“A açorianidade que aqui se desenha não é centrípeta, nem nostálgica. É uma identidade em trânsito, policêntrica, sustentada por estruturas comunitárias que funcionam como verdadeiras infraestruturas da memória.”
Leio o segundo número da revista Açorianidade, dedicado ao Espírito Santo, não como quem percorre um dossiê temático, mas como quem se aproxima de uma mesa antiga — dessas que sobreviveram a gerações, mudanças de casa, partidas e regressos. Uma mesa onde os objetos têm memória, onde os gestos se repetem não por hábito mecânico, mas porque continuam a fazer sentido.
Este número não é apenas um objeto editorial. É um gesto civilizacional. Um desses raros momentos em que uma comunidade se detém, olha para si própria e reconhece que a sua memória não é um arquivo imóvel, mas um princípio ativo de futuro. Ao reunir textos de enquadramento público, reflexões académicas e vozes enraizadas na experiência comunitária, a revista constrói um arco simbólico em que governação, fé, cultura e criação dialogam sem hierarquias rígidas — como numa mesa do Divino: ampla, partilhada, sem lugares marcados.
Há algo de particularmente significativo na forma como a palavra institucional surge nestas páginas. Não como imposição nem como discurso fechado, mas como gesto de cuidado. A responsabilidade pública aparece aqui como consciência de guarda: a noção de que há um património que não cabe apenas num território físico, nem numa cronologia administrativa. Um património que se estende por oceanos, atravessa geografias distantes e se reinscreve em contextos diversos, sem perder o seu eixo simbólico.
A açorianidade que aqui se desenha não é centrípeta, nem nostálgica. É uma identidade em trânsito, policêntrica, sustentada por estruturas comunitárias que funcionam como verdadeiras infraestruturas da memória. Não são apenas espaços associativos; são lugares de tradução cultural, de transmissão intergeracional, de diplomacia afetiva. A institucionalidade, neste contexto, não captura a festa nem a normaliza. Legitima-a. Protege-a do esquecimento e, sobretudo, da tentação redutora do folclore inofensivo.
Mas é quando a palavra desce do plano do enquadramento para o chão da experiência que a revista atinge a sua maior densidade humana. As comunicações de base — vindas da investigação, da prática cultural, da mediação comunitária, do jornalismo da diáspora — formam um coro polifónico em que o Espírito Santo surge como prática viva, adaptável e resistente.
Aqui, a festa deixa de ser objeto de descrição e passa a ser um exercício ético. Torna-se claro que o culto não pode sobreviver se perder o seu centro moral. Não é apenas coroa, bandeira ou ritual repetido: é compromisso com a igualdade, com a dignidade, com a mesa partilhada como utopia concreta. Essa advertência atravessa o volume como uma linha de tensão necessária.
Vivemos um tempo em que as tradições correm o risco de se tornarem espetáculo, mercadoria identitária ou decoração simbólica. Destacar os festejos — no sentido profundo do termo — não significa isolá-los do mundo contemporâneo, mas protegê-los de leituras empobrecidas. Significa reafirmar o seu núcleo: a recusa da exclusão, a suspensão provisória das hierarquias, a celebração da comunidade como valor ético, social e espiritual.
Um dos aspetos mais estimulantes deste número de Açorianidade é o que ele sugere — e ainda não esgota. O Espírito Santo é apontado como matriz cultural transversal, mas essa dimensão abre mais caminhos do que os aqui plenamente percorridos. E talvez isso seja uma virtude, não uma falha.
Intui-se, ao longo das páginas, que o Espírito Santo atravessa campos diversos: a música coletiva, onde o sopro partilhado ensina uma ética de escuta; a literatura e a poesia, onde símbolos antigos se transfiguram em metáforas de justiça, exílio e pertença; as artes visuais, na reinvenção contemporânea dos impérios; as artes cénicas, onde a ritualidade se transforma em dramaturgia do comum. Mas essas leituras permanecem, em grande parte, por fazer.
