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Tio Alberto e a Mota Vermelha

Há imagens que ficam connosco para sempre, mesmo quando tudo o que as rodeava já desapareceu. A minha, guardada com um carinho que o tempo não conseguiu desbotar, tem lugar marcado à porta da EBI Francisco Ornelas da Câmara. Era ali que o Tio Alberto, figura incontornável da nossa adolescência, montava diariamente o seu pequeno império de ternura, engenho e fritos irresistíveis.
O Tio Alberto era já um homem de idade, desses que o tempo vai dobrando mas nunca quebra. Chegava todos os dias à escola na sua mota vermelha de três rodas, transformada pelas suas próprias mãos numa pequena banca ambulante. Inventou uma cobertura improvisada para a trela da mota e, mesmo sem sabermos, estava ali a primeira grande lição de criatividade aplicada ao quotidiano. Para nós, alunos apressados e esfomeados, aquele engenho era apenas o portal para um mundo de sabores simples, mas que alegravam qualquer manhã cinzenta. Ele e o filho Henrique passavam as noites a fritar as famosas batatas, embaladas em pequenos sacos transparentes que amanheciam prontos, empilhados com orgulho na traseira da mota. As “batatas dos toiros” eram mais do que um lanche. Eram um pequeno ritual, um gesto de felicidade que custava apenas 50 escudos. Ao lado delas havia pipocas doces e salgadas, chocolates, chupa-chupas e as tentadoras pastilhas a 5 escudos, proibidíssimas dentro das salas mas consumidas com a adrenalina própria da idade.
O negócio fazia-se através das grades de ferro que limitavam o perímetro escolar. Hoje, seria certamente impossível. Entre regras sanitárias modernas, inspeções económicas e legislações rigorosas, a magia artesanal e inocente do Tio Alberto dificilmente encontraria lugar. Mas, na altura, bastava-lhe estar lá e estar sempre. Fizesse vento ou chuva, lá estava ele. Nunca falhava. E nós também não: corríamos nos escassos minutos do intervalo para garantir o nosso pacote de batatas ou um chocolatinho que, por instantes, parecia resolver todos os problemas da vida de estudante.
Para os mais sortudos, os que tinham autorização para sair, havia ainda outro destino possível: as míticas baguetes de atum do Palheiro. Outro capítulo de um tempo em que a simplicidade alimentava mais do que o corpo, alimentava o espírito.
Os anos passaram. O Tio Alberto já partiu, o seu filho Henrique emigrou, o Palheiro fechou portas e nós seguimos para a “Escola Nova”, a ES Vitorino Nemésio. Tudo mudou e, de certa forma, é assim que deve ser. O progresso chega, as realidades ajustam-se, as normas apertam. Hoje dir-nos-ão que tudo está melhor. Talvez esteja, mas isso nunca apagará o encanto daqueles dias em que a felicidade cabia num saco de batatas vendidas através de umas grades.
O que fica, afinal, são as memórias. E que belas memórias. Ficam também as saudades daquela mota vermelha, daquele sorriso sempre disponível e daquele cheirinho a batatas fritas que parecia abraçar-nos à saída de cada aula. Fica, sobretudo, a vontade impossível de reencontrar um sabor que não era apenas gastronómico mas emocional. Porque, no fundo, o Tio Alberto não vendia apenas batatas. Vendia instantes de alegria, vendia normalidade, vendia aquela sensação tão rara de que o dia só estava completo depois de ali passarmos.
E é por isso que a sua imagem permanece, marcante e viva, muito depois de tudo à sua volta ter desaparecido. Algumas pessoas passam. Outras ficam. O Tio Alberto ficou.
Carlos Pinheiro

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