Ordem dos Psicólogos: “Escolas deverão estar atentas ao modo como os alunos regressam e criar bem-estar psicológico”

aluno escola

Hoje é o começo de um novo dia para milhares de crianças e jovens nos Açores, com o regresso às escolas numa situação muito diferente do normal. Ficam aqui uma série de conselhos e sugestões para um regresso seguro, do ponto de vista mental, através de uma entrevista com a Presidente da Delegação da Ordem dos Psicólogos nos Açores, Luz Melo.

 

Vamos entrar num período novo, que é a reabertura das escolas dentro desta nova situação de pandemia. A nível de saúde mental há precauções a tomar? Quais são os conselhos da Ordem dos Psicólogos?

Será um ano em que toda a comunidade educativa enfrentará  desafios excepcionais perante a ameaça de uma 2ª vaga e em sequência do último ano lectivo particularmente exigente a nível escolar. 

De referir que a escola viu-se obrigada a mudar rapidamente, com alterações profundas nos contextos educativos, a nível do processo ensino/aprendizagem e estabelecendo novas interacções entre os vários intervenientes: alunos, professores, pais/cuidadores, outros profissionais e Escola.

Face a esta nova realidade, no início deste ano lectivo torna-se particularmente importante verificar como se encontram os alunos ao ingressarem na escola, já que nem todos tiveram acesso ao mesmo nem estarão todos ao mesmo nível. Há assim que estar atento ao perfil dos alunos no seu (re)ingresso na escola. 

É possível que cheguem com maiores dificuldades de atenção e menos auto regulados do ponto de vista sócio-emocional. 

É também natural que possa haver algum retrocesso após um longo período sem aulas presenciais. 

Paralelamente, alunos com dificuldades de aprendizagem, com comprometimento a nível do desenvolvimento ou do comportamento exigirão respostas diferenciadas. 

Será um período desafiante para todos em particular para os alunos com necessidades educativas específicas. 

Num ano que será diferente de todos os anteriores, torna-se ainda relevante ter uma particular atenção aos períodos de transição, como os do pré-escolar para o 1º ciclo ou para o 2º ciclo. 

O confinamento impediu muitas acções habituais e promotoras de uma melhor adaptação aos novos contextos escolares, como o conhecimento de um novo espaço físico na transição para o 1º ciclo. 

A transição para o 2º ciclo, será outro momento particularmente desafiador já que a criança terá que adicionalmente se ajustar a um ambiente diferente, com múltiplas disciplinas e à presença de colegas com idades muito diferentes. 

Face a estes desafios adicionais é importante, numa primeira fase ser mais flexível, trabalhar em parceria, desenvolver respostas específicas para problemas concretos que possam surgir. 

No início de um lectivo pautado por alguma incerteza, surgem inúmeras questões. 

Como se estabiliza as crianças e jovens que poderão apresentar dificuldade em se reajustar à escola após um longo período de ausência física? 

Serão necessários planos de recuperação académica e a nível sócio emocional? 

Estarão os professores capazes de responder a estes desafios após um ano de esforço extra, em que tiveram de adaptar as suas sessões ao ensino à distância e conciliar em simultâneo a sua vida familiar?  

De forma a salvaguardar o bem-estar mental de todos os envolvidos e em particular dos alunos, há que conciliar o interesse superior da criança às orientações da identidade da saúde pública através de uma análise intersectorial, incluindo a educação, a saúde pública e as questões sócio-económicas bem como numa avaliação dos benefícios e riscos associados às especificidades de cada contexto. 

Isto significa que, para além do cumprimento dos objectivos académicos e curriculares, a escola deverá estar atenta ao modo como os alunos voltam à escola e estabelecer um sentido de segurança e de bem-estar psicológico, que poderá ser rápido ou não, em função do perfil do aluno.

É, assim, importante que as Escolas estejam preparadas para responder a um conjunto de necessidades de saúde mental, por exemplo através de equipas criadas para o efeito ou do gabinete de saúde escolar já existente. 

As escolas devem integrar nos currículos a promoção de competências sociais, emocionais e saúde psicológica, de promoção de literacia em saúde e disponibilizar momentos formativos aos professores e outros profissionais.

