Morreu Daniel de Sá

dANIEL DE sÁ 2Morreu Daniel de Sá. A notícia caiu ontem de manhã e espalhou-se rapidamente pela comunicação social e pelas redes sociais, com milhares de reacções de vários pontos do mundo onde existem açorianos que conhecem a pessoa e a obra de um dos maiores escritores de sempre da açorianidade.
Daniel de Sá é uma figura imortal das letras e da cultura dos Açores, mas a sua memória fica, acima de tudo, pela profundidade da mensagem que deixa, numa simplicidade e humildade difíceis de atingir e impossíveis de aquilatar.
Nascido na Maia (de São Miguel, como fazia questão de sublinhar), a 2 de Março de 1944, fez a sua infância em Santa Maria, de 1946 até final dos anos cinquenta. Na Ilha de Gonçalo Velho faria parte dos seus estudos que completou no Externato Ribeiragrandense. Depois de frequentar o Magistério Primário de Ponta Delgada, chegou a leccionar na Maia, seguindo depois para Espanha onde tirou Filosofia e Teologia em Valência e Granada. Regressado de um tempo de aprendizagem onde bebeu uma cultura de que nunca mais se desviaria, no humanismo e na concepção filosófica da vida, fixou-se na Maia onde foi professor primário até à aposentação.
Dotado de grande capacidade de comunicação e de serviço, esteve sempre disponível para a causa pública. Intensifica a sua produção de artigos jornalísticos no início dos anos setenta, com especial incidência após a revolução do 25 de Abril de 1974.
Após o 6 de Junho de 1975, e logo que é criada a Junta Governativa Regional, Daniel de Sá é nomeado responsável pela área da comunicação social. Já depois de instaurada a Autonomia Constitucional, em 1976, cumpre dois mandatos como deputado regional, pelo Partido Socialista e ao nível autárquico distingue-se como Vereador da Câmara e Membro da Assembleia Municipal da Ribeira Grande. Foi condecorado como Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e foi-lhe atribuída também uma Insígnia Autonómica.
A obra de Daniel de Sá constitui, para os Açores, um acervo imorredouro, que só um génio poderia conceber. Desde o seu livro mais conhecido “Ilha Grande Fechada”, até ao “Deus dos Últimos”, uma colectânea de Contos de Natal que foi publicando ao longo dos anos, mais de uma dezena de outros títulos imortalizam o escritor que agora passa para a outra dimensão da vida. Com “Um Deus à beira da Loucura” ganha o Prémio Nunes da Rosa. “Crónica do Despovoamento das Ilhas” e “A Terra Permitida” granjearam-lhe, repetidamente, o prémio Gaspar Frutuoso, da cidade da Ribeira Grande.
Uma das obras mais belas mais intimistas de Daniel de Sá é “E Deus teve medo de ser Homem” que transmite a imagem plena dos dramas internos da pessoa humana em diálogo com vinte séculos após a crucifixão de Deus.
Não é este o lugar nem o tempo para mencionar todas as obras de Daniel de Sá. Mas deve salientar-se que se multiplicou em prefácios para obras de muitos e grandes autores, dos Açores e da diáspora. Muitas das obras de Daniel de Sá deram origem a teses de doutoramento e muito lhe ficam a dever os Açores, na sua divulgação, com textos memoráveis em guias e resenhas histórias em que colaborou, com inimitável categoria e magistral precisão histórica, já que era um estudioso sempre insatisfeito e sempre sedento de mais conhecimentos.
Daniel de Sá, no meio de toda a sua vida de trabalho, de estudo e produção literária, teve uma relação muito especial com o jornal Correio dos Açores de que era regular colaborador. Para além de colaboração assídua, era uma presença de honra nos Suplementos de Natal e Páscoa deste jornal, ao ponto de ele próprio afirmar que “para mim não é Natal completo, se não  tiver o meu conto no Correio dos Açores”, contos estes que, como já referimos, foram reunidos em livro “O Deus dos Últimos”, editado pela Ver Açor.
Ao fazer este registo, não se pode olvidar a qualidade de ensino que ministrou a várias gerações de alunos que hoje se sentem marcados pela pedagogia ao mesmo tempo exigente e humana que conferia ás suas aulas. Nem se pode esquecer o papel que desempenhou na sua terra, a Maia, participando em todas as iniciativas a que era chamado, em vários domínios de que se destacam obras sociais e culturais, com especial destaque para os encontros de escritores açorianos em cuja génese esteve.
Homem de Fé e profunda vivência cristã, toda a sua obra respira a sede do Infinito que o norteava e que transparecia de toda a sua vida, gestos e palavras.
Não vamos dizer que os Açores estão mais pobres com a partida de Daniel de Sá. De facto, se ele e a sua obra estavam até agora ao nosso lado, passaram, agora, para dentro de nós, como testamento de açorianidade que o tempo não diluirá.

Daniel de Sá vai a enterrar hoje

Era casado com D. Maria Alice Pereira Rodrigues Sá. Deixa três filhos: Sara Rodrigues Sá casada com Frederico Vasco, Carolina Rodrigues Sá casada com Sérgio Lourenço; e Rodrigo Rodrigues Sá casado com Maura Sá.
Era avô de Marta Sá Vasco; Tiago Sá Vasco e Isabel Sá Lourenço.
Era irmão de Aura Raposo de Sá, viúva de Carlos Quental. Era cunhado de Fernando Rodrigues casado com Susete Câmara, Roberto Rodrigues casado com Isabel Tavares e João Rodrigues casado com Clotilde Serpa Rodrigues.
O seu corpo está, em câmara ardente, na Casa Mortuária da Maia, ao lado da Igreja e o funeral realiza-se hoje, terça-feira, pelas 16 horas com missa de corpo presente na Igreja Paroquial ao que se segue o cortejo fúnebre para o cemitério da Maia.