“Há, no entanto, líderes políticos que, levados por ideais nacionalistas, expansionistas, populistas, xenófobos, recuperam regimes políticos da conhecida cartilha autocrática e anti-democrática, convencem multidões pouco instruídas e acreditam que tais profetas lhes darão o céu…”
Pela primeira vez na minha vida profissional sinto que o direito fundamental e constitucional à liberdade de expressão pode ser posto em causa por simpatizantes e militantes de doutrinas xenófobas e populistas ao optarem pelo candidato da extrema direita na eleição presidencial.
1. O exemplo que vem dos EUA é mais do que suficiente para temer o líder populista do CHEGA, que se considera “enviado por Deus” para salvar o país, mas discrimina os migrantes e as minorias étnicas, defende a pena de morte, advoga um nacionalismo hitleriano, a subversão das instituições, três Salazares, o fim do Estado Social, etc. Se tal acontecesse estariam em causa valores fundamentais que ofendem a dignidade da pessoa humana e, para quem diz professar a Fé cristã, o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja.
Numa recente entrevista à agência LUSA, o Patriarca de Lisboa afirmou que o aumento dos estrangeiros em Portugal não coloca em causa a matriz cristã da sociedade portuguesa e criticou os católicos que são contra os imigrantes, por desrespeitarem os ensinamentos de Cristo e da Igreja que propõem o amor, a concórdia, a solidariedade e a paz.
Perante o crescimento de líderes e partidos populistas e xenófobos, vários responsáveis eclesiásticos vêm tomando posições públicas muito firmes.
Em fevereiro do ano passado, o episcopado alemão, face ao crescimento do nacionalismo étnico e do extremismo de direita no país, afirmou que os “Partidos extremistas de direita e aqueles que proliferam à margem dessa ideologia não podem ser um espaço de atividade política para os cristãos e não [devem ser] eleitos por eles”. Os Bispos da Alemanha declararam também que as propostas de expulsão de milhões de imigrantes do país defendida pelo partido de extrema-direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD), que viria a vencer as eleições na antiga RDA, eram “incompatíveis com a imagem cristã de Deus e da humanidade”.1
Mais recentemente, nos EUA, agentes federais da polícia de emigração (ICE) tem desencadeado ataques indiscriminados a imigrantes, que levaram à deportação de 600 mil pessoas e provocaram a morte de uma norte-americana. Este incidente resultou de um ambiente persecutório, denunciado por responsáveis de várias igrejas cristãs que vêm tomando a defesa dos seus fiéis.
2. Os Bispos da Igreja Episcopal norte-americana, por exemplo, perante o agravamento do clima social, tomaram uma posição muito corajosa: “não bastam as palavras; chegou a hora do testemunho na ação (…) e isso pode implicar dar a própria vida”. Robert Hirschfeld, de New Hampshire, entrevistado por uma televisão local explicou o que solicitara ao seu clero: “Pedi-lhes que colocassem os seus assuntos em ordem e se certificassem de que tinham os seus testamentos escritos, porque pode ser que agora já não seja o momento para declarações, mas sim para nós, com os nossos corpos, ficarmos entre os poderes deste mundo e os mais vulneráveis”.
Os propósitos de Donald Trump de invadir e anexar países soberanos, ameaçando a paz e a convivência entre nações, contrariando tratados internacionais e acordos de paz conseguidos pela diplomacia ao longo das últimas décadas, causam instabilidade e geram insegurança e preocupações ao cidadão comum.
Ao contrário do que é hábito acontecer, três destacadas figuras da Igreja católica norte-americana emitiram uma declaração conjunta contestando a política externa dos EUA.
O cardeal Cupich, da Arquidiocese de Chicago, uma das maiores dos Estados Unidos, com cerca de dois milhões de católicos; o cardeal McElroy, da Arquidiocese de Washington, com mais de 600 mil fiéis na capital federal e em Maryland; e o cardeal Tobin, arcebispo de Newark, responsável por uma comunidade de cerca de 1,3 milhão de católicos no norte de Nova Jersey, à luz dos princípios expressos pelo Papa Leão XIV no discurso proferido em 9 de janeiro passado ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé criticaram a diplomacia de Trump referindo que “uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todas as partes é substituída por uma diplomacia baseada na força, por parte de indivíduos ou grupos de aliados”. E acrescentaram: “A guerra voltou a estar na moda e o zelo belicista está-se difundindo”; “a paz é buscada por meio das armas como condição para afirmar o próprio domínio”. Cupich, McElroy e Tobin pelo contrário defenderam “a instauração de uma política externa genuinamente moral para a nossa nação.” E acrescentam: “Renunciemos à guerra como instrumento para interesses nacionais míopes e proclamemos que a ação militar deve ser vista apenas como último recurso em situações extremas, e não como instrumento normal da política nacional. Busquemos uma política externa que respeite e promova o direito à vida humana, à liberdade religiosa e ao aprimoramento da dignidade humana em todo o mundo, especialmente por meio da assistência económica.” 2
3. Há, no entanto, líderes políticos que, levados por ideais nacionalistas, expansionistas, populistas, xenófobos, recuperam regimes políticos da conhecida cartilha autocrática e anti-democrática, convencem multidões pouco instruídas e acreditam que tais profetas lhes darão o céu… Atraem desse modo o povo simples e crédulo, não para servi-lo, mas para se instalarem e perpetuarem no poder. Transformam-se em tiranos autoritários e retiram ao povo: direitos, liberdades e garantias, para agirem como bem entendem.
É esse o grande perigo que Portugal corre e que já viveu durante décadas, se acreditar que a comissão de honra do candidato da extrema-direita é o povo.
“Quem te avisa…”
1 https://setemargens.com/
2 Www.vaticanonews.va
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com