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Quando as sociedades se olham sem se ver

Há filmes de guerra que procuram impressionar-nos com a adrenalina do combate. Outros, mais raros, tentam iluminar os pontos em que culturas diferentes se cruzam em conflito, revelando um paradoxo: dois mundos morais podem enfrentar-se e, ainda assim, falhar no reconhecimento mútuo no espelho da consciência. No fim da semana passado, vi novamente — pela primeira vez desde 1982 — a produção australiana-japonesa The Highest Honour. Fiz-lho de propósito, como pano de fundo para o que escrevo hoje sobre a história dos comandos australianos capturados após o ataque ao porto de Singapura durante a Segunda Guerra Mundial. O filme evoca um episódio militar em que duas visões morais se encontraram sem jamais se verem verdadeiramente.
Numa operação audaciosa, homens treinados para morrer se necessário — entendido como parte do dever — demonstraram uma coragem que até os seus captores, à sua maneira, puderam reconhecer. Contudo, o desfecho foi trágico. Os prisioneiros foram executados por decapitação — um gesto que, aos olhos ocidentais, parece bárbaro, mas que, no contexto militar japonês da época, obedecia a uma lógica interna distinta. Numa perspetiva das ciências sociais, este olhar retrospetivo não procura justificar, mas compreender como a cultura molda a mente e como a mente devolve significado à cultura.
Seria tentador explicar o que aconteceu com uma referência rápida ao bushido, a ética guerreira associada à tradição marcial histórica do Japão e mais tarde adaptada — através da ideologia do Estado moderno — a um quadro de disciplina, sacrifício e honra no século XX. Porém, o núcleo psicológico da tragédia não reside no código medieval dos samurais em si, mas na forma como um sistema moral prescritivo estruturava, entre certos oficiais, as noções de conduta correta e de justiça. Para eles, para além de inimigos capturados, os membros daquela força de elite continuavam a ser guerreiros que tinham aceite o sacrifício último — a possibilidade da morte. Nesse universo simbólico, a execução podia ser interpretada como reconhecimento da bravura: uma espécie de “respeito” sombrio, ancorado numa visão do mundo que colocava a morte honrosa acima da sobrevivência envergonhada.
Da perspetiva australiana, a interpretação era diferente, e tudo indica que assim permaneceu na memória enlutada de quem lutou e morreu a defender o seu país: enquadrada pela expectativa de que os prisioneiros de guerra devem ser protegidos por regras reconhecidas — as normas de Genebra e de Haia — e pela ideia de que a coragem se honra preservando a vida, não impondo a morte. Nesta visão ocidental, a decapitação não podia ser lida como homenagem, mas como violação flagrante — um ato de injustiça e brutalidade, que tentava revestir um crime hediondo de uma tradição inadmissível.
Num dos seus livros mais influentes (The Interpretation of Cultures, 1973), o antropólogo Clifford Geertz escreveu que vivemos “suspensos em teias de significado que nós próprios tecemos”. Cada cultura oferece um guia implícito que organiza o que vemos, o que sentimos e o que julgamos moral. Os oficiais japoneses e os comandos australianos habitavam teias diferentes — e, por isso, o mesmo ato carregava sentidos opostos. A mesma morte podia ser vivida simultaneamente como “honra” e como indignação.
A psicologia cultural ajuda a explicar esta distância. Richard Nisbett defendeu que as sociedades orientais e ocidentais tendem a desenvolver modos distintos de perceção e de avaliação moral (The Geography of Thought: How Asians and Westerners Think Differently… and Why, 2003). Não se trata apenas de valores, mas também de hábitos cognitivos que influenciam aquilo que parece “natural”, “necessário” ou “aceitável”. Assim, quando oficiais japoneses interpretavam a execução como forma de reconhecimento, estavam a agir dentro de um quadro moral e cognitivo coerente. E quando os australianos liam o mesmo ato como atrocidade, também agiam dentro do seu.
Em The Highest Honour, uma das figuras mais reveladoras é a de um oficial japonês que parece invulgarmente familiarizado com as formas ocidentais de pensar e que tenta — dentro dos limites da sua posição — impedir as execuções. Quer todos os detalhes dessa representação coincidam ou não com o registo histórico, o ponto psicológico mantém-se: é possível ser fluente numa língua e, ainda assim, não ser plenamente bicultural. É possível compreender intelectualmente a visão do mundo do outro e, ao mesmo tempo, permanecer vinculado às obrigações simbólicas e hierárquicas da própria cultura. Aqui lembramo-nos que a cultura não é apenas um conjunto de ideias— mas uma força que organiza a perceção, define o que é possível e delimita o que é imaginável.
Este episódio ajuda-nos a ver que muitos conflitos humanos não nascem apenas de interesses materiais, mas de mundos simbólicos incapazes de se reconhecer. A guerra é também um choque de universos morais. Quando duas culturas interpretam a mesma realidade através de códigos incompatíveis, o conflito torna-se possível mesmo sem malícia.
Esta ocorrência, há oito décadas, continua relevante para as relações humanas porque nos obriga a perguntar com que frequência — ainda hoje, tal como os indivíduos — as sociedades se olham sem verdadeiramente se verem.
Manuel Leal

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