Isabel Garcia, directora da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, considera essencial apoiar os jornais açorianos para garantir a preservação e a valorização da identidade da Região
O jornal Diário dos Açores, a celebrar hoje o seu 156º aniversário, é o jornal periódico que tem vindo a registar a vida quotidiana dos açorianos e a divulgar os acontecimentos mais importantes da região, desde o século XIX.
Segundo Isabel Garcia, directora da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (BPARPD), o nosso jornal é um dos três títulos de periódicos mais requisitado na Sala de Leitura da BPARPD.
O Diário dos Açores é maioritariamente requisitado por investigadores, pois muitas das notícias relatadas “são o mote para o desenvolvimento de linhas de estudo em determinadas temáticas”, afirma.
De que forma a preservação de jornais contribui para a história e identidade dos Açores?
Os jornais podem ser considerados fontes primárias de informação, pois registam factos, e divulgam os projectos e valores do quotidiano de uma comunidade. São de certa forma a primeira impressão e o transmissor da sua história e identidade. O conteúdo da informação dos jornais é igualmente fundamental para a edificação da identidade de um povo. Neste sentido são edificantes e edificadores ao mesmo tempo.
A preservação e divulgação dos jornais são condições essenciais para o fortalecimento do sentido de pertença a uma comunidade. A história e identidade dos Açores está espelhada na informação que os jornais transportam em cada época. Estes contêm habitualmente uma narração objectiva, mas reflectem os interesses e ideologias dos grupos que os produzem.
Nos Açores, tal como no resto do mundo, os jornais contribuem para a formação da opinião pública, influenciando comportamentos, transmitindo valores através de discursos que moldam a visão dos seus leitores. Os jornais são uma fonte histórica incontornável nos Açores, pois possibilitam compreender os factos e a sua interpretação à luz da época. Igualmente, permitem muitas vezes ter acesso à informação não registada na documentação oficial. Os jornais dos Açores são determinantes para a preservação da história e identidade açorianas no seu duplo exercício de veículo de informação e de produto cultural.
Tendo em conta que o Diário dos Açores é o jornal periódico mais antigo da região, qual é o seu valor histórico e documental?
O Diário dos Açores é o único que desde 5 de Fevereiro de 1870 chega diariamente aos leitores. Por isso, pode afirmar-se que é o mais antigo periódico diário da região. O seu valor histórico documental é enorme e incontornável pela consistência da cobertura diária do pulsar dos acontecimentos nos Açores e em particular na ilha de São Miguel e em Ponta Delgada. É um caso único na região, pois a maioria dos jornais têm periodicidade irregular, semanal ou quinzenal.
Outros jornais sofreram algumas interrupções na sua publicação ou alteraram a sua periodicidade ao longo dos anos. Mediante a consulta deste jornal é possível reconstituir a dinâmica da comunidade e colher as sensibilidades e tendências de cada época. A fundamentação das interpretações, das leituras e dos estudos históricos faz-se, em grande parte, com o recurso aos relatos e notícias veiculadas pelo Diário dos Açores, o que por si só demonstra a importância desta fonte de conhecimento.
O Diário dos Açores é muito requisitado? Quem o procura e porquê?
Pela experiência do atendimento ao longo dos anos, pode-se afirmar que é um dos três títulos de periódicos mais requisitado na Sala de Leitura da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. A estatística de leitura de periódicos é global, não particularizando os títulos consultados. Regista-se apenas a tipologia documental sendo que no ano de 2025, por exemplo, foram consultados 2080 periódicos, por 612 utilizadores/leitores. Não temos acesso às estatísticas da consulta deste periódico nas plataformas digitais.
Pela percepção no atendimento ao longo dos anos, e considerando o que acontece noutras bibliotecas, pode afirmar-se que este jornal é requisitado maioritariamente por investigadores. A sua consulta é útil para atestar interpretações históricas de acontecimentos da comunidade local. Muitas vezes as notícias relatadas no Diário dos Açores são o mote para o desenvolvimento de linhas de estudo em determinadas temáticas.
Qual é a dimensão actual do espólio de jornais existente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (BPARPD)?
Dos sete andares de depósitos da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, dois são exclusivamente compostos por publicações periódicas: o depósito das revistas e o depósito dos jornais. Existem 330 metros lineares de revistas, enquanto os jornais completam 315 metros lineares.
O acervo de jornais é composto por 590 títulos das mais variadas proveniências e periodicidades. Existem títulos internacionais como o The scientist e o Corriere del Mare, por exemplo. Os jornais nacionais são inúmeros entre os quais destaco o Diário de Notícias da Madeira, o Diário de Notícias, a República e o Expresso.
No que respeita aos jornais dos Açores podemos afirmar que temos a maioria dos títulos e os números publicados desde 1835 em quase todas as ilhas. Confirma-se a existência de todos os números dos títulos dos jornais micaelenses. Também existem no acervo da BPARPD jornais publicados na diáspora açoriana. Pode considerar-se que o acervo documental dos jornais da BPARPD é dos mais ricos e completos dos Açores e de Portugal.
