Vivemos num tempo de correrias. O relógio anda sempre mais depressa do que nós e as rotinas do dia a dia acabam por nos empurrar para um modo quase automático de viver. A maioria das vezes, não conseguimos ver, e muito menos apreciar, o que de bom temos mesmo à nossa volta.
A paisagem natural faz parte das nossas rotas diárias, no caminho para o trabalho, no regresso a casa, numa deslocação qualquer que repetimos vezes sem conta. Mas, tal como acontece comigo, acredito que também muitos de vós tropeçam, de vez em quando, em histórias ou publicações nas redes sociais sobre um nascer ou um pôr do sol. Há locais onde esses momentos são tão especiais que se transformaram, eles próprios, em pontos turísticos obrigatórios.
Um bom exemplo é o pôr do sol do Jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia. Para quem nunca teve oportunidade de o presenciar, posso dizer que é, de facto, um momento único. Não apenas pelas imagens dos raios de sol a esconderem-se por detrás dos edifícios de Vila Nova de Gaia, à beira-rio, mas também por termos, do lado direito, a sempre encantadora Ribeira do Porto. Soma-se a isto a dinâmica criada ao longo dos últimos anos. Turistas e portugueses que, quase à mesma hora, ocupam cada espaço disponível para assistir ao espetáculo. Há música, DJs, vendedores ambulantes, pastéis, cervejas e tudo o que se possa imaginar. Soube-se aproveitar uma oportunidade e, mês após mês, consolidou-se a marca do “Pôr do Sol no Jardim do Morro”.
É precisamente neste contexto que faço questão de o dizer. Na Praia da Vitória, temos um dos mais bonitos nascer do sol do nosso país.
Duvidam? Admito que possa ser suspeito, afinal sou praiense de gema, mas quem já teve o privilégio de assistir ao nascer do sol na nossa baía sabe bem do que falo. Claro que há um preço a pagar, acordar cedo. No inverno, o sol surge normalmente entre as 08h00 e as 08h30. No verão, entre as 06h00 e as 06h30. Ainda assim, conjugar uma caminhada ou uma corrida matinal com esse momento é, simplesmente, a combinação perfeita.
Na avenida marginal, em qualquer um dos pontões, de frente para a baía, com o olhar fixo no horizonte, começa-se a ver o céu a transformar-se em tons azulados e roxo-magenta. A brisa suave do mar, o som das marés a baterem na areia e a tranquilidade daquele instante fazem deste momento algo reservado aos mais atentos, quase aos mais sortudos.
É por isso que acredito que devemos saber “vender” estas pequenas grandes coisas que temos naturalmente. E o melhor de tudo é que não exigem investimentos de câmaras municipais, governos regionais ou até da União Europeia. São gratuitas. Estão ali todos os dias.
Primeiro, precisamos aprender a apreciar o que é nosso. Só depois poderemos mostrar e valorizar aquilo que temos como sendo, verdadeiramente, do melhor que existe. Não defendo que se replique a dinâmica do pôr do sol do Jardim do Morro. Defendo, sim, que saibamos reconhecer o valor do nascer do sol da Praia da Vitória e tirar partido dessa riqueza simples, autêntica e nossa.
Carlos Pinheiro