Nos 45 anos do 6 de Junho: “Lisboa, escuta: Os Açores estão em luta!"

6 de junho1975

Esta palavra de ordem ecoou em todas as nove ilhas dos três distritos autónomos do arquipélago dos Açores ao longo do ano pós-revolucionário de 1975. E culminou numa manifestação popular, sem precedentes, que gritou bem alto de Ponta Delgada para Lisboa. Nada ficou como dantes…

 

O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

 

Segundo os sete jornais diários das capitais distritais de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, de janeiro a dezembro de 1975 terão ocorrido cerca de quatro dezenas de manifestações populares nas ruas açorianas – catorze em S. Miguel, cinco na Terceira, Faial e Pico, duas em Santa Maria, Graciosa e S. Jorge, uma nas Flores e Corvo – naturalmente com dimensões diferentes e politicamente com motivações distintas: umas contra a governação nacional ou a favor da administração regional, outras anticomunistas ou anti separatistas, outras ainda por razões laborais ou corporativas.

A manifestação popular mais representativa e consequente invadiu a cidade de Ponta Delgada no dia 6 de junho, com demissão imediata do governador civil Borges Coutinho, e terá contribuído para obrigar ou acelerar a resolução concreta de problemas pendentes entre Lisboa e os Açores. Mas, entretanto, 35 personalidades alegadamente implicadas na sua organização não autorizada foram detidas em S. Miguel e inquiridas na Terceira.

Antes, a 25 de abril, os três distritos elegeram cinco deputados do PPD (Mota Amaral, Américo Viveiros, José Manuel Bettencourt, Ruben Raposo e Germano Domingos) e um do PS (Jaime Gama) para defesa dos interesses açorianos na Assembleia Constituinte.

Depois, a 26 de agosto, entra em funções a Junta Administrativa e de Desenvolvimento Regional dos Açores, presidida pelo governador militar Altino de Magalhães e constituída por seis vogais dos distritos autónomos de Ponta Delgada (Jácome Correia e Henrique de Aguiar), de Angra do Heroísmo (Borges de Carvalho, depois substituído por Álvaro Monjardino, e Leonildo Vargas) e da Horta (Pacheco de Almeida e Martins Goulart).

Por um lado, reclamava-se a independência. Primeiro o MAPA (Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano) e, depois e sobretudo, a FLA (Frente de Libertação dos Açores), em parceria com o “Comité Açoriano 75” junto da diáspora norte-americana, tanto anunciavam um governo na clandestinidade e um exército de libertação como lançavam um ultimato ao governo português. E, entretanto, ocorriam assaltos às sedes comunistas ou explodiam engenhos nas socialistas.

Por outro lado, preparava-se a autonomia. As organizações distritais do PPD, do PS e até do CDS, como antes o “Grupo dos Onze” e depois a própria Junta Regional, apresentavam os seus projetos de Estatuto para a Autonomia dos Açores, que culminariam nos contestados trabalhos da Oitava Comissão da Assembleia Constituinte.

De Lisboa chegavam os dirigentes partidários Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Miller Guerra, Freitas do Amaral; em Lisboa ficavam o presidente Costa Gomes e o primeiro-ministro Vasco Gonçalves; por Lisboa rebentavam o 11 de março e o 25 de novembro.

Afinal, 1975 foi um ano interessante e importante na política açoriana, de transição dos três distritos para a região autónoma. Também por causa da grande manifestação popular que invadiu a cidade de Ponta Delgada no dia 6 de junho e que a imprensa local classificou como “um marco histórico da vida dos Açores” …

 

AS HISTÓRIAS DA IMPRENSA

 

Na manhã do dia 7 de junho de 1975, o jornal Correio dos Açores reconstitui o percurso, regista os brados e retrata os cartazes da manifestação citadina:

“A manifestação engrossou-se rapidamente pelas ruas da cidade, engrossando cada vez mais, à medida que, na Rua João Melo Abreu, Machado dos Santos e Marquês da Praia, se dirigia para o Palácio do Governo Civil, num brado imenso de “Independência”, “Verdade nua e crua, Governador para a rua”, “O Povo está com a FLA”, “Se és Açoriano não fiques no passeio”, etc.. Vários cartazes espalhados ao longo do percurso faziam-se eco das finalidades da manifestação. Eis alguns que conseguimos fixar: “Fim à situação má da Lavoura açoriana. Fomos enganados – Liberdade não há! A ditadura continua. O Continente rouba-nos há séculos – Basta! Nós somos um povo diferente – nada de confusões. Fim às manobras do Governador e seus lacaios. Somos um Povo que quer ser respeitado”.

