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Geografias do Invisível

Corpo, alma, açorianidade e universalidade
em Do Corpo e da Alma Paula de Sousa Lima

“A açorianidade respira fundo nestes contos não como tema explícito, mas como ritmo. Manifesta-se na relação com o tempo lento, com o silêncio, com a repetição e com a observação paciente.”

Há livros de contos que se organizam por acumulação; outros, mais raros, constroem-se como um arquipélago interior. Do Corpo e da Alma, de Paula de Sousa Lima, pertence claramente a esta segunda categoria: um conjunto de narrativas que dialogam entre si não por continuidade narrativa, mas por respiração comum. As ilhas — enquanto espaço físico, memória afetiva e condição existencial — funcionam aqui como fio invisível, conduzindo os contos como variações discretas de uma mesma interrogação essencial: como habitar o corpo e a alma num território onde o limite é permanente e a interioridade se impõe como forma de consciência.
A escrita de Paula de Sousa Lima distingue-se, desde as primeiras páginas, por uma limpidez expressiva rara. A linguagem é escorreita e precisa, marcada por uma sobriedade que nunca abdica da intensidade. Cada frase parece conhecer exatamente o seu peso e o seu alcance. Não há ornamentação excessiva nem dramatismo fácil; há uma economia rigorosa que confia na inteligência do leitor e na densidade do vivido. Trata-se de uma prosa que nasce da escuta — do tempo, da paisagem, das hesitações humanas — e transforma essa escuta numa cadência narrativa segura, contida, profundamente consciente de si.
Em As Coisas do Alto, conto inaugural, a ascensão física — a subida da rua íngreme, das escadas, dos degraus sucessivos — converte-se numa metáfora precisa de um processo interior de depuração. A caminhada não conduz à epifania, mas a um confronto silencioso consigo mesma. A paisagem, vista de cima, não é celebrada; é contida, quase recusada, como se o excesso de beleza pudesse distrair da tarefa mais exigente: permanecer consigo. Aqui, a açorianidade manifesta-se na relação ambígua com o horizonte, simultaneamente libertador e inquietante, promessa e risco.
Já em À Varanda, o movimento é inverso: não se sobe, observa-se. A varanda funciona como espaço liminar entre o dentro e o fora, entre o corpo resguardado e o mundo que passa. A ação é mínima, quase imóvel, mas a densidade emocional é profunda. A varanda deixa de ser apenas arquitetura doméstica para se tornar uma posição existencial. O olhar lançado sobre o quotidiano revela uma vida feita de espera, de atenção ao detalhe, de pequenos deslocamentos interiores. É neste tipo de gesto narrativo que Paula de Sousa Lima revela uma das suas maiores virtudes: transformar o quase nada em matéria literária plena.
Em Nas Margens da Ilha, a consciência insular torna-se ainda mais explícita. A margem surge como lugar simbólico — não o centro nem o afastamento total, mas o espaço onde se observa o movimento e se mede a distância entre o desejo e a possibilidade. A ilha não é prisão nem idílio; é condição. A personagem move-se nessa condição com lucidez, reconhecendo que, nos Açores, a interioridade não é fuga, mas resposta a um excesso de mundo concentrado num espaço reduzido.
A deslocação exterior mais evidente surge em Viagem a Roma, mas longe de funcionar como evasão exótica ou deslumbramento cultural, confirma precisamente o contrário. Roma, com o seu peso histórico, artístico e simbólico, não dissolve os dilemas da personagem — antes os torna mais nítidos. Rodeada de ruínas clássicas, igrejas e beleza monumental, a inquietação permanece a mesma. O conto afirma, com notável subtileza, uma das ideias centrais do livro: as viagens verdadeiramente decisivas são sempre do corpo e da alma, e os conflitos essenciais acompanham-nos mesmo nos lugares mais consagrados da cultura ocidental.
Há, neste conjunto de contos, uma rede de afinidades literárias que se estende para lá do espaço açoriano sem nunca o diluir, inscrevendo esta escrita numa constelação transatlântica onde a interioridade, o silêncio e o gesto mínimo constituem matéria ética da narrativa. Como em Raymond Carver, o essencial acontece nos interstícios, no que não é dito, nos movimentos quase impercetíveis que revelam fraturas interiores; como em John Cheever, o quotidiano aparentemente sereno deixa entrever tensões morais profundas; e como em Flannery O’Connor, a revelação nasce do confronto incómodo com aquilo que somos, não de qualquer promessa de redenção fácil. Esse rigor ético encontra eco, no espaço europeu, na contenção expressiva e na dignidade do gesto discreto que atravessam a prosa de Natalia Ginzburg, bem como na reflexão sobre o lugar vivido enquanto destino interior presente em Claudio Magris. No horizonte lusófono, a escrita de Paula de Sousa Lima aproxima-se da tensão ontológica de Vergílio Ferreira, dialoga com a clareza ética e espacial de Sophia de Mello Breyner Andresen, e encontra ainda ressonância na introspeção radical de Clarice Lispector, para quem a verdadeira viagem é sempre interior e a linguagem um instrumento de escavação do ser. Tal como nesses autores, também aqui a universalidade não nasce da abstração, mas do enraizamento: quanto mais a escrita se fixa no concreto das ilhas, dos corpos, das margens e dos silêncios, mais se abre a uma experiência humana partilhável.
A açorianidade respira fundo nestes contos não como tema explícito, mas como ritmo. Manifesta-se na relação com o tempo lento, com o silêncio, com a repetição e com a observação paciente. Revela-se na consciência do limite — geográfico, emocional, existencial — que obriga a uma vida interior densa. Os Açores surgem aqui como espaço de pensamento, como lugar que forma subjetividades reflexivas, introspetivas, profundamente atentas à fragilidade da experiência humana.
A importância desta coleção bilingue é, por isso, decisiva. A tradução de Avelina da Silveira não é um gesto acessório, mas constitutivo do projeto. Por ser escritora bilingue, a tradutora reconhece os ritmos, as pausas e as zonas de silêncio do texto original, recriando-os numa língua que não simplifica nem empobrece. A tradução preserva a respiração poética da prosa e confirma que a literatura, quando bem traduzida, não perde identidade — amplia-a.
Este aspeto é particularmente relevante no contexto açoriano. Nas escolas, este livro pode demonstrar que a literatura em tradução é também literatura plena, digna de leitura atenta e de fruição estética. Ao mesmo tempo, permite que leitores de língua inglesa acedam a uma escrita que revela os Açores para além do postal ilustrado, afirmando-os como espaço de criação literária madura, complexa e contemporânea.
No seu conjunto, Do Corpo e da Alma é um livro de maturidade estética e ética. Paula de Sousa Lima escreve com segurança formal, profundidade interior e uma rara capacidade de escuta. Os seus contos não procuram surpreender pelo enredo, mas pela revelação lenta que se opera no leitor. As ilhas, aqui, não são periferia: são centro de gravidade. E é a partir desse centro — onde o corpo sente e a alma pensa — que esta escrita alcança o universal.
Diniz Borges

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