 

Qual o papel da Ordem dos Psicólogos neste retomar das aulas?

Atenta a esta realidade a Ordem dos Psicólogos preparou em conjunto com a UNICEF um dossier para a comunidade educativa com recomendações dirigidas aos pais /cuidadores, professores e directores sobre o regresso à escola em tempo de pandemia. 

Em resposta ao que os pais/educadores podem fazer para facilitar o regresso à escola das crianças e jovens, é fundamental que reconheçam e identifiquem receios e sentimentos de ansiedade em si próprios e nas crianças e jovens de quem cuidam, promovendo formas saudáveis de lidar com eles. 

Conversem com a criança/jovem sobre o que lhes preocupa mas também sobre o que mais desejam no seu regresso à escola, ajudando-os a anteciparem aspectos positivos que promovam a sua auto-confiança. 

Preparem as crianças e jovens para as mudanças nos processos e logísticas habituais da escola. 

Enfatizem o papel da criança e jovem em manter-se saudável a si e aos outros. Restabeleçam em casa às rotinas relacionadas com a escola. Sintam e transmitem confiança na escola e estejam preparados para lidar com alguma ansiedade de separação. 

No final do dia conversem com elas sobre como foi o seu dia e procurem reservar algum tempo extra para estar com a criança e jovem. 

Participem e cooperem activamente no processo educativo dos filhos e mantenham um canal de comunicação aberto com a escola. 

Contribuam para o equilíbrio entre as actividades escolares e as actividades familiares. Mostrem-se   disponíveis para ouvir a criança/jovem, tentando compreender as suas facilidades e dificuldades no processo educativo, as suas preocupações e medos. Apoiem a realização de tarefas escolares, sempre que necessário, procurando contribuir para a autonomia e auto-regulação da criança/jovem no seu processo educativo. Estejam atentos aos sinais de alerta e comportamentos de risco e recorram ao apoio especializado do Psicólogo escolar na gestão do stresse e da ansiedade ou de outras dificuldades emocionais e comportamentais, sempre que sentirem necessário. 

 

E o papel das escolas?

A nível da promoção da saúde mental a escola tem um papel incontornável enquanto garante da saúde psicológica e do bem-estar de todos os seus intervenientes. As escolas devem reforçar a implementação de programas, projectos e/ou estratégias que visem aumentar os factores de protecção da Saúde Psicológica e da inclusão de todos os alunos. 

Integrar, intencionalmente, nos currículos, a promoção de competências sociais, emocionais e de Saúde Psicológica. 

Possuir procedimentos claros de avaliação de risco para os problemas de Saúde Psicológica, necessidades educativas específicas ou insucesso escolar, e de monitorização e intervenção precoce junto dos alunos. 

Reforçar as estruturas e recursos que dão resposta aos problemas educativos, de Saúde Psicológica e de inclusão mais frequentes (por exemplo, problemas de aprendizagem, absentismo e abandono escolar; dificuldades emocionais, relacionais, motivacionais e de ajustamento). 

 Seria, também, importante proporcionarem oportunidades, formais e informais, curriculares e extracurriculares, de promoção da Literacia em Saúde, nomeadamente Saúde Psicológica. 

Disponibilizar momentos formativos aos professores e outros profissionais para lidarem com as necessidades dos alunos, tanto de recuperação das aprendizagens como do seu Bem-estar físico, mental e social. A formação dos professores deveria contribuir para melhorar a capacidade em responder às necessidades académicas e sócio-emocionais dos alunos. 

Por último entre as várias medidas recomendadas é muito importante reconhecer que também os professores e os outros profissionais podem estar a vivenciar momentos de stresse e o auto-cuidado, para além de uma responsabilidade individual, deverá fazer parte e constituir uma prioridade na cultura da escola.

 

Num ano particularmente desafiador como o que hoje começa, a escola enquanto “equipa multidisciplinar” poderá constituir um recurso essencial à manutenção da saúde mental de todos os que integram a sua comunidade educativa. Bom início de ano escolar!

 

 

 

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