Em Democracia, todos somos sujeitos participantes, e recetivos, da História, nas suas várias dimensões e extensões. Da nossa História Pessoal, da História da nossa Família, a História das Paróquias e Freguesias, da Região, do País, da Europa, do Mundo. Exercemos cidadania pelo voto, mas há várias formas de cidadania participativa, para além da representativa. E, depois das geringonças, que nunca aprovei, como cidadão, o que fica do nosso voto? Em que roleta poderá entrar, depois de consumado o ato eleitoral? É que, subjacente, está a lógica do poder, não a lógica do serviço. Os partidos políticos – essenciais em Democracia – não são plataformas para se instalarem no poder, mas estruturas que devem contribuir para a dinâmica e saúde dos sistemas políticos. Sem auto-regulação, os partidos podem tornar-se águas eutrofizadas e, pior, o sistema democrático. Metáfora tão gravemente entendida ao ver o estado da falta de saúde das nossas lagoas, nos Açores, em especial em S. Miguel, que agonizam proporcionalmente à venda de um turismo que – sem ser a intenção – vai destruir o melhor que temos, porque é visto pelo dá em milhões e não, também, pelo que estraga em milhões. Quem se dedica, como causa, às questões ambientais, deve ser seriamente apoiado. No livro Pensar como uma Montanha, Aldo Leopoldo fala na “dor biótica” da Terra. Não podemos fazer a História dos Açores sem olhar para o estado do ambiente, para a sua degradação progressiva, tudo isso exige a consciência da nossa historicidade, em Educação Histórica. Há uma relação entre Sociedade-Natureza-Tecnologia, como se estuda no Estudo do Meio.
A nossa situação na Terra é uma situação de co-responsabilidade, pessoas e organismos, nos vários planos e dimensões.
Paulo Freire (1921-1997) defende, com clarividência, que somos “sujeitos históricos” e que a “conscientização”, desde logo no livro de referência, em teoria e “práxis”, Pedagogia do Oprimido, mostra-nos, até de modo fenomenológico, as práticas de dominação e o caminho para a Liberdade, das pessoas e dos povos.
Hegel (1770-1831), entre outros, já o tinha visto, com nitidez. O escravo só se liberta quando toma consciência de que não é livre, não está num estado de liberdade. Aliás, para o estudo da historicidade e do valor da História, é importante contrapor duas conceções, Hegel e Nietzsche (1844-1900), respetivamente em Lições sobre a Filosofia da História Universal (Hegel) e Da Utilidade e Inconvenientes da História para a Vida (Nietzsche), dois livros fundamentais para desenvolver um Pensamento Histórico-Educacional sobre a problemática da História e da sua Didática que, para o ser, exige muito estudo, atenção, numa atitude de seriedade e verdade na Formação, sem o que toda a aparência é uma fraude, uma dissimulação.
Em Hegel todo o Percurso da Ideia e do Espírito na História vai na Direção da Liberdade, num processo dialético. Quem está com atenção, em situação de estudo, percebe, com claridade fenomenológica porque é que, em termos concetuais, direita e esquerda são filhas do mesmo pai, caso se acentue o Papel de Deus na História ou se caia na alienação marxista, que foi um mal, tal como a História o demonstrou, e demonstra.
Sempre senti esse apelo pela Liberdade, mas com Vínculo à Verdade, como o ramo à vinha. Era eu ainda muito menino e dentro de mim o Sentimento de Dignidade, que nos habita, sempre me fez lutar pelo direito à palavra, em mim era uma evidência e luz e combate que todos têm o direito de falar. Deus sabe a força que pôs no meu ser, para defender o ser de todos. Hoje tenho, em mim, o orgulho de ter sido, nos meus genes, a criança combativa que sempre fui e hoje vejo que essa chama está pura e viva, na Defesa da Verdade, da Justiça, dos valores. A nossa História começa, começou, no Pensamento de Deus e continuou no ventre da minha amada Mãe. Trago no sangue o Amor por Cristo, que mudou, para sempre o Sentido da História, Não há Verdade Histórica sem assumirmos a verdade que somos. Em Verdade e Liberdade sinto que a Iniciativa é sempre de Deus. A nossa História, em Vocação e Missão, começa em Deus. Isso não é passividade, é atividade colaborante. Lemos em Isaías, 49:1:”Ouvi-me ilhas, prestai atenção, povos de longe: quando ainda estava no ventre o Senhor chamou-me; quando eu ainda estava no seio da minha mãe pronunciou o meu nome. “. Quem destina o nosso destino? Por que razão a História está sem bússola, sem rumo, sem direção, sem horizonte? Este mundo não é de nenhum figurante do casino, este mundo é de Deus, e só Deus é O salvador do Mundo. Para onde pende os corações ávidos de dinheiro, poder e sexo? Tudo isso pode ser salvação, mas tudo isso pode ser perdição.
Verdade, liberdade, responsabilidade. Quem está a educar, e bem, a contra-corrente, sim, porque a corrente do mundanismo corre para os abismos, para as ravinas e precipícios, interiores e exteriores.
