, centenário e com um valor patrimonial de destaque no que ainda resta da cidade pós-sismo de 80. As suas origens parecem estar meio perdidas na neblina dos séculos, mesmo que se saiba que no século XIX era já um edifício de destaque na paisagem urbana.
Este nobre edifício quejá teve vários usos, nomeadamente o de Biblioteca Pública e ArquivodeAngrado Heroísmo durante mais de sessenta anos,necessita de obrasna expectativa de que seja dignificado com uma utilização que todo o seu valor lhe permite.
Ao ler um artigo de Isabel Soares Albergaria, publicado a 1/5/24, no Açoriano Oriental, fica claro de que houve a intenção de que se desenvolvesse umprojeto de musealização desse palácio, adaptando-o a um programa de artes decorativas, projeto esse que chegou a ser formalizado em 2021 pelo Museu de Angra do Heroísmo. Alguém sabe da resposta a esse projeto?
O que soube foi que a sra. Secretária da Educação, Cultura e Desporto terá decidido que era ali que iria instalar a sua Secretaria Regional, avançando com obras no sentido de requalificar os espaços.
Empreitadas no centro de Angra, com grandes gruas e camiões debetão, já todas as pessoas se habituaram a ver. De vez em quando, para pequena vitória dos patrimonialistas, lá aparece uma que é devidamente acompanhada. Mas, segundo o que me fizeram chegar, não é este o caso. A obra na Rua da Rosa é promovida pela autoridade máxima da cultura regional, e, pelo que se apura por aí, não conta com fiscalização e proteção do seu património histórico ou arqueológico.
É, provavelmente, uma das maiores desgraças dos últimos anos. Até posso compreender que uma profissional da área da educação não perceba o crime que se pode cometer ao avançar com esses trabalhos sem o devido acompanhamento, mas nunca poderei compreender os motivos que levam a avançar, sem impunidade nem consulta dos técnicos verdadeiramente competentes que integram o quadro da direção regional.
No Pico, acaba de fechar uma parte do Museu do Vinho, por falta de condições. Na Horta, chove na Casa Manuel de Arriaga. Em São Miguel, sobrevive-se sem reservas e condições. Nas Flores, há muito que se aguarda verba para dar dignidade aos seus Museus. Em Santa Maria, um núcleo construído há pouco tempo prepara-se para ruir a qualquer instante. E tantos outros exemplos que ficam esquecidos para que se possam avançar com o Palácio Bettencourt. Demasiados, para o que se pede a quem trabalha na direção regional de Cultura.
Enquanto avançam as obras no Palácio Bettencourt, e os colegas vão sobrevivendo com baldes de água e esfregonas, a Secretaria nem se digna a salvar o que resta daquele património. Da Divisão de Serviços do Património não se conhece pronúncia oficial. Por este andar, da cultura, qualquer dia, só restarão vaidades e fachadas.

Alexandra Manes

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