Durante largos anos, os Açores foram esquecidos das rotas marítimas comerciais no Atlântico Norte, por onde, nos idos anos 50, faziam escala da Europa para a América do Norte os transatlânticos de passageiros ‘Leonardo da Vinci’, que substituiu o ‘Andrea Doria’ e ‘Cristóvão Colombo’. Ainda me recordo de os ver passar pelo canal Pico – São Jorge, procedentes de Itália, em direção aos Estados Unidos. A sua imponência transportava-me ao sonho americano, onde minha mãe viveu a sua infância e juventude e de onde regressou com a família, nos anos 30, a bordo do paquete ‘SINAIA’ da ‘Fabre Line’.
De criança, retenho imagens vivas das viagens e das paragens dos paquetes da ‘Insulana’ por Ponta Delgada e por Angra. Nos dias ‘de são vapor’ a doca animava-se, com o movimento de táxis, de pessoas, de bagageiros que não tinham mãos a medir para transportar malas e de vendedores ambulantes (alguns falavam inglês) com bancas montadas junto à escada de serviço, a venderem postais turísticos, artesanato e ananases.
Os tempos hoje são outros. Os Açores entraram nas escalas do turismo de cruzeiro. De ano para ano, aumenta o número de pedidos para escalar São Miguel, presentemente, o porto com maior procura de navios de grande porte. Em menor escala e neste segmento de transporte estão as ilhas do Faial e Terceira. As restantes continuam a receber navios de menor calado e dimensão com visitantes mais interessados noutros segmentos específicos, relacionados com o turismo ambiental e de natureza e com a exploração do oceano.
Prestes a findar o ano, os transatlânticos rumam a outras paragens. Os destinos mais procurados são as Caraíbas, as Ilhas Canárias, o Médio Oriente (Dubai, Abu Dhabi) e o Norte da Europa que oferece mercados de Natal. É a fuga às baixas temperaturas do norte e a procura pelos climas mais quentes de sol e praia.
Mesmo assim, em Ponta Delgada estão previstos mais dois cruzeiros nos primeiros dias de dezembro, transportando mais de 3.600 passageiros, incluindo tripulantes.
Já existem estimativas do movimento marítimo no porto de Ponta Delgada para 2026.
No dia 4 de fevereiro, Ponta Delgada será visitada por cerca de 3 mil visitantes.
Em março, ao terminar o verão caribiano e no início da primavera europeia, os cruzeiros atravessam o Atlântico Norte, tendo como destino a Europa, com paragens muito impressivas nos Açores.
Segundo a ‘Portos dos Açores’, nesse mês está prevista a escala de navios, com cerca 27 mil passageiros e de 11 mil tripulantes, num total de 38 mil pessoas. Em abril, durante quase todos os dias, farão escala em Ponta Delgada, 32 navios de cruzeiros, transportando cerca de 75 mil visitantes (52 mil passageiros e 22 mil tripulantes, aproximadamente). Só no dia 19, aguarda-se a vinda de quatro grandes paquetes, o que não sendo caso único, reafirma a crescente procura por São Miguel e a considerável expansão deste segmento turístico.
Em maio regista-se uma quebra acentuada do número de navios e de visitantes (cerca de 25 mil contando com tripulantes). Só em Outubro e Novembro os trajetos marítimos rumarão a ocidente, retomando-se os circuitos usuais.
Se a este número de visitantes juntarmos os que rumam ao arquipélago via aérea, permanecendo em média pelo menos 3 dias, somos levados a concluir que um salto enorme foi dado nos últimos anos num setor económico de grande exigência na competência profissional e de enorme importância social e salarial.
Não se pode avaliar o turismo apenas pela sua componente infraestrutural: alojamentos, unidades hoteleiras, restauração, transportes e mobilidade e serviços conexos.
As componentes da preservação ambiental e natural devem ser tidas em conta, associadas à divulgação da nossa identidade social e cultural.
2026 será o ano em que Ponta Delgada será a Capital Nacional da Cultura Portuguesa. Quer isto dizer que todos os eventos e iniciativas que sejam tomadas devem traduzir a cultura das diversas regiões do país, mormente a nossa cultura e identidade insulares – a AÇORIANIDADE – a nossa forma de ser e de viver Portugal aqui.
Cabe aos organizadores envolver os agentes sociais e culturais nesse processo com vista a dinamizar e divulgar o melhor que somos e temos junto de quem nos visita.
Ponta Delgada, em 2026, tem de ser um espaço de Portas Abertas ao Mar e a quem nos visita, num intercâmbio saudável, aberto a outras e novas culturas que outras gentes nos trazem ao passarem por aqui.
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
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