Os Delfins cantam, na Voz de Miguel Ângelo, com todo o vigor: “soltem os prisioneiros, em todo o mundo há prisioneiros”. Foi esse grito e essa ascese de conhecimento que levou Platão a escrever sobre a Alegoria da Caverna, na República. Por isso é que os filósofos é que deviam governar, uma vez contemplado o mundo das ideias, da Verdade, do Bem, da Justiça, da Beleza, e, uma vez contempladas essas ideias, o Filósofo munido do seu Conhecimento, desceria à cidade,- que também pode ser campo – à Polis, à Ágora, e construiria uma comunidade regulada por princípios, ideias e valores. Mas bem sabemos que vai uma distância entre o céu estrelado, de Kant (1724-1804), e o cosmos, a vida organizada nas sociedades. Hoje, para além da Ciência Política, que está em (des)fundamentação – o que resta, de previsível, com líderes loucos e psicopatas, com réplicas em muitas instituições do mundo? -, hoje temos de desenvolver uma Educação Histórica, no inevitável curso da Historicidade, indagando com e numa Educação Filosófica e Social, interrogando a Política e os agentes da política e exigindo, e praticando, uma cidadania reflexiva, crítica e prudencial. Dizer cidadania ativa, é quase nada, e redunda num aproveitamento e numa alienação, tão ao gosto de quem quis, em vão, manipular independentes que constituem das melhores reservas das sociedades, sem nunca subestimar a organização pluripartidária das democracias.
A palavra Mundo é polissémica, todos a usamos, de modo natural e intuitivo, embora possa ganhar várias significações. Na Educação pré-escolar uma das áreas é, precisamente, “Conhecimento do Mundo”. A Criança quando nasce é um Mundo Original e encontra um mundo, mundos, tantas vezes inóspitos e desumanos. Nesta nossa era, sem escrúpulos, vemos tantas crianças em que lhe são roubados direitos inalienáveis, só a Dignidade da sua sacralidade é o limite para com a monstruosidade de um mundo sem coração, isto é, dos malvados que fazem lucro com a guerra, espoliando os indefesos, e não olham às pessoas de carne e osso, que gritam e clamam por justiça. Que mundo é este? Como é possível, ainda, ensinar História, todavia, inevitável, mas só com quem ganha, em si, a consciência da (des)humanidade que vai ensinar nas várias dimensões da História, do Global e do Local, como nos ensina Edgar Morin, na sua longevidade de 104 anos de Idade. Edgar Morin tem mostrado que é urgente “ensinar a compreensão”, num mundo de complexidade em que os conflitos não são de natureza do crescimento cognitivo, mas das guerras, a que o mundo assiste como se esse mundo fosse de quem quer que seja. Este mundo é de todos, dado por Deus, e só um, Cristo, é O Salvador do Mundo. Sem introduzir a realidade de Deus no mundo, não percebemos que a História tem uma dimensão transcendente e metafísica, desde logo uma metafísica de carne e osso, de pessoas e povos concretos, que buscam a pátria que é uma família. A Família é tantas coisas, mas, no fundo, é uma Essência de Amor que se quer realizar. A Família é sempre a nossa Missão Maior e nela quem é mais vulnerável.
S. João Paulo II, por convicção profunda, e pela experiência trágica da sua amada Polónia, na II Guerra Mundial, fustigada, a leste, pelo comunismo estatal e a oeste pelo nazismo, barbaridades que conhecemos no século XX, mas parece que o século XXI se iniciaria com sangue. Até ao último Momento, o Vaticano opôs-se à invasão do Iraque, a qual provocou tantos danos, que se multiplicaram. E as guerras continuam, na ideologia de que o mal será extirpado do Mundo, o que só reforça que é pela Afirmação do Bem que o mal será combatido. Afirma S. Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, vence, antes, o mal com o bem” (rom, 12, 21). É uma exortação para gerar Sabedoria e Virtude da Harmonia pacífica, de contrário, é a “lei de talião, dente por dente, olho por olho”, que está igualmente no belicismo ocidental. Qualquer imperialismo é nocivo e pode ser letal, desrespeitando o Direito Internacional e a Integridade dos Povos.
No livro Lições da História. Podemos aprender com o nosso passado? (2025), afirma Edgar Morin: “É também na História, e através desta, que se revelam as qualidades excecionais dos heróis e dos santos.” E mais adiante, no texto, afirma: “Os santos são como testemunhas do melhor da Humanidade no caos e nas trevas da História,” (Morin, Edgar, 2025, pp: 81-82, Ed. Crítica). E os santos e santas nunca se cansam, porque têm imensa paciência para recomeçar e acreditar. Os santos e santas são o antídoto da Sociedade do Cansaço (Byung-Chul Han), uma sociedade da exaustão porque há um esvaziamento da interioridade e carece a força que vem da Transcendência. O Ser Humano, à escala global, e local, não tem nem imanência (interior), nem Transcendência. Como afirmou, tantas vezes, Bento XVI: “O Homem voltou as costas a Deus”. Por isso entra em desespero, destruição e auto-destruição, está em ravinas e precipícios.
A problematologia não valida o relativismo, nem a arbitrariedade. A problematologia abre-nos ao logos dos problemas, ao sentido, à significação, a problematologia coloca-se na busca, saudável e rigorosa, da verdade, recusa o proposicionalismo: “é assim porque é assim”, mas por que é que é assim, e não de outro modo? A problematologia recusa uma didática normativista e, pelo contrário, fundamenta uma Didática Reflexiva, na Didática Reflexiva um outro, a pessoa do aluno, o estudante, o formando, é chamada a pensar, com responsabilidade. Paulo Freire firma que o pensar “é trabalho, “dá trabalho”, se é feito com honestidade e seriedade. É preciso saber colocar e resolver problemas.
Onde estamos a aprender o Sentido da Historicidade da Pessoa Humana?
Emanuel Oliveira Medeiros*
Professor Universitário
*Doutorado e Agregado em Educação, Especialidade de Filosofia da Educação
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas