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Saúde (do) Pública(o) (48)

E o leitor, já fez a vacina anti-gripe?

O tema da semana: um Inverno difícil

Na última semana, o sector da saúde nos EUA destacou-se pela urgência do Congresso em resolver o expirar dos subsídios ao “Affordable Care Act” (ACA), a 31 de Dezembro, que poderá fazer disparar os prémios de seguro a milhões de americanos, e agravar as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde. O Congresso iniciou uma “corrida de Dezembro” para conseguir apoios, com propostas bipartidárias em discussão, enquanto o presidente Trump expressou a sua preferência por reformas que priorizem as contas-poupança individuais, como expliquei na semana passada.
Paralelamente, o “Centers for Medicare & Medicaid Services” (CMS) anunciou o modelo ACCESS, para acesso a cuidados crónicos, e expandiu os programas de reabilitação, em Estados como o Texas e a Califórnia. Os alertas sobre a gripe aviária e sobre vacinas contra a Covid-19 geraram debates acesos sobre a segurança das vacinas.
Na minha opinião, toda esta pressão política revela fragilidades no sistema americano: sem a extensão rápida dos subsídios corremos o risco de uma crise de acessibilidade, que afectará os mais vulneráveis.
Na Europa, o início “incomummente precoce” da época gripal, devido à estirpe H3N2 subclade K, com casos a surgir 3 a 4 semanas mais cedo do que nos anos anteriores, levou o ECDC a recomendar a vacinação imediata aos grupos de risco. O painel ERVISS monitoriza a vigilância de vírus respiratórios, incluindo a gripe, o VRS e o SARS-CoV-2, e alertou para uma estação potencialmente mais severa, se a taxa de cobertura vacinal for baixa. A União Europeia lançou um plano de prevenção e resposta a crises transfronteiriças, oferecendo ferramentas para a coordenação, no caso de ameaças naturais ou intencionais, como sejam surtos ou biodefesa. Por outro lado, as ondas de gripe aviária em aves selvagens e explorações avícolas também têm levantado preocupações.
Estas medidas europeias representam um passo positivo, mas é imperativo acelerar a distribuição das vacinas, e fomentar a literacia em saúde pública, evitando que a desinformação complique quaisquer respostas colectivas.
Portugal entrou oficialmente na fase epidémica da gripe, com a taxa de incidência de infecções respiratórias graves a atingir 10,5 casos por 100 mil habitantes, na semana de 24 de Novembro, e um aumento acentuado dos internamentos e casos confirmados. O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge alertou para uma tendência crescente, agravada por temperaturas extremas, recordando os 1609 óbitos em excesso registados na época da gripe anterior, especialmente em mulheres e maiores de 85 anos. No “Serviço Nacional de Saúde” (SNS) o Governo limitou as contratações a 1,9% em 2025, revendo as metas em baixa, enquanto se definiram serviços mínimos para a greve geral de 11 de Dezembro, equiparados a fins de semana e feriados, garantindo urgências e oncologia. A conferência “Saúde que Conta 2025”, agendada para 10 de Dezembro, antecipou os dados sobre a obesidade, que atinge 14% da população.
Estes alertas expõem a fragilidade do SNS: cortes nos recursos humanos ameaçam a capacidade de resposta, exigindo investimentos urgentes para equilibrar eficiência e humanismo nos cuidados de saúde.
Nos Açores as unidades de saúde preparam-se para o pico sazonal. O Governo Regional já autorizou a aquisição de serviços médicos para as urgências em São Miguel, assegurando o funcionamento das Unidades Básicas de Urgência. Falta uma parte da população fazer a sua parte: quem tem indicação para fazer a vacina anti-gripe deve ir ao seu Centro de Saúde fazê-la. Antes de perguntarmos o que o Serviço Regional de Saúde faz por nós, na época gripal, perguntemos o que fizemos nós mesmos, por nós, antes da época gripal começar.

A homenagem da semana: gente que marca a Saúde Pública

No âmbito da saúde pública, o último trimestre de 2025 ficou marcado pelo reconhecimento a profissionais que demonstraram dedicação exemplar ao avanço do bem-estar colectivo. Como habitualmente, vou destacar dois.
Alister Martin, médico e fundador da organização “A Healthier Democracy”, destaca-se pelos seus contributos inovadores no cruzamento entre a saúde pública e o envolvimento cívico. Em Outubro de 2025 foi agraciado com o Prémio de Excelência da “American Public Health Association” (APHA), que reconheceu o seu trabalho, em ambientes dos cuidados de saúde, na promoção da participação democrática, incluindo a iniciativa Vot-ER, que mobilizou mais de 50000 profissionais de saúde, a fim de registar doentes, em clínicas e hospitais, como eleitores. Adicionalmente, durante a pandemia aplicou estratégias para melhorar o acesso equitativo às vacinas. Estas acções reforçaram a equidade em saúde pública, abordando os determinantes sociais. Merece a minha homenagem pelo seu papel transformador, demonstrando como a inovação pode integrar saúde e democracia, a fim de beneficiar as populações vulneráveis, neste caso nos Estados Unidos.
Mary Morrell, professora no “Imperial College London”, é uma destacada líder da saúde pública europeia. Em Setembro de 2025, recebeu o Prémio Presidencial da “European Respiratory Society” (ERS), anunciado antes do congresso anual, em reconhecimento pelos seus contributos extraordinários no fortalecimento da medicina respiratória, ao nível global, com destaque para os distúrbios do sono e fisiologia pulmonar. O seu trabalho inclui avanços na investigação sobre a apneia do sono e ventilação, e influenciou normas clínicas que melhoram os cuidados a pacientes de toda a Europa.
Dois bons exemplos.

Mário Freitas*

* Médico de Saúde Pública e de Medicina do Trabalho

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