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O Livro da América

Aconteceu no vigésimo quarto ano do século XXI. Uma América, cansada de promessas, votou, uma vez mais, com a alma partida. E venceu o homem das trombetas e das torres, das ornamentações e da opulência, com quarenta e nove vírgula oito por cento da crença, contra quarenta e oito vírgula três por cento da esperança desfeita. E assim a vitória foi mínima, mas o grito, desmedido. O homem ergueu-se sobre os ecrãs e declarou: “Esta é a mais épica das vitórias, nenhuma nação jamais viu algo semelhante!” O povo, dividido, respondeu em ecos — uns com júbilo, outros com silêncio, outros ainda com a amarga certeza de que a verdade se tornara um espetáculo. E o Líder acrescentou: “Tenho um mandato claro e inequívoco.” E o verbo fez-se carne nas suas mãos, e a Constituição dobrou-se como folha ao vento. E o país, que se dizia livre, passou a respirar ao ritmo do capricho, como se o voto fosse selo de eternidade, e não o breve sopro de um instante humano.
E começaram os dias da exaltação. Nas praças e nas televisões repetiam o milagre: a vitória, o mandato, a redenção do povo esquecido. O povo não se reconhecia. As cidades ardiam em metáforas, e as palavras, cansadas de tanto uso, perdiam o sabor do sentido. Os que tinham lutado pelo direito de votar viam-se agora estrangeiros dentro da sua própria nação. Os soldados desciam às ruas como se a ordem fosse virtude e o medo, cidadania. Muitos dos justos calaram-se, ou falaram apenas nas suas tertúlias fechadas, porque o medo também tem voz e fala em nome da prudência. O partido dos vencidos recuou, dobrando os seus ideais como quem dobra uma bandeira no fim de um funeral. Disseram: “Falemos de saúde, falemos de preços, falemos do pão. Mas não falemos da vergonha, nem da violência, nem da alma.”
E o governante falou ainda outra vez, e disse: “Mandarei soldados às cidades, para que aprendam a ser fortes.” E as praças tornaram-se trincheiras, e os becos, territórios de treino. As mães fecharam as janelas, e os filhos aprenderam o silêncio. O país, que nascera da rebelião, ajoelhou-se diante da obediência. Os democratas, cansados, discutirem nos templos da opinião: “Como reconquistar corações?” Mas os corações não se reconquistam com estudos de mercado, nem com anúncios pagos, nem com think tanks que não pensam o sofrimento. E muitos disseram: “O povo é conservador, o povo quer disciplina.” Mas esqueceram-se de que o povo quer pão, quer respeito, quer esperança. E confundiram o medo com fé.
Os homens do poder olharam-se em espelhos de vidro polido, onde cada reflexo dizia o que queriam ouvir. E chamaram a isto: democracia. A América, cansada de discursos, voltou-se para os seus fantasmas. O Abraham Lincoln dos mármores moveu-se, ligeiramente, como se tentasse falar e não pudesse. E Frederick Douglass ergueu-se da estátua, com o rosto voltado para a Casa Branca, e disse: “Medi-o pelo seu povo, e ele foi rápido; medi-o pelos anjos, e ele foi tardio. Mas ainda assim foi homem de princípio.” E o vento repetiu-lhe as palavras sobre os telhados de Washington. Foram poucos os que ouviram. Porque os políticos, hoje, já não procuram princípios, bem pelo contrário, procuram percentagens. Já não falam ao povo, mas aos algoritmos. E a verdade tornou-se uma linha no gráfico da semana.
E os jornais anunciaram sondagens, e disseram: “O governante é impopular, o povo está descontente.” E ninguém se alegrou, porque já não havia contentamento, só fadiga. E os números dançavam como profetas bêbedos — 49.8, 48.3, 312, 226 — e em cada número, uma ferida. E cada ferida é um lar dividido, uma amizade perdida, um altar destruído no coração da república. Os condados tingiram-se de vermelho, mas o sangue era o mesmo. As igrejas rezavam por paz, mas as preces subiam entrelaçadas à fumaça das fábricas e ao desespero dos esquecidos. E disseram os sábios: “A América não é vermelha nem azul — é cinzenta, cansada, desconfiada.” E todos vimos o cinzento espalhar-se como névoa sobre o mapa, cobrindo os estados, apagando as fronteiras, como se o próprio país quisesse dormir um século inteiro para esquecer-se de quem e o que era.
Porém, ainda restam vozes, aquelas que não se calam mesmo na tempestade. Há quem leia a Declaração de Independência como quem reza de olhos abertos, sabendo que Deus não mora no papel, mas na coragem de quem o lê. Há quem ainda creia na república, não como bandeira ou T-Shirt ou chapéu, mas como rosto humano. Há quem veja nos livros o último refúgio, nas escolas o último altar, e nas palavras — essas pobres sobreviventes — a última trincheira contra o esquecimento. E a esses, digo: não desistam da linguagem. Porque quando a palavra morre, a liberdade apodrece no mesmo dia.
No crepúsculo da república, quando as luzes do Capitólio tremem como velas cansadas, ouve-se o rumor distante de uma promessa antiga. Não a de Trump, nem a de Harris, nem de nenhum profeta de ocasião, mas a do primeiro ideal — aquela centelha que dizia: “Todos os homens (e mulheres) são criados iguais.” E ainda que o tempo tenha corroído o bronze, a frase resiste, gravada não na pedra, mas na memória dos que ainda sonham. E eu vi, e todos vimos— o país como um livro aberto sobre o deserto, cada página uma geração, cada rasgão uma guerra, cada linha um grito que pede sentido. E o vento, que já foi testemunha da fundação e da queda, sopra de novo sobre os campos, e murmura: “Não há vitória sem princípio. Não há república sem alma. Não há América sem arrependimento.” E escrevo estas palavras sobre o pó, porque sei que o pó é o único arquivo que nunca mente.
Diniz Borges

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