Dois heróis da Calheta lembrados 100 anos depois na Ermida da Mãe de Deus

diario 7 fevNo próximo dia 3 de Fevereiro passam cem anos sobre a data em que no mar desapareceu um pescador da Calheta, Silvestre de Sousa Palheiro, que com seu irmão, Manuel Palheiro, tinha ido “lançar cofres” para a apanha de lagosta, numa embarcação à vela, tendo sido surpreendidos por uma variação do tempo que fez virar o barco. 

Silvestre Palheiro, cuja esposa, Emília do Carmo, tinha falecido há pouco, deixando três filhos pequenos, conseguiu que o irmão, que não sabia nadar, subisse para a quilha do barco e tentou nadar para terra para pedir socorro. Nunca mais foi visto. 

O irmão, Manuel Palheiro, acabaria por ser salvo por um cargueiro americano, de nome “Merry Mount”, e, sabendo da morte do seu irmão, tomou a cargo as crianças que ele deixou. 

Nunca casou e acabou por vir a falecer na Calheta, tendo sido tratado na velhice por aqueles que ajudou a criar.

Este acto de heroísmo vai ser assinalado, por uma iniciativa de João Freitas, bisneto do malogrado Silvestre Palheiro, com uma Missa de sufrágio e homenagem, a celebrar na Ermida da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, pelo cónego João Maria Brum, pároco de São Pedro e que será concelebrada também por monsenhor Weber Machado Pereira, residente na mesma freguesia.

Na Eucaristia evocativa, que decorrerá no dia 3 de Fevereiro – Segunda-feira – pelas 19 horas, haverá um momento de homenagem em que usará da palavra o jornalista Santos Narciso, a convite do promotor da iniciativa. 

Foi escolhida a Ermida da Mãe de Deus, porque, como ponto mais alto da freguesia de São Pedro e da cidade de Ponta Delgada, era verdadeiro farol para os pescadores da Calheta, tanto no sentido material como  na devoção que os pescadores tinham para com a Virgem que ali se venerava, na ermida que entretanto foi destruída, para dar lugar à que actualmente existe. E é na ermida da Mãe de Deus que ainda está o precioso andor dos Homens do mar, a réplica de uma nau portuguesa, que urge salvar e que ainda há dias foi motivo de uma chamada de atenção no jornal Correio dos Açores, assinado por Carlos Corvelo César, que tem dedicado muitos dos seus escritos e investigação à causa dos pescadores da Calheta.

O repto foi de imediato aceite pelo cónego João Maria Brum, não fosse ele natural da Vila de Rabo de Peixe, o maior centro piscatório dos Açores e também ele criado entre muitos dramas semelhantes a este, que marcam sempre as comunidades de pescadores.

A história de Silvestre e Manuel Palheiro foi contada, neste jornal Diário dos Açores, nos dias 5 e 7 de Fevereiro de 1920 e também pelo jornal “A República” e pelo então semanário Açoriano Oriental, no dia 7 do mesmo mês. 

Passados 25 anos, sobre a data do acontecimento, e pela pena do jornalista Silva Jr., o jornal Açores, então recentemente criado, publicou um extenso trabalho de homenagem sobre o desaparecimento da Silvestre Palheiro, contando a história de vida de Manuel Palheiro e de como cumpriu a promessa de cuidar dos filhos órfãos daquele que lhe salvou a vida.

Para evocar a data, João de Freitas, fotojornalista profissional, elaborou um pequeno opúsculo com uma recolha e textos jornalísticos e fotos, numa edição de 400 exemplares, a que deu o sugestivo título “Coragem e Honra”.