A democracia morre na escuridão. É esse o lema que permanece na montra do afamado jornal The Washington Post, e que simboliza aquilo que melhor representa o espírito livre do jornalismo. Na prática, o Post é agora o braço armado do bilionário Jeff Bezos, que controla a sua linha editorial de forma inflexível. Com a ascensão do ditador Trump à Casa Branca, e a queda das máscaras dos oligarcas americanos, o jornal passou a assumir uma postura clara, contra quem é adversário do dinheiro, procurando sempre favorecer os interesses do senhor do novo fascismo que agora emana das sedes do poder, nos Estados Unidos, para o resto do mundo.
A democracia morreu, às claras, e ninguém a conseguiu salvar. Lá. E cá? A realidade é inevitável, mesmo que continue a surpreender os mais distraídos desta vida, quando escutam debates e procuram soluções impossíveis de encontrar. Portugal, tal como o resto do mundo, segue a rota de colisão dos americanos. A polarização alcançou proporções monumentais e é agora quase impossível voltar ao que era dantes. Assim, o nosso país corre o risco sério de ser governado por um salazarista convicto, apoiado por neonazis e outros que tal, nos próximos dez anos, se não o for já agora, com as presidenciais de domingo, dia 8.
E o que é que isso tem a ver com o Washington Post? Quase tudo. Nos últimos tempos, graças ao esforço dantesco de algumas personalidades da nossa praça digital, conseguimos apurar a quantidade de vezes que o Ventura foi entrevistado. Às vezes, estão a transmitir uma conversa com ele, em direto, enquanto em rodapé vai passando mais informação sobre o seu gangue de alegados criminosos, e nos jornais de tiragem em papel, aludirem à sua ascensão e suposta inteligência. Quem o ouve com mais atenção sabe que ele não é tão brilhante como o querem vender. Mas, isso não interessa. O que vende é a polémica. O imediatismo. A luz dos holofotes jornalísticos que esmaga a democracia com mais força do que alguma escuridão poderia imaginar.
Já não me restam muitas dúvidas acerca do futuro estatuto de primeiro-ministro de Ventura. Espero apenas que seja como o primeiro mandato de Trump, e que o consigamos impedir de alcançar o segundo. Entristece-me ver como a comunicação social foi transformada, de pilar da democracia para instrumento deste novo poder, que joga com as regras velhas do absolutismo e dos salazarentos dossiers do dinheiro. Aprofundo a minha depressão ao perceber as ameaças que sofre o jornalismo. Problema profundo, com raízes nas dificuldades da periferia, aprofundadas pelas crises e finalmente cimentados em regras e estatutos que promovem o imediatismo e combatem a reflexão de acalmia.
Assim, resta-me apelar a que continuem a pensar pela sua cabeça e desconstruam as mentiras virais. A partir de hoje, serei mais concisa na minha opinião. Três mil e quinhentos caracteres. Eu respeito a lógica e reconheço o esforço hercúleo da comunicação social escrita na manutenção de espaço para as reflexões, mas aborrece-me a ideia de que só posso escrever dentro de uma baliza. A democracia morre, em jaulas. Esperemos que não seja o caso. E, no domingo, não se esqueçam de votar, e de votar com democracia, luz e humanidade, porque hoje são garrafões de água, mas futuramente sabemos nós se teremos acesso ao copo de água?
Alexandra Manes