Que importância têm as colecções particulares para o património documental da região?
As colecções particulares da BPARPD são o espelho da comunidade açoriana, em particular da sociedade micaelense. Através delas é possível reconstituir os valores e as tendências da época. Os livros e os periódicos que pertenceram a figuras de relevo da comunidade permitem respirar e perceber o espírito, preferências e tendências de pensamento.
O património documental dos Açores é de grande valor pela importância de colecções particulares como as dos irmãos Canto, de Teófilo Braga, de João Maria de Aguiar, de Antero de Quental, de Armando Cortes-Rodrigues, de Natália Correia e de Mota Amaral, por exemplo. Salienta-se o facto de algumas colecções terem números de jornais mais raros que complementam o acervo de jornais do fundo geral.
Os acervos de Teófilo Braga e de José Bruno Tavares Carreiro são exemplo de como se mantêm unidos, na mesma colecção, uma série de periódicos fundamentais para a pesquisa sobre os Açores, o mesmo aplicando-se às denominadas Miscelâneas dos irmãos Canto.
Que informações procuram os leitores, com mais frequência, nas edições mais antigas dos jornais?
As temáticas mais pesquisadas são grosso modo os factos e acontecimentos históricos sobre a Ilha de São Miguel e as cidades de Ponta Delgada e Ribeira Grande; dados históricos sobre determinadas instituições; notícias sobre acontecimentos políticos e económicos; dados biográficos sobre figuras de destaque no panorama regional, entre outros.
Quais são os principais problemas na preservação de jornais em papel?
O papel é ainda o suporte de informação com mais garantias de sobrevivência e utilidade. Não necessita de mediação de máquinas ou de software para a sua leitura e, se estiver em bom estado, pode em qualquer ocasião, de forma livre e autónoma, ser dado à leitura. A preservação do papel apresenta as mesmas dificuldades da preservação dos outros suportes de informação. Necessita ver garantidas as condições de humidade e temperatura de forma constante e com pouca variação.
Por outro lado, o acondicionamento de papel tem de ser garantido de modo a não modificar a sua estrutura e formato, assim como garantir a ausência de utensílios metálicos de acondicionamento. A desinfestação regular e a menor exposição à luz também são condições que precisam de ser respeitadas.
A falta de espaço, o desconhecimento das práticas de preservação e a falta de verbas que garantam estas condições são, do meu ponto de vista, as maiores dificuldades no que toca à preservação dos jornais em papel.
Considera importante apostar na digitalização do espólio jornalístico?
A digitalização dos jornais é fundamental por duas razões essenciais: permite maior e melhor acesso, assim como preserva o suporte original. Jornais digitalizados em formatos que permitam leituras OCR e pesquisas em texto livre garantem uma pesquisa mais abrangente, ainda que possam devolver ruído e excesso de informação.
A possibilidade de acesso remoto aos jornais também é um factor elementar para se apostar na digitalização dos jornais, pois democratiza o seu acesso e permite que, em qualquer ocasião ou lugar seja possível consultar os jornais. O manuseamento dos jornais constitui um desgaste para o papel, sendo que a sua consulta em formato digital não só permite a preservação do original como também possibilita melhor leitura.
A BPARPD tem algum projecto de digitalização dos jornais açorianos?
O plano de digitalização da BPARPD dá prioridade à identificação e selecção de títulos com maior desgaste físico, seguidos dos títulos mais consultados. Os jornais seleccionados são em primeiro lugar intervencionados no âmbito da Conservação e Restauro para a sua eventual desencadernação e limpeza. São digitalizados e de seguida são sujeitos a melhoria das imagens, introduzidos os metadados fundamentais para a sua recuperação e depois disponibilizados para consulta local.
Paralelamente, no âmbito do projecto da Autonomia Digital foi digitalizado um número considerável de periódicos do acervo desta BPARPD. Estes estão disponíveis para consulta local na plataforma ROD (Repositório de Objectos Digitais) e no site Azoreana.
Que vantagens traz o formato digital para investigadores e leitores em geral?
As vantagens da consulta digital para os investigadores são de vária ordem. Desde logo, o facto de a leitura poder ser feita em ecrã de formatos diversos, possibilita uma interface adaptável às necessidades de cada leitor, aumentando, por exemplo, o tamanho da letra e das imagens. Por outro lado, também permite a reprodução de algum conteúdo de forma rápida e eficaz.
Outra vantagem é o facto de se poder consultar um documento em qualquer lugar e a qualquer hora através do computador ou do telemóvel, garantindo a liberdade de acesso à informação, fomentando a democratização da cultura.
Que mensagem gostaria de deixar sobre o património jornalístico açoriano?
Gostaria de deixar uma palavra de orgulho no património cultural de valor incomensurável que são os jornais açorianos. A mensagem é de esperança que se continue a estimular e apoiar os jornais açorianos, pois são o garante da preservação da memória colectiva dos Açores e da valorização da sua identidade. Os jornais são o espelho da comunidade e como tal devem ser considerados um investimento colectivo para o futuro.
Por Nicole Bulhões
* [email protected] da identidade da Região
