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Memória Curta, Poder LongoVenezuela, intervenção e o cansaço moral do mundo

“A guerra de Donald Trump é profundamente impopular. Quase 70%
dos norte-americanos declaram-se contra um ataque à Venezuela. Ainda assim,
a normalização do abuso de poder avança quando a indignação se dispersa
e o cansaço moral se instala.”

Há um gesto antigo na política externa dos Estados Unidos que regressa sempre que a paciência se esgota e o poder se sente absoluto: a mão no coldre, a pressa da decisão, a convicção de que a História se corrige à força. A investida da administração Trump contra a Venezuela — unilateral, coerciva, desdenhosa do direito internacional — não nasce do nada. Inscreve-se numa gramática recorrente de intervenção, tão repetida que já não nos fere o ouvido. O que mudou não foi o impulso, mas a encenação: a transformação da política externa num espetáculo de força, como se o mundo fosse um Velho Oeste e Washington o seu xerife solitário.
O direito internacional existe para travar precisamente este reflexo. A soberania não é uma concessão aos obedientes; é o ponto de partida de uma ordem partilhada. Ameaçar mudanças de regime, reconhecer governos por decreto, asfixiar populações inteiras com sanções enquanto se invoca a liberdade como álibi — isto não são apenas opções políticas. São erosões de um consenso frágil: o de que o poder responde a regras. Quando a maior potência decide que as regras são opcionais, a mensagem propaga-se com rapidez: à Rússia, à China, à Coreia do Norte e, talvez mais corrosivamente, aos aliados que dependem de normas, não de músculos. Se o forte pode dispensar a lei, por que razão os outros a respeitariam?
Antes de nos refugiarmos na indignação seletiva, a memória deve fazer o seu trabalho. Já estivemos aqui. Várias vezes nas últimas quatro décadas. Em 1983, sob Ronald Reagan, os Estados Unidos invadiram Grenada, uma pequena ilha das Caraíbas. As justificações — proteger estudantes, travar o comunismo — foram apresentadas com urgência moral. A lição foi clara: proximidade e ideologia bastavam para legitimar a força. Em 1989, com George H. W. Bush, o Panamá foi invadido para capturar Manuel Noriega, outrora aliado, que se tornou inimigo quando deixou de servir. A “guerra às drogas” não terminou com Noriega; o que terminou foi a ilusão de que alianças de conveniência resistem quando os interesses divergem.
Depois veio a longa sombra de George W. Bush. O Afeganistão foi apresentado como necessidade após o 11 de Setembro; o Iraque, como preempção. Teria sido possível desmantelar a al-Qaeda sem destruir um país? O Iraque foi realmente sobre armas e democracia — ou o petróleo, velho acelerador de guerras, nunca esteve longe do fósforo? Os custos são hoje factos históricos: centenas de milhares de mortos, regiões desestabilizadas, gerações marcadas pelo trauma e uma credibilidade internacional ferida. Não estamos manifestamente mais seguros. Estamos, isso sim, mais gastos.
É esta memória curta que faz o caso venezuelano parecer “novo”. Não é novo. O que é novo é a arrogância performativa. Presidentes anteriores, com todas as suas culpas e todos os seus pecados, envolviam a força numa linguagem de gravidade: relutância, justificações (por vezes absurdas), necessidade trágica. O presidente Donald Trump substituiu a sobriedade pelo espetáculo. O poder tornou-se jogo; a vitória, jactância. “Tirámos o mau da fita.” “Agora governamos com quem quisermos.” A linguagem importa porque revela o propósito: não a estabilidade, nem a lei, mas a dominação. Nesse sentido, a Venezuela funciona como palco para impulsos que falharam internamente — uma exteriorização do desprezo por instituições e regras que ficou patente em 6 de janeiro de 2021. O que não se conseguiu tomar em Washington, D.C., ensaia-se fora.
Há, porém, um elemento ainda mais inquietante neste momento: a forma como tudo passa a ser tratado como inevitável. Os meios de comunicação falam já do ataque à Venezuela e do sequestro e da extradição do presidente Nicolás Maduro como um fait accompli, como se nada pudesse ser feito além de assistir ao desenrolar do processo e da intriga. A História, outra vez, convertida em espetáculo; nós, outra vez, reduzidos à plateia.
Mas a realidade é mais sombria. A retórica e os gestos da Casa Branca deixam claro que Trump e o seu círculo se comportam como se já governassem a Venezuela. O aparelho militar norte-americano permanece em alerta máximo, preparado para escalar a violência caso o país não se abra, sem reservas, ao capital dos Estados Unidos. A linguagem é brutal na sua franqueza: cumprir ou sofrer. Isto significa que o conflito está longe de terminado. A História recente ensina que nenhuma guerra fica confinada ao seu ponto de origem. O Afeganistão alastrou-se ao Iraque, contaminou o Irão e reverberou na Líbia. Da mesma forma, a agressão à Venezuela pode tornar-se o epicentro de um novo ciclo de instabilidade — não apenas na América Latina, mas num mundo já saturado de fraturas e ressentimentos.
A guerra de Donald Trump é profundamente impopular. Quase 70% dos norte-americanos declaram-se contra um ataque à Venezuela. Ainda assim, a normalização do abuso de poder avança quando a indignação se dispersa e o cansaço moral se instala. O perigo maior não é apenas a violência imediata, mas também a aceitação gradual da ideia de que tudo é permitido a quem detém força suficiente.
A imprudência não se fica na Venezuela. Ameaças ao México, país soberano e vizinho com mais de 100 milhões de habitantes; pressões sobre a Colômbia, parceira histórica; devaneios sobre a Gronelândia; agressividade contra o Canadá; fantasias de mudança de regime no Irão. Cada episódio é um verso do mesmo cântico. Cuidado com o que se deseja. Mudanças de regime raramente são instrumentos cirúrgicos: quebram mais do que constroem e deixam um resíduo de ressentimento que sobrevive às administrações.
Há, contudo, outra tradição — mais antiga, mais silenciosa e muito mais exigente — que afirma que os interesses dos Estados Unidos podem ser alcançados pela paz, por acordos e pela partilha da prosperidade. A segurança não nasce apenas de bases e bombas; nasce da dignidade, do desenvolvimento, da lenta arquitetura da confiança. O dinheiro consumido pela guerra poderia ser investido em energias alternativas, na resiliência climática e na saúde pública — políticas que reduzem conflitos em vez de os rentabilizarem. O petróleo inclinou, durante décadas, a política para a violência; o futuro exige que soltemos esse aperto, não que o reforcemos.
Mas a política não é apenas obra de presidentes. É também o espelho que a sociedade aceita. Onde estão os escritores, os artistas, os poetas, os músicos, os humanistas? Onde está a academia? Onde está a pessoa comum — como eu, como os meus amigos e vizinhos — quando o bullying se torna política de Estado e o silêncio vira hábito? Seguimos a vida como se nada estivesse a acontecer, como se a soberania fosse um anacronismo, como se dinheiro e poder absolvessem tudo?
Liderar pelo exemplo não é ingenuidade; é estratégia com alma. Afirma que a lei conta mesmo quando incomoda, que a contenção não é fraqueza, que a prosperidade partilhada multiplica a segurança. O mundo não é o Velho Oeste, e os Estados Unidos não são um pistoleiro solitário. Estamos — moralmente, legalmente e historicamente — vinculados a algo melhor.
A pergunta final permanece, incómoda e inevitável: quando este momento for lembrado, que posição diremos ter ocupado? A dos que assistiram em silêncio — ou a dos que disseram não?

Diniz Borges

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