Embora a caça ao Pombo-das-rochas na ilha de São Miguel continue aberta até 26 de fevereiro de 2026 e a caça do Coelho bravo neste próximo mês de Janeiro de 2026 também continue aberta em São Miguel e pelo processo de Corricão, isto é, só com os cães de caça e sem arma, julgo que já se pode antecipar um balanço da época cinegética de 2025-2026 em São Miguel e mesmo nos Açores.
A caça só faz sentido se for acompanhada por uma forte componente social, seja vivida com um saudável relacionamento com os animais, o que envolve respeito pelos cães de caça e pelas espécies cinegéticas, uma cooperação com o sector agrícola no controlo da dinâmica populacional das espécies cinegéticas, que a caça seja efectivamente aproveitada na gastronomia e finalmente que o exercício da caça não ponha em causa a sustentabilidade das espécies em causa. Naturalmente, que nos dias de hoje com as doenças e os vírus que cada vez mais afectam os animais a investigação e a ciência ocupam ou deviam ocupar um lugar central na monitorização da caça e fixação dos calendários venatórios, esta exigência é prioritária no acompanhamento da caça nos Açores e no mundo para salvaguardar a sua sustentabilidade.
Mas regressando à avaliação da época cinegética de 2025-2026, por espécies, e começando pelo Coelho bravo, que é a espécie cinegética que mobiliza mais caçadores nos Açores, pode-se concluir que no caso da ilha de São Miguel ela decorreu com razoáveis a boas capturas, porque efetivamente em algumas zonas da ilha esta espécie recuperou bem da Hemorrágica e desenvolveu-se com razoáveis colónias de coelhos bravos, ao contrário de ilhas como Santa Maria, Terceira, e Pico, só para citar algumas, onde esta recuperação dos surtos Hemorrágicos tem sido muito lenta, logo muito difícil. Em síntese, tivemos uma boa época cinegética ao Coelho bravo na ilha de São Miguel. Em relação a esta espécie a cooperação com o setor agrícola neste defeso deve ser real e com uma intervenção atenta e fundamentada por parte dos Serviços Oficiais da Caça, o pior que pode acontecer nos Açores ao coelho bravo são novos surtos de febre Hemorrágica.
No que se refere ao Pombo-das-rochas, a espécie do calendário venatório mais abundante nas 8 ilhas onde se pode caçar nos Açores, continua com boas densidades, e manifestamente não é uma espécie cinegética que mobilize muitos caçadores nas diversas ilhas, uma das explicações para esta situação, quero crer que se prende com o desconhecimento do elevado potencial gastronómico que o Pombo-das-rochas representa.
No que se refere à Codorniz brava o seu efetivo na maioria das ilhas é reduzido, e sobretudo se comparado com o existente no período do ciclo económico do trigo. O período de caça e o número de exemplares desta espécie permitidas cobrar é muito reduzido nos Açores, com excepção nas ilhas Graciosa e Terceira, principalmente no que se refere ao período de caça, e justifica-se, para não se por em causa a sustentabilidade desta espécie cinegética, embora fosse aconselhável no caso de São Miguel aumentar os quatro domingos atualmente permitidos para seis e reduzindo as 5 codornizes atuais para 4 ou mesmo 3 codornizes o número permitido de abates por dia de caça, já que quero crer que nos dias de hoje ninguém caça à codorniz para fazer números, mas porque outros valores se levantam, como os da cinofilia e do relacionamento com a natureza. São cada vez menos os caçadores em São Miguel que tem cães de parar para poderem caçar apenas quatro domingos por ano. Em síntese, caça a esta espécie, sim, mas em primeiro lugar colocar a sustentabilidade da nossa Codorniz brava, a Coturnix coturnix conturbans, que presentemente enfrenta os seus maiores perigos e desafios na mudança da agricultura e nas tecnologias utilizadas e não nos caçadores.
A outra espécie nobre que se pode caçar em algumas ilhas dos Açores é a nossa Galinhola, a Scolopax rusticola, no meu caso que presentemente só a caço na Montanha do Pico, é minha opinião fundamentada, que este ano esta espécie reduziu o seu Stock, as causas são várias, compete aos Serviços Oficiais da Caça e aos próprios Caçadores encontrarem as melhores soluções para preservarem este autêntico tesouro da Venatória e dos Açores, com a agravante de que esta espécie é na sua maioria esmagadora residente nos Açores, isto é, não benificia da arribação, o que aumenta a nossa responsabilidade na sua gestão.
Finalmente, as aves de arribação que nos visitam todos os anos e que são os Patos e as Narcejas, é minha convicção que foi um ano fraco e cada vez mais restrito pelas espécies que são permitidas caçar, reduzido prazo em que se pode caçar e pelo número de caçadores que envolve. Uma situação a merecer estudo fundamentado.
Gualter Furtado