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O “25 de Abril” há 45 anos: Embaixador dos EUA estava nos Açores no dia do golpe de estado

da 25 1da 25 2da 25 3O golpe de estado que restituiu a liberdade ao nosso país foi há 45 anos, uma quinta-feira de madrugada que durou mais do que um dia a chegar aos Açores com toda  informação do que se passava em Lisboa.

O Diário dos Açores desse dia trazia apenas uma notícia a uma coluna, no meio da primeira página, citando o Rádio Clube de Angra, onde se podia ler o seguinte: “Segundo notícias provenientes de diversas origens, podemos informar que se estabeleceu, às 4 horas de hoje, no continente, um movimento de militares que se intitula ‘Movimento das Forças Armadas’. Sabe-se que o quartel-general em Lisboa foi cercado pelas tropas e há movimento de militares no Terreiro do Paço e noutras zonas da capital.

O Rádio Clube Português foi tomado pelas forças deste movimento, tendo difundido apelos para que a população se mantivesse calma. Entretanto, reina a calma em todo o território do continente”.

A situação era ainda confusa, segundo relato do próprio dia 25 de Abril no Diário dos Açores, que dava conta na sua respectiva edição que o Embaixador dos EUA se encontrava nos Açores desde dois dias antes, visitando S. Miguel e depois Faial e Terceira, por onde sairia para os EUA. Em S. Miguel o embaixador norte-americano foi recebido pelo governador civil da altura, António Joaquim da Fonseca, que terá sido o seu último acto oficial, já que dois dias depois era “recambiado” para Lisboa com os outros governadores civis dos distritos destas ilhas.

Outra notícia que pontificava nesse dia era o anúncio de que a TWA faria mais uma escala da Europa para os EUA na ilha de Santa Maria a partir de Maio.

No dia seguinte o Diário dos Açores já dedicava, quase na totalidade, a sua primeira página às notícias sobre o golpe de estado, com uma foto do general Spínola, noticiando em fundo que uma Junta de Salvação Nacional detinha desde o dia anterior a condução política do país e que os ministros do governo de Marcelo Caetano, assim como este e o Presidente Américo Tomás, se encontrava na Madeira.

Curiosamente, o governador civil de Ponta Delgada, enviaria neste dia um telegrama ao general Spínola, dizendo que reinava a calma em S. Miguel e Santa Maria, terminando assim: “Até momento Vossa Excelência entenda necessário manter-nos-emos unidos dentro dos princípios objectivo bem social e político País”.

No dia 27 era noticiado que os aeroportos, incluindo os dos Açores, continuavam encerrados e só no dia 29 de Abril é que surgia na primeira página deste jornal o primeiro comunicado do Comando Territorial Independente dos Açores, assinado pelo governador militar dos Açores, Contra-Almirante Décio Braga da Silva, dando conta que os governos civis passavam a ser dirigidos pelos secretários até à nomeação de novos governadores pelo governo provisório. Informava ainda que as Forças Armadas nos Açores tinham ocupado as sedes da legião Portuguesa e da PIDE nesta cidade, com o seguinte relato: “No decorrer da entrega da delegação da DGS e quartéis da Legião Portuguesa em Ponta Delgada ao Exército, concentraram-se no largo fronteiro algumas centenas de pessoas que manifestaram com exuberância o seu apoio ao Movimento das F. A., com vivas e palmas à acção por estas desencadeadas, tendo em determinada altura a multidão cantado em coro o hino nacional. Não se registaram incidentes”.

Na mesma primeira página do Diário dos Açores, dia 29, uma segunda-feira, era noticiado que numa reunião havida no dia antes, um grupo de democratas “deste ilustre distrito” elegeu uma Comissão Provisória, que se propõe “apoiar os objectivos definidos no programa do Movimento das Forças Armadas, como ponto de partida para a instauração de um autêntico regime democrático em Portugal”. Assinavam este comunicado Álvaro Soares de melo, António Manuel da Silva melo, Eduardo Pontes, Humberto Pereira, Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, Júlio Diogo Soromenho Quintino e Manuel Barbosa. Ainda na primeira página, uma notícia sobre o regresso a Portugal de Mário Soares, que se encontrava exilado, mas com a curiosidade da foto publicada não ser a dele...

No dia 30 o jornal dava conta da serenidade que se vivia em Ponta Delgada e que tinha sido extinta a ANP e as comissões de censura, com as instalações a serem entregues aos militares nesta cidade.

No dia 1 de maio era feriado e no dia seguinte o jornal dava conta das grandes manifestações  por todo o país em honra do Trabalhador. Só neste dia também se dava conta de que um jovem açoriano, o estudante micaelense João Guilherme Arruda, tinha morrido em Lisboa durante os acontecimentos do 25 de Abril, através de uma rajada de metralhadora disparada das janelas da DGS, polícia política do antigo regime.

Só na edição do dia 6 de maio é que o “Diário dos Açores” publica em fundo um artigo de opinião sobre os acontecimentos, assinado por João Bosco Mota Amaral. O político que viria  a ter uma enorme influência no desenrolar dos acontecimentos nos anos seguintes, nos Açores, escrevia a determinada altura: “É preciso agora olhar para a frente! Não falo de mim próprio, mas de todos nós, micaelenses e marienses. Está em curso nas nossas ilhas, de há algum tempo para cá, um importante fenómeno de crescente interesse pelos problemas colectivos, sensível sobretudo nas gerações mais novas e acompanhado, como não podia deixar de ser, do desejo de participação. As condições são óptimas - livres de peias, as liberdades cívicas fundamentais - para dar livre curso a esse fenómeno e fazê-lo frutificar, em termos de um são pluralismo de ideias e instituições”.

E terminava com um desafio: “Não haverá quem me queira apoiar e prestar a sua colaboração?”.