Longe vão os tempos em que os jornais eram lidos e citados como fontes da verdade sobre o dito e o feito.
Estava escrito e confiava-se na fonte, quase como verdade absoluta e inapelável.
Mostrava-se ao amigo, no meio de uma discussão – lê, lê, para não dizeres que estou a mentir… – e assim se calava o interlocutor.
Presentemente, já não é assim. Já nem as imagens que as televisões divulgam e as redes sociais transmitem são prova irrefutável, devido à diversidade de visões e aos desenvolvimentos da Inteligêcia Artificial (IA).
Perante isto, em quem acreditar?
O termo “pós-verdade” passou a fazer parte da comunicação, sobretudo das redes sociais, em 2016, na sequência do Brexit e das eleiçõs presidenciais norte-americanas.
Pós-verdade é um termo usado para descrever situações em que fatos objetivos contam menos para formar opiniões públicas do que as emoções, crenças pessoais ou narrativas convenientes.
“A pós-verdade, segundo Lee McIntyre, não é simplesmente a afirmação de que a verdade é relativa, mas sim uma rejeição deliberada da ideia de verdade objetiva.” (McIntyre, 2018)
Desta forma, a desinformação não se espalha apenas por ignorância, mas por uma escolha consciente de negar as evidências que contrariem determinadas visões de mundo.
O diálogo democrático é grandemente afetado e o pensamento crítico penalizado por (in)certezas que não abonam em favor da verdade.
A verdade perde a força em favor da emoção, da certeza da opinião pessoal, das “verdades” de grupo, das designadas “fake-news”.
Desconfia-se e menospreza-se a ciência e a investigação, desvaloriza-se as instituições, o jornalismo e os seus profissionais, em favor de convicções pessoais e do grupo.
É este o mundo em que nos movemos: um mundo de desconfiança, de incertezas, de visões pessoais e grupais multifacetadas, de realidades diversas e fragmentadas, com implicações perniciosas na condução de políticas sociais, económicas, culturais, ambientais, etc.
A atualidade internacional é exemplo da desvaloriação da verdade, da palavra e dos conceitos universais que durante séculos promoveram e afirmaram civilizações e culturas. Este património é também pertença da imprensa escrita.
Com o intuito de informar e relatar acontecimentos, recorrendo a fontes credíveis, publicando e difundindo comentários e opiniões livres para educar e valorizar a sociedade, foi isto que motivou a imprensa escrita a propagar a verdade, doa a quem doer, e que ora passa por grandes dificuldades para se afirmar como parceira ativa e responsável por uma sociedade livre e plural.
É neste meio que se movem os arautos da pós-verdade, sabendo das facilidades que dispõem nas redes sociais para difundirem, sem quaisquer peias, as “fake-news”.
Já em 1967, Hannah Arendt, um dos teóricos deste assunto afirmara: “A mentira organizada sempre foi uma arma eficaz contra a verdade.”
Neste quadro sócio-político prosseguem a sua missão a imprensa escrita e o jornalismo, arrostando dificudades contra tendências organizadas que pretendem substituir-se ao direito à informação e à responsabilidade de comunicar a verdade, levando mensagens destorcidas aos seus fiéis. Missão difícil de preocupação diária o anunciar a verdade com isenção e independência, pois corre-se o risco de ser influenciado por poderes ávidos de protagonismo.
Por tudo isto passa, certamente, o mais antigo jornal Diário dos Açores que hoje celebra mais um anversário.
Aos seus proprietários e jornalistas desejo a força necessária para ultrapassar estas e futuras dificuldades, com a importante ajuda dos seus fiéis assinantes, anunciantes, leitores e colaboradores.
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A