Na tarde do dia 7 de junho de 1975, o jornal Diário dos Açores recorda como se impulsionou e avolumou a manifestação popular:

“Muito embora a anunciada manifestação da lavoura micaelense tivesse sido superiormente proibida, com o avançar do dia de ontem a cidade de Ponta Delgada começou a acusar um movimento desusado, sobretudo na sua parte central, num aspeto denotando expetativa. Ao começo da tarde o movimento adensou-se, correndo de boca em boca que a manifestação seria levada a efeito. Na realidade, por cerca das 14 horas, começaram a afluir à baixa citadina viaturas pesadas transportando materiais como toros de madeira, areia, achas, blocos de cimento, brita, etc., enquanto grupos de pessoas a pé se faziam acompanhar de cartazes com frases de ordem e reivindicativas. Entretanto, o comércio, que mantivera as suas portas encerradas da parte da tarde, ofereceu forte caudal humano a engrossar a manifestação, que ordeiramente percorreu um longo itinerário, dirigindo-se finalmente para o Largo da Conceição, onde já se registava uma enorme concentração.”

Na manhã do dia 8 de junho de 1975, o jornal Açores arquiva os compromissos transmitidos aos manifestantes por Altino Pinto de Magalhães da varanda do Palácio da Conceição:

“Medidas urgentes em cuja execução se vai empenhar o General Comandante-Chefe dos Açores: (1) Nomear novo Governador; (2) Prorrogar por 3 meses o vencimento das letras em processo; (3) Preços nacionais para materiais básicos de construção, ferro e cimento; (4) Abaixamento dos custos de fretes marítimos para o nível internacional, nos sentidos Açores-Lisboa-Açores; (5) Fabrico das rações no arquipélago, com importação direta dos seus componentes; (6) Abrir a exportação de carnes; (7) Abrir a exportação de madeiras; (8) Estudar com prontidão o justo preço do leite; (9) Difundir normas sobre o processamento do crédito; (10) Estudo do problema de definição de um estatuto de autonomia administrativa para o Arquipélago dos Açores.”

 

OS NOMES PARA A HISTÓRIA

 

Quarenta anos depois, a Câmara Municipal de Ponta Delgada evocou a “grande manifestação popular em defesa dos interesses açorianos”. Fê-lo na data própria, a 6 de junho, no local certo, a Rua 6 de Junho, e da forma adequada, com uma placa memorial da relação nominal dos “micaelenses que foram presos de madrugada, em suas casas, por causa dela”:

Abel da Câmara Carreiro

Aguinaldo da Silva Almeida Carneiro 

Álvaro Pereira Branco Moreira

António Brum de Sousa Dourado

António Clemente Pereira da Costa Santos

António José de Amaral

António Manuel Gomes de Meneses 

António Nuno Alves da Câmara

Armando Guilherme Goyanes Machado

Bruno Tavares Carreiro

Carlos Eduardo da Silva Melo Bento

Eduardo José Pereira de Almeida Pavão

Fernando Manuel Mont’Alverne de Sequeira

Gualberto Borges Cabral 

Gustavo Manuel Soares Moura

João Gago da Câmara

João Luís Soares dos Reis Índio

João Manuel Furtado Rodrigues

José Joaquim Vaz Monteiro de Vasconcelos Franco

José Manuel Duarte Domingues

José Nuno de Almeida e Sousa

Luís dos Reis Índio

Luís Manuel Duarte Domingues

Luís Maria Duarte Moreira

Luís Octávio dos Reis Índio

Luís Ricardo Vaz Monteiro de Vasconcelos 

Manuel da Ponte Tavares de Brum

Manuel Oliveira da Ponte

Tomaz Faria Caetano

Valdemar de Lima Oliveira

Victor do Carmo Cruz

 

Estes nomes personificam uma multidão anónima e simbolizam uma luta coletiva. Que continua. Sempre.

Por José Andrade (Diretor do Gabinete de Estudos do PSD/Açores)

*Texto baseado no seu livro 1975 | Independência? – O “verão quente” nos Açores (Letras Lavadas, 2015)