Falta ainda uma análise sistemática do Espírito Santo enquanto linguagem estética, enquanto imaginário artístico e enquanto força modeladora da criação contemporânea. Falta pensar mais demoradamente sobre o seu impacto na música, na literatura, na poesia, nas artes plásticas e cénicas — não como ilustração do ritual, mas como prolongamento crítico do seu sentido. Caberá aos fóruns que se seguirão aprofundar essas leituras, cruzar tradição e pensamento crítico, e abrir novos espaços de reflexão e criação.
Há, contudo, um outro gesto de cuidado que merece ser sublinhado e enaltecido: o bilinguismo integral da revista, apresentada em português e em inglês. Este não é um detalhe técnico nem uma concessão circunstancial. É uma escolha política e cultural no sentido mais nobre do termo. Ao escrever-se nas duas línguas, Açorianidade alarga a mesa, aproxima gerações e reconhece a realidade linguística das comunidades açorianas fora das ilhas.
Nos Estados Unidos, no Canadá, nas Bermudas — e em tantos outros lugares onde a língua de herança convive com a língua do quotidiano — este gesto abre portas. Permite que filhos e netos se aproximem da tradição não como espectadores distantes, mas como leitores plenos, capazes de compreender, interrogar e fazer sua a herança que lhes chegou fragmentada. O bilinguismo não dilui a identidade; traduz-lha. Não substitui a língua de origem; cria pontes para que ela continue a ser ouvida.
Por isso, importa dizê-lo com clareza e gratidão: um bem-haja por esse cuidado. Porque cuidar da língua é cuidar do futuro da comunidade.
No seu conjunto, este segundo número de Açorianidade funciona como o que descreve: uma mesa do Espírito Santo em escala alargada. À sua volta, sentam-se experiências distintas, saberes diversos, gerações separadas por oceanos — não para cristalizar uma identidade, mas para mantê-la respirável.
E talvez seja aqui que este número revele a sua lição mais profunda — e a sua mais luminosa conquista. Não apenas no que pensa, mas também no modo como cuida. Porque esta revista não se limita a escrever sobre o Espírito Santo: sabe olhar. O rigor dos textos encontra eco na atenção ao detalhe visual; a fotografia não ilustra, amplifica. Capta a luz dos impérios, o gesto anónimo da partilha, a solenidade simples das coroas e das mesas abertas. Cada imagem prolonga o pensamento, cada enquadramento devolve à tradição a sua espessura sensível, lembrando-nos que a cultura também se preserva pelo olhar.
É nesse entrelaçamento de palavra e imagem que as Festas do Divino se revelam como aquilo que verdadeiramente são: pontes em permanente construção. Pontes que ligam as ilhas à diáspora, a diáspora entre si, e todas elas a um mesmo centro simbólico que não se fixa num lugar, mas se move com as pessoas. Não são ecos longínquos de um passado cristalizado; são acontecimentos anuais do presente, vividos, preparados, esperados, atravessados por gerações que, a cada ciclo, renovam o sentido do que receberam.
As Festas do Divino não sobrevivem apesar do tempo — sobrevivem através do tempo. Cada mesa que se volta a montar, cada sopro de filarmónica, cada gesto repetido com variações subtis afirma que esta tradição não é ruína nem relíquia. É corpo em movimento. É comunidade em ato. É memória que se faz carne uma vez por ano — e que, nesse regresso ritual, projeta o futuro.
Enquanto houver quem prepare a festa como quem constrói uma ponte; enquanto houver mãos que abram mesas sem perguntar quem chega; enquanto houver imagens que saibam ver e palavras que saibam escutar; enquanto houver línguas diversas a dizer a mesma herança; enquanto houver vontade de pensar a tradição sem a esvaziar nem a domesticar — o Espírito Santo continuará a ser não um vestígio do que fomos, mas uma experiência viva do que somos e uma promessa ativa do que ainda podemos ser.
Diniz Borges