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“Pede desculpa, já!”

Na base de muitos comportamentos difíceis da criança, está um sentimento que nem sempre é fácil identificar: a VERGONHA, uma emoção que se manifesta como um misto de inadequação, inferioridade, humilhação e culpa, e que frequentemente está associada ao medo do julgamento alheio. Apesar de partilhar alguns sinais físicos e psicológicos com a timidez, a vergonha distingue-se desta no sentido em que leva a criança a acreditar que naquele momento não é digna de conexão com o outro, que não é digna do seu amor, do seu cuidado e da sua atenção, levando-a assim a evitar o contacto, não por timidez, mas porque não se sente merecedora da sua aprovação e do seu afeto, em resultado de uma avaliação negativa do seu comportamento e de si própria.
Nesse cenário, o sistema nervoso reage ativando uma resposta de congelamento, que pode traduzir-se, por exemplo, na incapacidade de pedir desculpa, no evitar dizer a verdade ou na incapacidade em dar a resposta solicitada, o que normalmente deixa os pais frustrados, já que a interpretação mais comum é a de que a criança está a ignorar ou a afrontar propositadamente o adulto que, ao invés de lidar com a vergonha que está a assomar a criança, tende a entrar em lutas de poder, acentuando o problema.
Quando observar que a sua criança parece congelada nesse tipo de reação, pondere que esta poderá ser uma resposta alimentada pela vergonha. Pare. Este não é o momento certo para exigir o comportamento pretendido, e sim para ajudar a criança a voltar a um estado de regulação, através da conexão consigo. Palavras gentis, tom de voz calmo, toque suave ou colo podem ajudar. Mais tarde, quando sentir que a vergonha já não faz a criança refém, diga “Sei que é difícil pedir desculpa. Também o é para mim, por vezes. Quando sentires dificuldade em fazê-lo, vou ajudar-te dizendo-o por ti até que consigas fazê-lo”. Dramatizar a situação ou situações semelhantes, recorrendo a brinquedos ou a role-play entre vós também é uma estratégia que normalmente resulta muito bem, principalmente com crianças mais pequenas.
Pode perguntar-se, “Se eu tomar a iniciativa de pedir desculpa pela criança, como é que ela vai aprender que precisa fazê-lo?”. Vai aprender pelo exemplo. Se conseguirmos colocar momentaneamente de lado o nosso objetivo de corrigir cegamente o comportamento, e nos focarmos no objetivo principal naquele momento (ajudar a criança a regular-se através da nossa conexão emocional com ela), ela estará mais disposta a aprender com o nosso exemplo e a utilizar essa aprendizagem no futuro.
Ter em mente que o comportamento da criança pode ter origem na vergonha e modelar o pedido de desculpa por ela é um tipo de abordagem educativa que proporciona regulação emocional, fortalecimento da relação com a criança e uma maior probabilidade de desenvolvimento da competência de pedir desculpa de forma autónoma, refletida e sentida.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Raquel Soares de Oliveira*

*Psicóloga desde 2003, com atuação na área da infância, adolescência e parentalidade. Atualmente, responsável pela Crescer Entre Nós.

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